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Quase ninguém sabe, mas submarinos nucleares modernos usam “escudos acústicos” para absorver ondas de sonar e reduzir drasticamente sua assinatura no fundo do oceano

Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 20/02/2026 às 19:15
Assista o vídeoSilenciosamente cobertos por milhares de placas anecoicas, submarinos nucleares modernos usam “escudos acústicos” para absorver ondas de sonar e reduzir drasticamente sua assinatura no fundo do oceano
Silenciosamente cobertos por milhares de placas anecoicas, submarinos nucleares modernos usam “escudos acústicos” para absorver ondas de sonar e reduzir drasticamente sua assinatura no fundo do oceano
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Revestimentos anecoicos absorvem ondas de sonar e reduzem a assinatura acústica de submarinos nucleares, peça-chave da dissuasão no fundo do mar.

No centro da guerra submarina moderna existe uma disputa invisível ao olhar humano: a batalha pelo som. Desde a Segunda Guerra Mundial, detectar ou não detectar um submarino depende, em grande parte, da física acústica. Em um ambiente onde a luz praticamente não penetra e radares não funcionam debaixo d’água, o som é o principal meio de localização.

É nesse cenário que surgem os revestimentos anecoicos — placas aplicadas no casco externo de submarinos militares com a função de absorver e dispersar ondas sonoras emitidas por sonares inimigos. O objetivo é simples na teoria e complexo na prática: reduzir o eco e dificultar a detecção.

Essa tecnologia é hoje considerada parte essencial da furtividade submarina estratégica.

Como o sonar detecta um submarino

A detecção submarina ocorre principalmente por dois métodos:

  • Sonar ativo, que emite ondas sonoras e analisa o eco refletido.
  • Sonar passivo, que apenas escuta ruídos produzidos pelo alvo.

No sonar ativo, o princípio é semelhante ao de um radar acústico. Um pulso sonoro é enviado na água e, ao atingir um objeto sólido, parte da energia retorna ao emissor. Esse retorno permite calcular distância e posição.

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Um casco metálico tradicional reflete parte significativa dessa energia sonora, criando um eco detectável.

Os revestimentos anecoicos atuam exatamente nesse ponto: reduzem a reflexão da onda sonora ao absorver parte da energia incidente.

O que são placas anecoicas

As placas anecoicas são camadas de borracha sintética ou polímeros especiais fixadas ao casco externo do submarino. Elas contêm milhares de cavidades microscópicas internas, projetadas para capturar ondas sonoras em diferentes frequências.

Quando uma onda de sonar atinge a superfície revestida, parte da energia entra nessas cavidades e é dissipada, transformando-se em calor microscópico em vez de retornar como eco.

Silenciosamente cobertos por milhares de placas anecoicas, submarinos nucleares modernos usam “escudos acústicos” para absorver ondas de sonar e reduzir drasticamente sua assinatura no fundo do oceano
Silenciosamente cobertos por milhares de placas anecoicas, submarinos nucleares modernos usam “escudos acústicos” para absorver ondas de sonar e reduzir drasticamente sua assinatura no fundo do oceano

Esse processo não elimina totalmente a reflexão, mas pode reduzi-la significativamente.

Além de absorver ondas externas, o revestimento também ajuda a amortecer vibrações internas, diminuindo o ruído gerado pelo próprio submarino — fator crucial contra sonar passivo.

Origem na Segunda Guerra Mundial

O conceito não é recente. A Alemanha nazista desenvolveu durante a Segunda Guerra Mundial um revestimento chamado Alberich, aplicado em alguns submarinos U-boat.

A intenção era reduzir a eficácia do sonar aliado, que vinha se tornando cada vez mais eficiente.

Após a guerra, tanto Estados Unidos quanto União Soviética estudaram e aperfeiçoaram o conceito. Durante a Guerra Fria, o tema tornou-se estratégico.

