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Fredolino, aos 84 anos, guarda em sua propriedade dezenas de gamelas de cedro talhadas à mão, um machado herdado do pai e a história de uma vida dedicada à roça e às tradições do interior de Santa Catarina

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Escrito por Felipe Alves da Silva Publicado em 28/06/2026 às 16:06 Atualizado em 28/06/2026 às 16:08
Assista o vídeoHomem idoso talhando tronco de madeira de cedro para fazer gamela artesanal em propriedade rural de Santa Catarina
Fredolino talha um tronco de cedro para transformá-lo em gamela, técnica que aprendeu ainda criança com o pai. Imagem: Reprodução/ Canal Vila Agrícola
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Morador de Angelina, no interior de Santa Catarina, ele aprendeu o ofício observando o próprio pai trabalhar a madeira ainda quando era criança, em uma época em que a roça e o artesanato se misturavam no dia a dia da família

Segundo reportagem produzida pelo canal Vale Agrícola e publicada em 10 de outubro de 2022, Angelina, pequeno município do interior de Santa Catarina, guarda um dos últimos representantes de um ofício que está cada vez mais raro no Brasil. Aos 84 anos, Fredolino faz gamelas de madeira há 72 anos — ou seja, desde a infância, quando aprendeu o trabalho observando o próprio pai. Foi ele quem lhe ensinou, ainda menino, a transformar troncos brutos em utensílios que, por décadas, estiveram presentes em praticamente todas as tarefas domésticas das famílias do interior catarinense.

Nesse aprendizado, duas matérias-primas se tornaram protagonistas: a madeira e o ferro. Durante quase um século, essa combinação foi essencial na vida rural — o machado que derrubava as árvores e a ferramenta que ajudava a transformar troncos em móveis e utensílios eram, ao mesmo tempo, instrumentos de trabalho e sinônimo de riqueza, sobretudo quando manejados com habilidade e conhecimento. E poucas pessoas conhecem esse manejo tão bem quanto Fredolino.

Da floresta nativa à oficina: o cedro que se transforma em gamela

O segredo está na raiz: por que essa parte da árvore rende gamelas mais resistentes e sem emendas
A madeira nativa que Fredolino conhece como poucos, transformada à mão em utensílios que atravessam gerações. Imagem: Reprodução/ Canal Vale Agrícola

Na propriedade onde vive, em Angelina, Fredolino utiliza o cedro — uma das árvores mais resistentes da mata nativa — como matéria-prima principal para suas gamelas. Segundo o artesão, a raiz da árvore é até melhor do que o tronco para esse tipo de trabalho, já que permite que a peça seja talhada sem emendas, aproveitando o formato natural da madeira.

A origem desse utensílio, aliás, é incerta. Há quem defenda que a gamela seria uma adaptação das bacias de barro usadas pelos povos indígenas; outros acreditam que ela surgiu como alternativa mais barata para famílias de imigrantes, que não tinham condições de comprar louças ou recipientes prontos. Fosse qual fosse a origem, o resultado é o mesmo: durante muito tempo, a gamela foi usada para praticamente tudo dentro de uma casa de roça — de lavar alimentos a servir refeições.

Esse ofício está no DNA de Fredolino desde criança. Ele lembra que o pai, que aprendeu a fazer gamelas antes dele, praticamente não tinha descanso. “Daí eu fiz aquela até meia-noite, de manhã cedo chegou”, contou, relembrando episódios em que terminava uma peça durante a madrugada para entregá-la já na manhã seguinte. Além disso, ele recorda que o cliente satisfeito “passava a mão no bolso” para pagar — um gesto importante numa época em que o dinheiro era escasso, e a gamela também funcionava, na prática, como uma espécie de moeda de troca entre famílias.

Uma vida dividida entre a roça, a oficina e uma família grande

Com o tempo, Fredolino se casou com Dona Maria, e o casal seguiu o mesmo caminho que os pais dele haviam seguido antes: conciliar a lida na roça com o artesanato em madeira. Juntos, eles construíram a própria casa na localidade conhecida como Mangueirão e criaram uma família numerosa — segundo o relato do casal, tiveram entre nove e dez filhos, sendo que um deles nasceu sem vida. Atualmente, oito ainda estão vivos.

Foram tempos difíceis, como o próprio casal reconhece. Mesmo as crianças mais pequenas precisavam acompanhar os pais na roça, ajudando no que fosse possível. Dessa época, aliás, vem uma das lembranças mais marcantes da família: um susto com uma cobra que apareceu perto do berço de um dos filhos, em um momento em que cuidar das crianças no campo também significava ficar atento a esse tipo de risco constante, comum na rotina de quem vivia — e ainda vive — em contato direto com a natureza.

Ainda assim, contudo, o casal manteve a rotina de trabalho por décadas, sempre equilibrando a agricultura, que garantia o sustento da família, com a produção das gamelas, que complementava a renda e mantinha viva uma tradição passada de geração em geração.

