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Rio de Janeiro avançou 16,55 km² sobre o mar e fez sumir 56 praias, 35 ilhas e dois morros

Escrito por Bruno Teles
Publicado em 11/05/2026 às 17:52
Atualizado em 11/05/2026 às 17:55
Rio de Janeiro avançou 16,55 km² sobre a Baía de Guanabara em 82 anos, fez sumir 56 praias e dois morros inteiros. Veja a história dos aterros do Rio.
Rio de Janeiro avançou 16,55 km² sobre a Baía de Guanabara em 82 anos, fez sumir 56 praias e dois morros inteiros. Veja a história dos aterros do Rio.
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Entre 1942 e 2024, a cidade ganhou área equivalente a 2.318 campos de futebol em cima da Baía de Guanabara, e isso é só uma parte da história. Centro, Flamengo, Glória, Urca, Saúde e parte da Lapa ficam onde antes existia mar, lagoa ou pântano.

O Rio de Janeiro que aparece nos cartões-postais é, em grande parte, uma obra de engenharia. Dados do Instituto Pereira Passos (IPP), órgão de planejamento da Prefeitura do Rio, mostram que apenas entre 1942 e 2024 a cidade avançou 16,55 quilômetros quadrados mar adentro, área equivalente a 2.318 campos de futebol do tamanho do Maracanã. Foram 56 praias que desapareceram desde o século XX, o número de ilhas na Baía de Guanabara caiu de 100 para 65, a Lagoa Rodrigo de Freitas encolheu praticamente pela metade, e dois dos quatro morros que marcaram a fundação da cidade foram literalmente arrasados. Os bairros do Centro, Flamengo, Glória, Urca, Saúde, Gamboa e parte da Lapa estão onde antes existia mar, lagoa ou alagadiço. A primeira intervenção desse tipo aconteceu em 1779, quase 250 anos atrás. A mais famosa, o Aterro do Flamengo, completou 60 anos em 2025.

O que poucos cariocas sabem é onde essas mudanças deixaram marcas que ainda podem ser identificadas a olho nu.

O que você vai entender neste texto

  • Quanto da área do Rio de Janeiro é, na prática, terra ganha do mar.
  • Por que dois morros inteiros foram desmontados em pouco mais de 30 anos.
  • Como a Lagoa Rodrigo de Freitas perdeu quase metade do seu espelho d’água.
  • Onde ainda dá para ver, hoje, as marcas da paisagem original.
  • Por que o maior parque urbano à beira-mar do mundo nasceu de uma demolição.

A escala que poucos cariocas conhecem

Rio de Janeiro avançou 16,55 km² sobre a Baía de Guanabara em 82 anos, fez sumir 56 praias e dois morros inteiros. Veja a história dos aterros do Rio.

Aqui vai o número que mais impressiona.

Segundo O Globo, em apenas 82 anos, entre 1942 e 2024, a cidade ganhou 16,55 quilômetros quadrados sobre a Baía de Guanabara. Para se ter ideia, essa área é maior do que toda a Ilha do Governador somada à Ilha do Fundão. Mas esse número está longe de contar a história inteira. Ele se refere apenas ao período documentado pelo IPP com fotografias aéreas. Os aterros começaram bem antes.

A primeira intervenção registrada aconteceu entre 1779 e 1783, quando o vice-rei Luís de Vasconcelos mandou demolir um pequeno morro no Centro para preencher uma laguna que ficava junto ao mar. Sobre o terreno ganho, foi construído o Passeio Público, projetado por Mestre Valentim. Foi o primeiro jardim público do Brasil. E também o primeiro aterro urbano do país.

A partir daí, a cidade nunca mais parou de avançar sobre as águas.

O século em que dois morros desapareceram

Rio de Janeiro avançou 16,55 km² sobre a Baía de Guanabara em 82 anos, fez sumir 56 praias e dois morros inteiros. Veja a história dos aterros do Rio.

A engenharia mais radical do Rio acontece no século XX. Não se trata apenas de jogar terra no mar. Trata-se de derrubar montanhas inteiras para usar o material como aterro.

