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Projetos “verdes” das petrolíferas são questionados por estudo internacional que aponta manutenção do modelo fóssil

Escrito por Rannyson Moura
Publicado em 27/12/2025 às 14:41
Estudo internacional alerta que projetos verdes das petrolíferas não substituem combustíveis fósseis, prolongam a dependência do petróleo e reforçam desigualdades sociais e climáticas.
Estudo internacional alerta que projetos verdes das petrolíferas não substituem combustíveis fósseis, prolongam a dependência do petróleo e reforçam desigualdades sociais e climáticas.
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Estudo internacional alerta que projetos verdes das petrolíferas não substituem combustíveis fósseis, prolongam a dependência do petróleo e reforçam desigualdades sociais e climáticas.

Uma análise internacional conduzida por pesquisadores do ICTA-UAB e da Universidade de Sussex lança um alerta sobre os chamados projetos “verdes” promovidos pelas petrolíferas. Segundo o estudo, essas iniciativas não estariam estruturadas para substituir o uso de combustíveis fósseis, mas sim para prolongar o atual modelo energético sob uma narrativa favorável ao clima.

O levantamento avaliou 48 conflitos socioambientais em diferentes continentes. A conclusão é que, embora apresentadas como soluções de transição, muitas dessas ações mantêm a extração e o uso de petróleo, gás e carvão por décadas, ao mesmo tempo em que reforçam o poder econômico e político das empresas do setor.

Estratégia sistemática mantém ativos fósseis em operação

De acordo com os autores, não se trata de iniciativas isoladas ou falhas pontuais. O estudo aponta uma estratégia deliberada das petrolíferas de integrar novas instalações classificadas como “baixas em carbono” a infraestruturas já existentes, como refinarias, gasodutos e usinas térmicas.

Essa conexão, segundo os pesquisadores, cria justificativas técnicas e econômicas para manter ativos fósseis em funcionamento. Um exemplo citado é o gasoduto H2Med, entre Barcelona e Marselha, divulgado como projeto para hidrogênio, mas projetado também para transportar gás fóssil, prolongando a relevância de uma rede que, em tese, deveria ser gradualmente desativada.

Soluções de transição não reduzem a crise climática

O estudo sustenta que nenhuma dessas tecnologias contribui efetivamente para mitigar a mudança climática se não houver substituição real da extração e da queima de combustíveis fósseis. Entre as soluções questionadas estão o hidrogênio azul, que depende de metano fóssil, e os biocombustíveis que competem com a produção de alimentos e incentivam o desmatamento.

Também entram nesse grupo os mecanismos de compensação de carbono. Segundo os pesquisadores, essas práticas permitem que emissões continuem ocorrendo em determinados locais, enquanto são neutralizadas apenas no papel em outras regiões.

Impactos sociais recaem sobre populações vulneráveis

Além da contabilidade de emissões, o trabalho documenta efeitos locais persistentes associados aos projetos das petrolíferas. Entre eles estão poluição do ar em áreas próximas a refinarias, expropriação de terras para cultivos energéticos e construção de grandes corredores de infraestrutura.

Esses impactos, segundo o estudo, afetam de forma desproporcional países do Sul Global e povos indígenas. O resultado é a reprodução de desigualdades históricas sob uma nova rotulagem climática, que mascara os custos sociais e ambientais reais.

Dinheiro público sustenta projetos de benefício climático duvidoso

Outro ponto de destaque é o papel do financiamento estatal. O relatório aponta que subsídios públicos e marcos regulatórios favoráveis acabam direcionando recursos para projetos com ganhos climáticos limitados. Enquanto isso, os custos sociais e ecológicos permanecem fora dos balanços financeiros.

Além disso, as tecnologias de transição promovidas pelas petrolíferas acabam criando alianças com outros setores intensivos em emissões. A aviação busca biocombustíveis “drop-in”, o agronegócio se integra às cadeias energéticas e a mineração se associa à expansão do hidrogênio.

Esse movimento, segundo os autores, consolida uma rede de dependências que fortalece a influência da indústria fóssil nos mercados financeiros, nas cadeias logísticas e nos espaços de governança climática.

Avaliação do impacto das petrolíferas precisa mudar

O pesquisador Marcel Llavero-Pasquina afirma que o impacto climático das petrolíferas deveria ser medido pelos combustíveis fósseis que deixam de extrair, e não pelo número de projetos verdes anunciados.

O estudo alerta que transformar essas soluções em política pública estrutural pode bloquear mudanças mais profundas, levando a transições lentas, centralizadas e controladas pelos mesmos atores históricos do setor energético.

Caminhos alternativos ganham destaque no estudo

Fora desse modelo, os autores defendem alternativas consideradas mais eficazes. Entre elas estão a expansão acelerada de energias renováveis, a redução direta da demanda energética e a definição de calendários claros para o abandono dos combustíveis fósseis.

O trabalho também destaca a importância de processos liderados por comunidades locais. A captura de carbono, segundo o estudo, só faria sentido se acompanhada do fechamento rápido de instalações fósseis. Já o hidrogênio deveria ser exclusivamente verde, produzido com eletricidade renovável e destinado a usos difíceis de eletrificar.

No caso dos biocombustíveis, os pesquisadores defendem critérios rigorosos de justiça social e uso do solo. As compensações de carbono, por sua vez, não deveriam substituir reduções reais de emissões.

O alerta final do estudo é direto: os projetos verdes das petrolíferas funcionam como complementos do modelo fóssil, e não como substitutos. Para os autores, o dinheiro público deveria priorizar a redução da oferta e da demanda por combustíveis fósseis, o acesso equitativo à energia limpa e a reparação de danos históricos, em vez de sustentar estratégias que perpetuam a dependência energética sob um discurso climático enganoso.

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Rannyson Moura

Graduado em Publicidade e Propaganda pela UERN; mestre em Comunicação Social pela UFMG e doutorando em Estudos de Linguagens pelo CEFET-MG. Atua como redator freelancer desde 2019, com textos publicados em sites como Baixaki, MinhaSérie e Letras.mus.br. Academicamente, tem trabalhos publicados em livros e apresentados em eventos da área. Entre os temas de pesquisa, destaca-se o interesse pelo mercado editorial a partir de um olhar que considera diferentes marcadores sociais.

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