Mesmo aposentado, a tradição continua viva nas mãos de Fredolino

A madeira nativa que Fredolino conhece como poucos, transformada à mão em utensílios que atravessam gerações
Da mata para a oficina: o processo artesanal que poucos ainda sabem fazer no interior catarinense. Imagem: Reprodução/ Canal Vila Agrícola

Hoje aposentado da lida pesada na roça e com os filhos já criados, Fredolino faz questão de manter viva a tradição de produzir gamelas de madeira. Ele mostra, com orgulho, peças de diferentes tamanhos: das pequenas, usadas como fruteiras, até as maiores, ideais para temperar carnes e servir churrascos — segundo ele, até melhores para a coluna do que recipientes de metal ou plástico, por serem mais leves de manusear.

Um detalhe chama atenção em cada peça: a ausência de emendas, resultado direto do tamanho da raiz utilizada na talha. Curiosamente, a mesma madeira empregada na confecção das gamelas também serve para fazer o cabo do machado usado no processo — uma espécie de ciclo fechado entre ferramenta e produto final.

No acabamento, o tempo também conta uma história de transformação. Atualmente, com o auxílio de lixadeiras elétricas e outras ferramentas modernas, uma gamela pode ser finalizada em poucos dias. Antigamente, contudo, todo o processo era manual e consumia noites inteiras de trabalho, à luz de lamparina, até que a peça ficasse pronta para o uso ou para a venda.

Outro aspecto interessante levantado durante a conversa foi a chamada lenda rural sobre as gamelas — a ideia de que o mesmo recipiente usado para lavar os pés também servia para fazer pão. Sobre isso, o casal contou uma história real e bem-humorada: em uma noite em que a casa passava por reformas e Dona Maria preparava pão, o bebê da família foi colocado dentro de uma gamela para dormir por perto, em um improviso de berço. A cena, recheada de humor e simplicidade, ilustra bem como o utensílio realmente servia para quase tudo dentro de uma casa de roça.

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Naquela época, aliás, as casas costumavam ter várias gamelas, usadas para lavar roupas, limpar a casa e armazenar alimentos. Era também comum reunir entre 25 e 30 pessoas em mutirões de trabalho — práticas coletivas em que, apesar da rotina pesada, todos comiam bem, fortalecendo os laços entre vizinhos e familiares.

Entre os objetos guardados por Fredolino, há ainda um curioso jogo de boliche de madeira feito por ele mesmo há décadas, item que, segundo o artesão, já viajou até o Rio Grande do Sul e voltou para sua propriedade. As próprias gamelas, aliás, também ganharam o país: as maiores peças já foram vendidas para compradores de cidades como Brusque e de outros estados, incluindo o Rio Grande do Sul, cada uma com um preço diferente, definido pelo próprio artesão.

Hoje, Fredolino leva cerca de um dia para concluir cada gamela. Como Dona Maria já não pode ajudar como antes, ele passou a contar com os netos, principalmente na hora de serrar a madeira com o motor, depois de riscar o formato da peça. Ele reconhece, no entanto, que o ritmo está mais lento — e que encontrar troncos grandes como os de antigamente está cada vez mais difícil. Por isso, a tendência é que as próximas peças sejam menores.

Apesar de já ter treinado outras pessoas no ofício, Fredolino questiona se os jovens de hoje ainda têm interesse em aprender uma técnica tão trabalhosa. A dúvida ficou ainda mais evidente quando o próprio repórter tentou reproduzir o processo: ao tentar imitar os movimentos do artesão, cortou a peça de forma torta e sentiu, na prática, a força necessária para executar o trabalho. Enquanto isso, Fredolino seguia talhando a madeira sem nem perder o fôlego, reconhecendo pelo som da ferramenta contra a madeira a espessura ideal da peça — um conhecimento que só décadas de prática conseguem proporcionar.

Fazer gamela, como mostra a trajetória de Fredolino, é uma arte para poucos. E vê-lo ainda ativo, talhando madeira com a mesma destreza de décadas atrás, é um sinal de esperança para a preservação dessa história — não apenas a dele, mas de gerações de famílias do interior de Santa Catarina que construíram parte de sua identidade em torno da roça, da madeira e da amizade entre vizinhos.

Será que esse tipo de ofício ainda vai existir dentro de algumas décadas, ou está condenado a desaparecer com a geração de Fredolino?

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Felipe Alves da Silva

Sou Felipe Alves, com experiência na produção de conteúdo sobre segurança nacional, geopolítica, tecnologia e temas estratégicos que impactam diretamente o cenário contemporâneo. Ao longo da minha trajetória, busco oferecer análises claras, confiáveis e atualizadas, voltadas a especialistas, entusiastas e profissionais da área de segurança e geopolítica. Meu compromisso é contribuir para uma compreensão acessível e qualificada dos desafios e transformações no campo estratégico global. Sugestões de pauta, dúvidas ou contato institucional: fa06279@gmail.com

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