Corretor de imóveis brasileiro radicado na Flórida explica o sistema construtivo usado nos Estados Unidos e mostra por que a ausência de laje de concreto está diretamente ligada à resistência a furacões, ao custo da obra e até a acidentes domésticos
De acordo com vídeo publicado em 28 de junho de 2026 no canal Ricardo Molina USA, no YouTube, o corretor de imóveis brasileiro Ricardo Molina, radicado em Orlando, na Flórida, explica um dos detalhes que mais chama atenção de brasileiros ao visitar ou comprar uma casa nos Estados Unidos: a ausência de laje de concreto. Diferente do padrão construtivo predominante no Brasil, a maioria das casas americanas é erguida sobre um sistema chamado radier, e o motivo dessa escolha vai muito além da estética.
Segundo Molina, entender essa diferença exige conhecer, em primeiro lugar, como funciona a fundação dessas residências. Nesse sentido, o radier funciona como uma espécie de laje invertida: uma camada de concreto de 20 a 30 centímetros de espessura, aplicada diretamente sobre areia compactada, que serve de base para toda a construção. A partir daí, o restante do processo segue uma lógica bem diferente da que o brasileiro está acostumado a ver em uma obra residencial.
A fundação que substitui a laje: como funciona o sistema radier

Sobre o radier, o primeiro andar da casa costuma ser erguido inteiramente em bloco estrutural. Nesse sistema, pequenas colunas de concreto são posicionadas a cada 2,5 metros, aproximadamente, garantindo a sustentação das paredes. Além disso, todas as vigas que ficam sobre vãos maiores — como o de uma porta de garagem, por exemplo — já chegam pré-moldadas à obra, com dimensões específicas para suportar o peso da estrutura. Uma viga usada sobre uma garagem, segundo Molina, costuma ter cerca de 30 centímetros de largura por 20 centímetros de altura, sensivelmente mais larga do que normalmente se vê em construções brasileiras equivalentes.
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Outro detalhe técnico chama atenção: a última fiada de blocos, no topo da parede, é do tipo canaleta, preenchida internamente com concreto. É justamente nessa cinta de concreto que ficam embutidos tirantes de aço galvanizado — peças responsáveis por unir, de forma extremamente resistente, a parte de alvenaria com a estrutura de madeira que será construída por cima. Ainda que essa combinação entre madeira e concreto pareça pouco confiável para quem está habituado ao padrão brasileiro, é justamente esse engastamento que permite que as casas americanas resistam bem a ventos fortes.
A partir desse ponto, a construção segue para o que, no Brasil, costuma gerar mais dúvidas: o famoso wood frame, sistema no qual a parte superior da casa é erguida com madeiras espaçadas a cada 16 polegadas, intertravadas entre si e depois fechadas com placas de drywall. É também nessa etapa que a planta da casa começa a ficar visível — paredes internas definidas, tubulação de água já instalada e pressurizada, prontas para receber os acabamentos finais.
Wood frame, treliças e a ausência da laje: por que isso é seguro — e onde mora o risco

Mas o ponto central da explicação de Molina está no que substitui a laje no teto da casa: treliças de madeira, calculadas e fornecidas por empresas especializadas em madeira estrutural. Essas peças já chegam à obra sob medida, prontas para serem encaixadas, o que explica a rapidez da montagem — um caminhão entrega as vigas numeradas, e cada uma é posicionada em seu lugar específico, permitindo que um telhado inteiro seja instalado em um único dia.
Quando a casa é térrea, a parte de baixo do telhado recebe apenas uma camada de drywall, seguida de isopor ou outro material isolante (insulation), cuja função é conter o calor que vem da cobertura. Aqui, contudo, está um detalhe estrutural que tem consequências sérias: esse forro de drywall não foi projetado para suportar o peso de uma pessoa caminhando sobre ele — apenas para sustentar a camada de isolamento térmico.
Foi justamente esse detalhe que, segundo Molina, explica o acidente que matou o apresentador Gugu Liberato, em novembro de 2019, dentro de sua própria casa, na Flórida. Ao subir ao espaço acima do forro, Gugu teria interpretado a estrutura como uma laje de concreto, nos moldes do que se vê normalmente no Brasil. Ao pisar sobre o vão de drywall — que não possui resistência para esse tipo de carga — ele caiu de cabeça, em um acidente fatal. O caso, lembrado por Molina como exemplo prático, reforça a importância de conhecer as limitações reais desse material antes de circular por áreas que, à primeira vista, parecem seguras.