Morro do Senado foi o primeiro. Entre 1900 e 1910, durante a gestão do prefeito Pereira Passos, o morro inteiro foi arrasado para fornecer terra para a construção do novo porto da cidade. O material desceu pela rua e foi parar nos atuais bairros da Saúde, Gamboa e no antigo Saco de São Diogo, área de mar que entrava no continente. Hoje, no lugar onde o Morro do Senado existia, fica a Praça da Cruz Vermelha.

Morro do Castelo foi o segundo, e a perda é considerada uma das mais simbólicas da história urbanística brasileira. Era no Morro do Castelo que ficava, desde 1567, o coração da cidade fundada por Estácio de Sá. Lá estavam a Igreja de São Sebastião, fortes coloniais, casarões dos séculos XVII e XVIII e até os restos mortais do próprio fundador da cidade. Em 1922, sob o argumento de modernizar o Rio para a Exposição Internacional do Centenário da Independência, o prefeito Carlos Sampaio ordenou o arrasamento completo.

Toda a terra retirada foi usada para aterrar a Urca, expandir a Lagoa Rodrigo de Freitas (na verdade, encolhê-la), criar áreas no Jardim Botânico e remodelar trechos da Baía de Guanabara.

Resultado: dos quatro morros que marcaram a ocupação inicial do Rio (Cara de Cão, Castelo, Santo Antônio e São Bento), dois foram apagados da paisagem em menos de meio século.

E o terceiro morro também não escapou.

Como um morro virou o maior parque à beira-mar do mundo

Rio de Janeiro avançou 16,55 km² sobre a Baía de Guanabara em 82 anos, fez sumir 56 praias e dois morros inteiros. Veja a história dos aterros do Rio.

A história do Morro de Santo Antônio é a história do Aterro do Flamengo. As duas se misturam.

Entre 1952 e 1958, durante as gestões dos prefeitos Dulcídio Cardoso e Francisco Negrão de Lima, o Morro de Santo Antônio foi totalmente desmontado. O material removido somou milhões de metros cúbicos de terra. Esse material foi despejado na orla da Baía, criando o terreno onde, anos depois, surgiria um dos maiores cartões-postais do Brasil.

Mas a área ficou anos como um deserto de entulho.

Foi a arquiteta e paisagista Lotta de Macedo Soares quem sugeriu ao governador Carlos Lacerda transformar a faixa de terra recém-criada em um grande parque urbano. Lacerda comprou a ideia. Os projetos urbanístico e arquitetônico ficaram com Affonso Eduardo Reidy, e o paisagismo, com Burle Marx. As obras começaram em 1961.

Em 17 de outubro de 1965, o Aterro do Flamengo foi inaugurado oficialmente como Parque IV Centenário. Comemorava-se os 400 anos da cidade. Hoje, a área somada chega a cerca de 2 milhões de metros quadrados, com 7 quilômetros de extensão e mais de 12 mil árvores. Em 2012, foi declarado Patrimônio Mundial da Humanidade pela UNESCO, na categoria “Paisagem Cultural Urbana”.

O detalhe que parece contradição: o maior parque urbano à beira-mar do mundo nasceu literalmente de uma montanha demolida.

A lagoa que era duas vezes maior

Rio de Janeiro avançou 16,55 km² sobre a Baía de Guanabara em 82 anos, fez sumir 56 praias e dois morros inteiros. Veja a história dos aterros do Rio.

Outro caso que dá medida da transformação está na Lagoa Rodrigo de Freitas, hoje um dos cartões-postais da Zona Sul.

Comparando o mapa traçado em 1809 pelo tenente-coronel Carlos José dos Reis Senna com o levantamento do IPP feito em 2024, a área do espelho d’água da Lagoa diminuiu 46 por cento. Saiu de 4,1 quilômetros quadrados em 1809 para 2,2 quilômetros quadrados no ano passado. Quase metade da Lagoa virou margem. A maior parte dessa redução aconteceu já no século XX, com aterros sucessivos documentados em fotos aéreas de 1928, 1942, 1975, 1999 e 2024.

A redução criou os bairros, avenidas e prédios que hoje formam a orla da Lagoa.

