Sobreviventes do incêndio que destruiu o complexo Wang Fuk Court em Hong Kong e matou 168 pessoas estão usando pernas robóticas exoesqueleto para subir dezenas de andares e recuperar pertences. Com prédios de 31 andares sem elevadores operando, idosos como Fanny Mok, de 59 anos, treinam com equipamentos da chinesa Hypershell para ter apenas três horas de acesso aos apartamentos.
Mais de quatro meses após o incêndio que destruiu o complexo habitacional Wang Fuk Court no distrito de Tai Po, ao norte de Hong Kong, e matou 168 pessoas, os sobreviventes estão finalmente se preparando para voltar e recolher o que restou de suas vidas. Mas para chegar até seus apartamentos, muitos deles idosos, estão usando pernas robóticas exoesqueleto emprestadas que os ajudam a subir escadas em prédios de 31 andares onde os elevadores não estão em funcionamento. Fanny Mok, de 59 anos, que morou no 13º andar do complexo nos últimos 30 anos, é uma das dezenas de vítimas que treinam com as pernas robóticas para conseguir completar a subida. “Meus joelhos doem, não tenho forças e fico com falta de ar”, disse ela, descrevendo por que o equipamento é essencial.
A operação de retorno aos apartamentos acontecerá entre 20 de abril e 4 de maio, e cada família terá apenas três horas para recolher seus pertences. As pernas robóticas são fabricadas pela Hypershell, uma empresa de robótica de Xangai, e foram disponibilizadas por uma ONG chamada AidVengers Federation, que também oferece sessões de treinamento para que os ex-moradores aprendam a operar os exoesqueletos com segurança. A taxa de aprovação nos testes de uso tem sido de 70%, o que significa que cerca de 30% dos sobreviventes que tentam usar as pernas robóticas não conseguem operá-las e precisarão encontrar outras formas de subir até seus antigos lares.
O incêndio que destruiu o Wang Fuk Court e deixou 4 mil pessoas desalojadas

imagem: EPA/BBC
O incêndio no complexo habitacional Wang Fuk Court aconteceu no final de novembro do ano passado e foi um dos mais letais da história de Hong Kong. O fogo consumiu sete torres do conjunto, matou 168 pessoas e desalojou mais de 4 mil moradores que desde então vivem em acomodações temporárias espalhadas pela cidade, incluindo albergues e quartos improvisados. O Wang Fuk Court foi construído na década de 1980 e abrigava 4.600 pessoas, das quais mais de um terço tinha mais de 65 anos.
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A combinação de um complexo habitacional antigo, com infraestrutura contra incêndio defasada, e uma população predominantemente idosa tornou o desastre particularmente devastador. Para os sobreviventes, os quatro meses de espera para poder retornar aos apartamentos foram de angústia, sem saber se seus pertences mais importantes, incluindo documentos, dinheiro, fotos de família e objetos de valor sentimental, sobreviveram ao fogo e à água usada para combatê-lo. O retorno com as pernas robóticas é a primeira chance que terão de descobrir.
Como as pernas robóticas ajudam idosos a subir 31 andares

Segundo informações do portal Reuters, as pernas robóticas usadas pelos sobreviventes são exoesqueletos que se acoplam às pernas do usuário e fornecem assistência motorizada durante a caminhada e a subida de escadas. O equipamento compensa a perda de força muscular, dor articular e problemas respiratórios que tornariam impossível para muitos idosos subir mais de dez andares a pé, especialmente em um complexo onde os elevadores estão fora de operação após o incêndio.
Fanny Mok, que precisa chegar ao 13º andar, tem praticado a subida usando as pernas robóticas em um prédio próximo ao Wang Fuk Court. “Existe uma necessidade real. Se eu tivesse 30 anos, não precisaria disso. Mas aos 60, eu realmente preciso”, explicou ela, resumindo a situação de dezenas de ex-moradores que enfrentam o mesmo desafio. Betty Ho, de 61 anos, que viveu no 15º andar por 35 anos, também se prepara para a subida com pernas robóticas, esperando recuperar dinheiro guardado no apartamento e álbuns de fotos de família que documentam décadas de sua vida.
O desafio de condensar 30 anos de vida em três horas
O limite de três horas imposto pela operação de retorno acrescenta uma camada de urgência emocional ao desafio físico da subida com as pernas robóticas. Os ex-moradores precisam subir, selecionar o que levar, embalar e descer com seus pertences em um intervalo que mal seria suficiente para uma mudança comum, muito menos para separar objetos de valor entre escombros de um incêndio em um apartamento onde viveram por décadas.
Betty Ho expressou a dificuldade de forma direta. “Como é possível se desfazer de tudo com que você conviveu por décadas em apenas três horas? É praticamente impossível. Desapegar-se das coisas é realmente muito difícil”, disse ela, que espera encontrar e salvar álbuns de fotos que cobrem desde sua infância até a vida adulta. Para muitos sobreviventes, as pernas robóticas resolvem o problema de chegar ao apartamento, mas o limite de tempo cria outro problema que nenhuma tecnologia consegue solucionar: escolher o que importa quando tudo importa.
A tecnologia chinesa por trás das pernas robóticas que estão ajudando Hong Kong
As pernas robóticas utilizadas pelos sobreviventes são fabricadas pela Hypershell, empresa de robótica sediada em Xangai que desenvolve exoesqueletos para diversas aplicações. Os equipamentos foram disponibilizados pela ONG AidVengers Federation, que organizou sessões de treinamento com os ex-moradores para garantir que soubessem operar os exoesqueletos com segurança antes de subir dezenas de andares em prédios danificados pelo fogo.
O processo de habilitação não é automático. Cada usuário precisa passar por um teste antes de ser autorizado a operar as pernas robóticas, e a taxa de aprovação de 70% indica que o equipamento exige um nível mínimo de coordenação motora e força que nem todos os idosos conseguem alcançar. Para os 30% que não passam no teste, a subida precisa ser feita com ajuda de voluntários ou familiares mais jovens, um desafio adicional em um complexo onde a maioria dos moradores era de idade avançada.
O que a história das pernas robóticas em Hong Kong revela sobre envelhecimento e tecnologia
A cena de idosos de 60 anos usando exoesqueletos fabricados na China para subir escadas em um prédio destruído por incêndio é um retrato concentrado de vários temas que definem o século XXI. O envelhecimento da população, a precariedade da infraestrutura habitacional em grandes cidades, a capacidade da tecnologia de compensar limitações humanas e a fragilidade de vidas inteiras destruídas em horas se encontram nessa operação que mistura robótica de ponta com desespero humano.
Para Fanny Mok, Betty Ho e as centenas de sobreviventes que aguardam a janela de retorno, as pernas robóticas não são uma curiosidade tecnológica, são a diferença entre conseguir ou não recuperar os últimos vestígios de 30 anos de vida em um apartamento que pode nunca mais ser habitável. A tecnologia resolve a subida, mas não resolve a perda. Quando as três horas terminarem e os sobreviventes descerem com o que conseguiram salvar, as pernas robóticas terão cumprido sua função. O trabalho de reconstruir o resto cabe apenas a eles.
Sobreviventes de incêndio em Hong Kong usam pernas robóticas para subir ao 13º andar e recuperar pertences. Você conseguiria condensar 30 anos de vida em três horas? Essa tecnologia deveria estar disponível em mais situações de emergência? Deixe sua opinião nos comentários.
