Um crânio de equidna gigante ficou 119 anos guardado em um museu australiano sem que ninguém soubesse o que era — até que um pesquisador resolveu olhar de perto e descobriu um animal três vezes maior que os atuais, preenchendo uma lacuna de mil quilômetros na história da megafauna
Em 1907, exploradores retiraram um crânio fragmentado de uma caverna chamada Foul Air Cave — que traduzido literalmente significa “Caverna do Ar Fétido” — na região de East Gippsland, no estado de Victoria, Austrália.
O fóssil foi levado para o acervo do Museums Victoria, catalogado e esquecido em uma gaveta por mais de um século.
Ninguém imaginava que aquele crânio pertencia a uma equidna gigante — um parente próximo do ornitorrinco que viveu durante o Pleistoceno e pesava tanto quanto uma criança de quatro anos.
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Segundo pesquisadores do Museums Victoria Research Institute, a identificação foi feita apenas em 2021 por Tim Ziegler, que percebeu a importância do espécime ao compará-lo com fósseis de outras regiões da Austrália.
O estudo foi publicado na revista científica Alcheringa: An Australasian Journal of Palaeontology.

A equidna gigante tinha 1 metro e pesava 16 quilos — três vezes mais que as atuais
A espécie identificada é a Megalibgwilia owenii, conhecida como equidna gigante de Owen.
Esse animal media até 1 metro de comprimento e pesava entre 15 e 16 quilos.
Para ter uma ideia da escala, a equidna-de-bico-curto que vive hoje na Austrália mede cerca de meio metro e pesa entre 5 e 7 quilos.
Ou seja, a versão pré-histórica era três vezes mais pesada que a atual e quase o dobro do tamanho.
Comparada ao ornitorrinco — outro monotremado australiano —, a equidna gigante era ainda mais impressionante: o ornitorrinco raramente ultrapassa 3 quilos.
A equidna gigante, portanto, era o maior monotremado terrestre do seu tempo.

Por que era um mistério de 120 anos: faltava uma peça em mil quilômetros
Antes dessa redescoberta, fósseis de equidna gigante haviam sido encontrados apenas na Tasmânia e em New South Wales.
Entre esses dois pontos existe uma distância de aproximadamente mil quilômetros — e nenhum registro da espécie em Victoria.
Isso era considerado estranho pelos paleontólogos.
Victoria tinha todas as condições ambientais ideais para abrigar o animal durante o período glacial.
A ausência de evidências criava o que os cientistas chamam de lacuna biogeográfica.
Sem o fóssil de Victoria, não era possível confirmar que a equidna gigante se distribuía de forma contínua pelo sudeste da Austrália.
A identificação do crânio da Foul Air Cave preencheu exatamente essa lacuna de mil quilômetros.
Agora os cientistas podem afirmar que a espécie migrava por toda a faixa costeira do sudeste australiano durante o Pleistoceno.
Como um fóssil ficou esquecido por 119 anos dentro de um museu
Museus de história natural guardam milhões de espécimes em seus acervos.
Muitos deles são coletados em expedições de campo e catalogados de forma genérica, sem uma análise aprofundada.
Foi exatamente o que aconteceu com o crânio da Foul Air Cave.
Coletado em 1907, ele foi armazenado no Museums Victoria como um fóssil comum.
Somente em 2021, mais de um século depois, o pesquisador Tim Ziegler decidiu revisitar coleções antigas do museu.
Ao examinar o crânio e compará-lo com materiais científicos de outros museus da Austrália, Ziegler percebeu que se tratava de uma equidna gigante.
A identificação foi feita estudando a anatomia do crânio remanescente e comparando com espécimes de museus públicos de toda a Austrália.
Depois disso, a equipe de Ziegler e Jeremy Lockett revisitou a caverna original para contextualizar o achado.

Equidnas e ornitorrincos: os últimos monotremados do planeta
A equidna pertence ao grupo dos monotremados — mamíferos que botam ovos.
Hoje, os únicos monotremados vivos são as equidnas e o ornitorrinco, todos exclusivos da Austrália e da Nova Guiné.
Esse grupo é considerado um dos mais antigos entre os mamíferos.
No Pleistoceno, porém, a diversidade era muito maior.
Existiam equidnas do tamanho de ovelhas, ornitorrincos gigantes e outros monotremados que não sobreviveram às mudanças climáticas.
A descoberta da equidna gigante em Victoria reforça que a megafauna monotremada era mais disseminada do que se pensava.
O Pleistoceno australiano: um mundo de gigantes
O Pleistoceno foi a época geológica que durou de 2,6 milhões a cerca de 11 mil anos atrás.
Na Austrália, esse período ficou famoso pela megafauna: animais de grande porte que desapareceram.
Entre eles estavam cangurus de 3 metros de altura, wombats do tamanho de carros e lagartos predadores de 5 metros.
A equidna gigante fazia parte desse elenco de animais enormes que dominaram o continente.
A maioria desapareceu entre 50 mil e 10 mil anos atrás, provavelmente por uma combinação de mudanças climáticas e a chegada dos primeiros humanos à Austrália.
Quando a descoberta está dentro do museu, não no campo
Essa história ilustra um fenômeno cada vez mais comum na paleontologia moderna.
Muitas das grandes descobertas recentes não vêm de escavações em lugares remotos.
Elas vêm da revisão de acervos antigos com olhos novos e tecnologia atualizada.
O crânio da equidna gigante estava disponível para estudo desde 1907.
Bastou que alguém com o conhecimento certo fizesse a pergunta certa.
Estima-se que museus de história natural ao redor do mundo guardem milhões de espécimes ainda não descritos formalmente.
Cada gaveta pode conter a próxima grande revelação sobre o passado da Terra.
O que ainda falta esclarecer
Apesar da importância da redescoberta, o estudo tem limitações.
O crânio está fragmentado, o que dificulta uma classificação taxonômica definitiva.
Existe debate entre especialistas sobre se o espécime pertence à subespécie Megalibgwilia owenii ou à Megalibgwilia robusta.
Além disso, como o fóssil foi coletado há mais de um século, as informações sobre o contexto geológico original são limitadas.
Os pesquisadores revisitaram a caverna, mas as condições do sítio mudaram ao longo de 119 anos.
Ainda assim, a identificação é considerada robusta o suficiente para confirmar a presença da equidna gigante em Victoria pela primeira vez.
Novas expedições à região de East Gippsland podem revelar fósseis adicionais que ajudem a completar o quebra-cabeça.