As 56 praias que sumiram

A lista de praias que desapareceram do Rio é longa. O geógrafo Jorge Luiz Barbosa, em entrevista ao jornal O Globo, identificou 56 praias que existiam no Rio no início do século XX e que hoje só sobrevivem em fotos antigas e mapas históricos.

Entre as mais conhecidas estão:

  • Praia do Russel, na Glória, onde hoje fica o Hotel Glória.
  • Praia da Saúde, que dava nome ao bairro.
  • Praia de São Cristóvão, onde o mar entrava em pleno bairro.
  • Praia do Calabouço, onde hoje fica o aterro próximo ao Santos Dumont.
  • Praia da Lapa, que dava acesso direto ao mar a partir do bairro hoje famoso pelos arcos.

Barbosa observa um padrão importante. Os aterros se concentraram na Zona Sul e no Centro, áreas que se valorizaram economicamente, enquanto a Zona Norte e o subúrbio foram menos transformados. Isso teve dois efeitos. Primeiro, redistribuiu o valor da terra de forma profundamente desigual. Segundo, fez desaparecer praticamente toda uma cultura suburbana ligada ao mar, com clubes náuticos, regatas e pesca artesanal que existiam em bairros como Penha, Olaria e Bonsucesso.

O custo escondido da expansão

Há ainda um terceiro efeito, mais técnico, dos aterros: a drenagem urbana.

Quando uma cidade avança sobre áreas que antes eram mar, lagoa ou alagadiço, ela cria, ao mesmo tempo, terreno habitável e problema hidráulico. As águas que antes corriam livremente pelo terreno natural precisam, agora, ser desviadas por sistemas artificiais de drenagem. Em chuvas intensas, esse sistema costuma falhar.

Boa parte dos pontos de alagamento crônico do Rio coincide com áreas antigas de mar, lagoa ou pântano. O Centro, a Lapa, a Cidade Nova, partes do Catete e da Glória, áreas próximas ao Maracanã: todos esses pontos têm em comum o fato de existirem hoje sobre terreno que, há um ou dois séculos, era água.

O que sobrou da paisagem original

Para quem quer ver, com os próprios olhos, marcas do Rio original, alguns pontos ainda permitem o exercício.

A Igreja de Nossa Senhora da Glória do Outeiro, no Outeiro da Glória, era um pequeno morro que ficava na praia. Hoje, fica a centenas de metros do mar. O Convento de Santo Antônio, no Centro, está no que sobrou do morro de mesmo nome. A Pedra do Sal, na Saúde, era ponto de embarque marítimo. Hoje, está cercada de terra firme.

Em alguns casos, o nome do bairro continua sendo a única pista. Praia Vermelha, na Urca, ainda existe e mantém o nome. Mas a Urca inteira é um aterro de 1922, com material vindo do desmonte do Morro do Castelo. Em outras palavras, a praia que ficou lá sempre esteve. O bairro ao redor é que foi construído sobre o mar.

Por que isso importa em 2026

O debate sobre os aterros do Rio voltou às redes neste ano por dois motivos. O primeiro é o aniversário de 60 anos do Aterro do Flamengo, completado em outubro de 2025. O segundo é uma discussão crescente sobre os impactos da elevação do nível do mar prevista para as próximas décadas em cidades costeiras.

Estudo recente da Universidade de Cambridge, divulgado em 2025, confirmou pela primeira vez, com dados de duas décadas, que uma massa de água quente está avançando em direção às plataformas de gelo da Antártida a 1,26 quilômetro por ano. Se as projeções se confirmarem, a elevação total possível do nível dos oceanos chegaria a 58 metros no longo prazo. Para o Rio, isso significaria, ironicamente, o caminho inverso de tudo que aconteceu nos últimos 250 anos.

O mar voltaria, em parte, para onde sempre esteve.

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Bruno Teles

Falo sobre tecnologia, inovação, petróleo e gás. Atualizo diariamente sobre oportunidades no mercado brasileiro. Com mais de 7.000 artigos publicados nos sites CPG, Naval Porto Estaleiro, Mineração Brasil e Obras Construção Civil. Sugestão de pauta? Manda no brunotelesredator@gmail.com

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