Vale destacar, ainda, que essa vulnerabilidade não é regra em todas as construções. Quando a casa é um sobrado — ou seja, tem mais de um pavimento —, uma camada adicional de compensado de madeira é instalada por cima do drywall, justamente para suportar o peso de pessoas circulando no andar superior. Outro ponto técnico mencionado por Molina envolve o espaço criado entre o forro e o telhado, conhecido como “attic” nos Estados Unidos — equivalente ao sótão no Brasil. Por ali passam toda a tubulação de ar-condicionado e a fiação elétrica da casa, além de funcionar como camada extra de isolamento térmico contra o calor intenso da Flórida. Não por acaso, o conforto térmico é uma preocupação constante nas construções americanas: praticamente todas contam com ar-condicionado central, e quanto melhor o isolamento da casa, maior a vida útil do equipamento e menor o consumo de energia.
Vale a pena pedir laje de concreto mesmo assim? Custo, furacões e terremotos
Diante de tantos detalhes técnicos, surge a pergunta mais comum entre brasileiros que avaliam comprar ou construir uma casa nos Estados Unidos: é possível pedir uma laje de concreto, do jeito que se constrói no Brasil? Segundo Molina, sim — mas o pedido tem um preço. Além do concreto em si, apontado como o material mais caro de toda a obra, o maior impacto financeiro vem da fundação. Como o sistema radier foi projetado para suportar o peso de uma estrutura de madeira, qualquer aumento significativo de carga — como o de uma laje de concreto — exige reforços adicionais, como sapatas e brocas, calculados especificamente por um engenheiro.
Por outro lado, Molina chama atenção para um ponto importante: a motivação mais comum entre brasileiros para querer uma laje é o medo de furacões — e, segundo ele, essa preocupação pode não fazer tanto sentido no contexto americano. As construções em wood frame seguem códigos de obra calculados para resistir a furacões de categoria 5, o nível mais alto da escala. Dificilmente, segundo o corretor, um furacão consegue arrancar a parte superior de uma casa nova construída dentro desse padrão e causar danos a quem está embaixo. As imagens de casas destruídas por furacões, comuns no litoral da Flórida, geralmente mostram construções antigas, erguidas antes da exigência de resistência à categoria 5 — e, na maioria dos casos, o dano maior não vem do vento, e sim da água.
Ainda assim, contudo, existe um cenário em que a laje de concreto representa, de fato, um risco maior: o de terremotos. Embora a Flórida não tenha esse tipo de ocorrência, estados como a Califórnia, situados sobre a placa tectônica do Pacífico, enfrentam esse risco com frequência. Nesses casos, segundo Molina, uma laje de concreto pode colapsar durante um tremor e causar ferimentos graves a quem estiver embaixo, justamente por causa do peso do material. Já uma estrutura de madeira, por ser mais flexível, tende a oscilar e se ajustar ao movimento sísmico, dificilmente colapsando sobre os moradores.
A conclusão de Molina é direta: quem deseja uma laje de concreto simplesmente por preferência pessoal, e está disposto a pagar mais por isso, pode solicitá-la sem problemas. Já quem pretende fazer esse pedido pensando exclusivamente em proteção contra furacões, talvez esteja resolvendo, com a lógica brasileira, um problema que, no contexto americano, nem chega a existir.
Especializado em ajudar brasileiros a entender o funcionamento do mercado imobiliário americano, Molina é corretor de imóveis desde 2004 e mora nos Estados Unidos há anos, depois de trocar, segundo conta em seu próprio canal, uma volta ao mundo de veleiro por uma nova vida na Flórida — hoje dedicada a desmistificar, para o público brasileiro, as diferenças entre construir e morar nos dois países.
Diante de tantas diferenças estruturais entre os dois países, fica uma reflexão: será que o medo de furacões realmente justifica abrir mão de um sistema construtivo mais barato, mais flexível e tecnicamente preparado para esse tipo de desastre natural — ou esse é só mais um caso de tentar resolver, com a régua brasileira, um problema que os Estados Unidos já resolveram à sua própria maneira?