Submarinos soviéticos, conhecidos por serem mais ruidosos que os americanos nas primeiras décadas do conflito, passaram a receber revestimentos espessos para compensar essa desvantagem acústica.

Evolução tecnológica na Guerra Fria

Ao longo dos anos 1970 e 1980, a corrida acústica entre EUA e URSS intensificou-se. Sistemas de vigilância como o SOSUS, rede americana de hidrofones instalados no fundo do Atlântico, eram capazes de detectar ruídos submarinos a longas distâncias.

Reduzir assinatura acústica tornou-se prioridade estratégica.

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Submarinos nucleares lançadores de mísseis balísticos, responsáveis pela chamada “segunda resposta nuclear”, precisavam permanecer ocultos para garantir capacidade de retaliação.

Quanto mais silencioso o submarino, maior a eficácia da dissuasão. Revestimentos anecoicos passaram a ser aplicados de forma padronizada em submarinos estratégicos.

Aplicação em submarinos modernos

Hoje, classes como Virginia e Seawolf, dos Estados Unidos, e Borei e Yasen, da Rússia, utilizam revestimentos acústicos avançados.

Essas placas modernas apresentam:

  • Estruturas multicamadas
  • Cavidades calibradas para diferentes frequências
  • Alta resistência à pressão
  • Durabilidade em longas patrulhas

Um submarino nuclear pode operar a centenas de metros de profundidade, onde a pressão hidrostática é dezenas de vezes superior à atmosférica. O revestimento precisa manter integridade estrutural sob essas condições extremas. Além disso, deve resistir a impacto hidrodinâmico constante e à corrosão da água salgada.

Não é invisibilidade total

Apesar da eficiência, o revestimento anecoico não torna o submarino invisível. A guerra submarina moderna envolve múltiplas camadas de detecção:

  • Sonar de baixa frequência de longo alcance
  • Redes de sensores no fundo do mar
  • Análise de perturbações superficiais
  • Sistemas magnéticos

O revestimento é apenas uma parte de um conjunto maior que inclui:

  • Isolamento de motores em suportes amortecidos
  • Propulsão projetada para reduzir cavitação
  • Design hidrodinâmico otimizado
  • Controle rigoroso de vibrações internas

O objetivo é reduzir a assinatura acústica global do navio. Durante a Guerra Fria, houve relatos de placas se soltando de submarinos soviéticos após longas patrulhas.

Quando uma placa se desprendia, criava turbulência adicional e, paradoxalmente, podia aumentar o ruído detectável. Com o avanço dos materiais e métodos de fixação, a confiabilidade aumentou significativamente.

Ainda assim, manutenção é constante. Submarinos passam por inspeções periódicas para garantir que o revestimento esteja íntegro.

Por que isso é estratégico

Submarinos nucleares estratégicos transportam mísseis balísticos intercontinentais.

Sua função principal é garantir capacidade de retaliação caso o país sofra ataque nuclear. Essa capacidade depende de um fator essencial: sobrevivência.

Se um submarino puder ser localizado facilmente, sua função de dissuasão perde credibilidade. O revestimento anecoico, portanto, não é apenas um detalhe técnico. Ele faz parte da arquitetura da estabilidade nuclear global.

A guerra que não faz barulho

A disputa pela superioridade acústica raramente aparece em manchetes. Não envolve explosões visíveis ou demonstrações públicas de força.

É uma corrida silenciosa, baseada em física, engenharia de materiais e modelagem matemática. Enquanto sonares varrem oceanos em busca de assinaturas mínimas, submarinos continuam navegando sob camadas de absorção acústica projetadas para reduzir cada eco possível.

É uma batalha invisível que ocorre a centenas de metros abaixo da superfície, onde o som decide quem detecta primeiro.

E, nesse ambiente, milhares de pequenas cavidades microscópicas podem fazer a diferença entre ser ouvido ou permanecer invisível.

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Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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