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Sem espalhar terra fértil pelo terreno, agricultores de Bangladesh abrem milhares de buracos em bancos de areia, adicionam esterco e composto, transformam áreas temporárias em plantações e que já ultrapassam a colheita de 100 mil toneladas de abóboras

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Escrito por Flavia Marinho Publicado em 12/07/2026 às 23:09 Atualizado em 12/07/2026 às 23:11
Centenas de abóboras ocupam uma paisagem que, poucos meses antes, estava debaixo de um rio.
Centenas de abóboras ocupam uma paisagem que, poucos meses antes, estava debaixo de um rio.
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O cultivo em bancos de areia de Bangladesh aproveita áreas expostas depois das enchentes, concentra nutrientes em cavidades, amplia a produção de alimentos e permite guardar as abóboras por vários meses, mesmo quando o rio volta a cobrir o terreno.

Centenas de abóboras ocupam uma paisagem que, poucos meses antes, estava debaixo de um rio. Quando as enchentes terminam em Bangladesh, agricultores aproveitam os bancos de areia deixados pelo recuo da água para montar plantações temporárias de abóbora.

Não é preciso espalhar terra fértil sobre toda a área. Os produtores abrem cavidades na areia, alcançam uma camada mais úmida e colocam esterco, composto orgânico e sementes em cada buraco.

As informações foram divulgadas pela FAO, agência das Nações Unidas para alimentação e agricultura. O balanço publicado em 27 de junho de 2019 mostra que a técnica iniciada em 2005 alcançou mais de 20 mil famílias.

Terrenos aparecem quando as enchentes terminam

O movimento dos rios modifica continuamente as margens e o próprio leito. Depois da cheia, grandes extensões de areia ficam expostas e formam áreas disponíveis durante poucos meses.

O cultivo em bancos de areia de Bangladesh aproveita áreas expostas depois das enchentes
O cultivo em bancos de areia de Bangladesh aproveita áreas expostas depois das enchentes

Esses bancos apresentam pouca matéria orgânica e não funcionam como uma lavoura comum. A areia sozinha oferece poucos nutrientes para as plantas, o que impediria o cultivo sem uma preparação específica.

A solução consiste em concentrar os materiais férteis onde cada semente terá plantação. Dessa forma, os agricultores não precisam cobrir hectares inteiros com terra, esterco ou composto.

O plantio aproveita um recurso que já existe sob a superfície: a umidade presente nas camadas mais profundas da areia. Essa combinação cria condições para as raízes crescerem mesmo em um ambiente aparentemente improdutivo.

Buracos com esterco e composto substituem a correção de todo o terreno

O processo começa com a abertura das cavidades. Cada buraco precisa alcançar uma parte mais úmida do banco de areia e receber os materiais necessários para alimentar a planta.

O esterco e o composto fornecem nutrientes às sementes. Assim, cada cavidade funciona como uma pequena área fértil cercada por areia, sem a necessidade de modificar todo o terreno.

Buracos com esterco e composto substituem a correção de todo o terreno
Buracos com esterco e composto substituem a correção de todo o terreno

Depois que as sementes germinam, as ramas das abóboras se espalham pela superfície. A planta consegue ocupar uma extensão maior do que o espaço preparado inicialmente.

A técnica transforma pontos concentrados de matéria orgânica em uma plantação distribuída pelo banco. Com isso, áreas temporárias deixadas pelos rios passam a produzir alimentos antes da próxima enchente.

Mais de 100 mil toneladas de abóboras foram colhidas

O projeto começou em 2005 e ampliou gradualmente o uso agrícola dos bancos de areia. Mais de 20 mil famílias participaram da iniciativa registrada pela FAO.

A FAO, agência das Nações Unidas para alimentação e agricultura, contabilizou mais de 4 mil hectares cultivados e uma produção superior a 100 mil toneladas de abóboras desde o início do trabalho.

Mais de 100 mil toneladas de abóboras foram colhidas
Mais de 100 mil toneladas de abóboras foram colhidas

Os números mostram que o método ultrapassou a fase de experiência local. O cultivo passou a ocupar uma área relevante e a fornecer uma quantidade expressiva de alimentos a partir de terrenos que permaneciam sem uso.

