Entre plástico reaproveitado, óleo transformado em sabão, hortas brotando nos becos e um ecoponto feito à mão, a mulher que superou uma infância difícil reorganiza o Morro do Alemão com trabalho duro, vida simples e esperança comunitária
Entre garrafas PET reaproveitadas, óleo usado transformado em sabão, hortas que brotam em becos estreitos e um ecoponto montado com as próprias mãos, a pernambucana que cresceu entre casas alheias e superou perdas profundas transforma rotina dura, sofrimento antigo e força comunitária em um projeto vivo de reorganização ambiental no Morro do Alemão, unindo memória, reciclagem, trabalho manual e resistência cotidiana.
Nascida no interior de Pernambuco, Josefa enfrentou desde cedo uma infância marcada por deslocamentos, rejeições e trabalho precoce. Entre mudanças, casas de parentes e períodos na cidade e no interior, ela aprendeu a plantar, vender hortaliças, carregar responsabilidade e sobreviver às durezas que atravessavam sua vida.
Assim que cresceu, e depois de anos difíceis, ela se mudou para o Rio. No Morro do Alemão, encontrou um cenário desafiador. Ainda assim, ela decidiu transformar cada canto possível. Entre escadarias cinzas, valas abertas e ruas estreitas, ela viu oportunidades de plantio, reciclagem, cor e reorganização.
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Rotina de trabalho da mulher que transforma reciclagem em vida comunitária
Enquanto o dia começa no morro, Josefa já separa plásticos, garrafas e resíduos deixados pelos moradores, pois entende que tudo pode ser reaproveitado. O trabalho é manual, constante e exaustivo. Mesmo assim, ela segue.
Logo cedo, ela verifica o material deixado no ecoponto. Embora seja pesado carregar tantos sacos, ela faz tudo com paciência. Ela coleta, separa, limpa e organiza, porque sabe que cada item pode virar oficina, artesanato ou sabão para ensinar crianças e mulheres.
Na sequência, ela cuida da horta comunitária. Ela abre espaço na terra compactada, separa mudas e orienta quem deseja aprender. Ela planta coentro, alface e couve com as próprias mãos, porque acredita que o cultivo transforma a rua e a comunidade.
Depois da horta, é a vez do óleo usado, que vira sabão em oficinas ensinadas para mulheres e crianças. Ela guarda o óleo trazido por vizinhos, filtra e mistura os ingredientes. Cada barra produzida carrega história, cuidado e educação ambiental.
As crianças participam de tudo. Elas recolhem PETs, ajudam na horta, aprendem a fazer sabão, transformam objetos descartados e descobrem possibilidades dentro do próprio morro. Josefa prepara tudo sem apoio financeiro. Mesmo assim, continua.

Ecoponto, oficinas, horta e biodigestor feitos com esforço próprio
O diferencial do trabalho de Josefa é a soma de várias iniciativas sustentáveis criadas apenas com o que a comunidade oferece:
- Ecoponto montado com paletes, reorganizando resíduos que antes enchiam valas.
- Oficinas de sabão, ensinando mulheres a transformar óleo usado em produto útil.
- Oficinas de artesanato com garrafa PET, criando objetos e atividades para crianças.
- Horta comunitária, que nasce em espaços abandonados do morro.
- Mutirões de limpeza, que reduzem lixo nas ruas.
- Biodigestor feito por iniciativa própria, transformando resíduos orgânicos em gás para uso doméstico.
Cada iniciativa nasce da observação, da necessidade e da vontade de mudar a comunidade sem esperar ajuda externa.
Infância dura, perdas profundas e escolha diária pela transformação
A trajetória de Josefa começa com dor. Ela viveu entre três casas diferentes, enfrentou sofrimento e até situações de violência. Ainda criança, ajudava na agricultura, levava comida para trabalhadores, vendia hortaliças e lidava com dificuldades diárias.
Mais tarde, já adulta, enfrentou o luto mais profundo: a perda de sua filha, vítima de uma doença grave. Mesmo assim, ela encontrou forças para seguir. No Alemão, decidiu transformar sua dor em movimento social.
Ela criou atividades para crianças, ocupou casas vazias para dar oficinas, limpou espaços abandonados e buscou material de construção de porta em porta para erguer o ecoponto. Ela construiu tudo com as próprias mãos, sem apoio financeiro e sem descanso.
A casa no morro, a tradição preservada e o projeto de futuro
A casa onde mora representa o centro afetivo do seu trabalho. Ali, ela guarda materiais recicláveis, organiza oficinas, recebe crianças e planeja as próximas ações ambientais.
O espaço é simples, mas vivo. É ali que ela cuida do biodigestor, das plantas, das sementes e dos materiais coletados. É ali que ela reinventa a própria história, conectando passado doloroso com esperança comunitária.
Ela vê o futuro no presente. Acredita que cada garrafa PET ajuda. Que cada criança aprendendo a reciclar representa um novo caminho. Acredita que cada morador pode transformar o morro.
Para Josefa, o verdadeiro paraíso é esse conjunto de trabalho duro, vida simples e esperança que brota de cada iniciativa comunitária.
E você, acredita que uma vida transformada pela reciclagem e pelo cuidado coletivo pode mudar um morro inteiro?