A Practical Action, organização de desenvolvimento envolvida no projeto, também conectou os produtores aos mercados. A comercialização permitiu que parte da colheita entrasse nas redes de venda, além de atender ao consumo das famílias participantes.

Abóboras continuam disponíveis depois que o rio volta

A escolha da abóbora tem uma vantagem importante. Depois de colhido, o fruto pode ter armazenamento durante muitos meses, desde que permaneça em condições adequadas.

Essa duração permite organizar melhor a venda e o consumo. Os agricultores não precisam comercializar toda a produção logo após retirar os frutos do banco de areia.

Abóboras continuam disponíveis depois que o rio volta
Abóboras continuam disponíveis depois que o rio volta

Quando as chuvas retornam e a água cobre novamente os terrenos, parte das abóboras ainda pode estar guardada. Dessa maneira, a colheita continua útil mesmo depois do desaparecimento da plantação.

O armazenamento também reduz a dependência de uma venda imediata. Os produtores ganham mais tempo para decidir quando utilizar ou comercializar os frutos obtidos durante a estação seca.

Cultivo não deve ser confundido com jardins flutuantes

Bangladesh também é conhecido pelos jardins flutuantes, mas eles utilizam outra técnica. Nesse sistema, os vegetais crescem sobre estruturas montadas para permanecer na água.

O cultivo de abóboras ocorre diretamente sobre bancos de areia expostos quando os rios recuam. As plantas não flutuam e dependem do período em que o terreno permanece descoberto.

Essa diferença ajuda a entender o funcionamento da atividade. O banco de areia serve como área agrícola temporária, enquanto as cavidades fornecem os nutrientes e a umidade necessários para o crescimento.

Quando o nível do rio sobe novamente, o espaço cultivado pode desaparecer. Por isso, a produção precisa acompanhar o ciclo natural das cheias e do recuo das águas.

Sucesso da produção aumenta disputa pela posse

O aproveitamento agrícola também criou um conflito. Quando os bancos de areia eram considerados improdutivos, havia pouco interesse econômico sobre parte dessas áreas.

A colheita de abóboras mudou essa situação. Pessoas que reivindicam direitos sobre os terrenos passaram a disputar o acesso com famílias sem terra interessadas em produzir.

O cultivo de abóboras ocorre diretamente sobre bancos de areia expostos quando os rios recuam.
O cultivo de abóboras ocorre diretamente sobre bancos de areia expostos quando os rios recuam.

Um estudo da Practical Action Bangladesh, organização de desenvolvimento envolvida no projeto, publicado no portal de proteção social do governo de Bangladesh, registrou negociações entre produtores, autoridades e pessoas que reclamavam direitos sobre as áreas.

Esses acordos podem definir quem planta e como a produção será dividida. Portanto, o acesso ao terreno continua incerto, mesmo quando o banco permanece debaixo da água durante parte do ano.

Próxima enchente pode apagar toda a área cultivada

Os bancos de areia mudam de posição, tamanho e formato depois de cada cheia. Um terreno utilizado em uma estação pode reaparecer diferente ou ficar completamente coberto no ciclo seguinte.

Essa mudança impede a criação de uma lavoura permanente. Os agricultores precisam preparar as cavidades, cultivar e colher dentro do período em que a areia permanece exposta.

Ainda assim, a técnica iniciada em 2005 demonstrou uma aplicação agrícola capaz de aproveitar mais de 4 mil hectares e produzir mais de 100 mil toneladas de abóboras.

O resultado une produção de alimentos, uso de matéria orgânica e aproveitamento temporário do leito dos rios. O maior desafio está em garantir acesso aos bancos de areia antes que a próxima enchente cubra novamente toda a plantação.

Uma técnica capaz de produzir em terrenos que desaparecem todos os anos poderia ser adaptada aos rios brasileiros? Comente sua opinião e compartilhe esta publicação.

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Flavia Marinho

Flavia Marinho é Engenheira pós-graduada, com vasta experiência na indústria de construção naval onshore e offshore. Nos últimos anos, tem se dedicado a escrever artigos para sites de notícias nas áreas militar, segurança, indústria, petróleo e gás, energia, construção naval, geopolítica, empregos e cursos. Entre em contato com flaviacamil@gmail.com ou WhatsApp +55 21 973996379 para correções, sugestão de pauta, divulgação de vagas de emprego ou proposta de publicidade em nosso portal.

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