Novas tarifas americanas ampliam a pressão sobre setores brasileiros que dependem de compradores específicos, contratos técnicos e nichos de consumo, enquanto o governo tenta diversificar destinos para exportações afetadas pela disputa comercial com os Estados Unidos.
Empresas brasileiras dos setores de máquinas e equipamentos, têxteis e pescados avaliam que terão dificuldade para substituir o mercado dos Estados Unidos caso sejam confirmadas novas tarifas sobre produtos do Brasil.
As propostas em análise pelo governo americano podem elevar a cobrança a até 37,5%, ou 47,5% caso seja somada à tarifa global de 10% ainda vigente.
A busca por outros compradores, defendida pelo governo Luiz Inácio Lula da Silva como alternativa para reduzir perdas, enfrenta limites nesses segmentos, segundo representantes empresariais ouvidos sobre o tema.
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Diferentemente das commodities, esses produtos costumam depender de exigências técnicas, padrões de consumo e relações comerciais construídas ao longo de anos com compradores específicos.
O USTR, escritório comercial dos Estados Unidos, recomendou uma tarifa adicional de 25% contra parte das exportações brasileiras, sob alegação de práticas comerciais consideradas desleais.
De acordo com o MDIC, a medida pode atingir cerca de 21% da pauta exportadora do Brasil para os EUA, caso seja confirmada após a etapa de consulta pública.
Outra investigação americana, ligada a políticas contra produtos feitos com trabalho forçado, incluiu o Brasil em uma lista de países sujeitos a tarifa adicional de 12,5%.
O governo brasileiro rejeitou a justificativa e classificou a proposta como medida unilateral e protecionista, enquanto setores exportadores tentam demonstrar os impactos econômicos das eventuais cobranças.
As duas cobranças ainda passam por consulta pública nos Estados Unidos, etapa em que empresas e governos podem apresentar argumentos antes de uma decisão final.
Entre as exceções previstas estão produtos como petróleo, aeronaves, carnes, café e algumas frutas, o que deixa mais expostos segmentos industriais e de nicho voltados ao mercado americano.
Redirecionar exportações não atende todos os setores
Lula afirmou que pretende negociar com o governo Donald Trump, mas disse que o Brasil buscará outros parceiros caso os Estados Unidos reduzam as compras de produtos brasileiros.
“Nós não vamos ficar chorando. Nós vamos procurar outros parceiros”, declarou o presidente em reunião ministerial, ao defender a ampliação de mercados para exportações do país.
Apesar da estratégia oficial, empresários e economistas afirmam que a substituição de destinos não ocorre de forma imediata em setores com produtos feitos sob encomenda ou voltados a nichos específicos.
Produtos industriais, peças, máquinas, roupas e pescados dependem de especificações técnicas, hábitos de consumo e contratos que, segundo representantes dos setores, não se replicam rapidamente em outros países.
O economista João Carmo, da 4Intelligence, afirma que o Brasil mostrou capacidade de redirecionar parte das exportações no primeiro tarifaço, mas pondera que os efeitos setoriais foram desiguais.
Na avaliação dele, empresas com menor escala e maior dependência dos Estados Unidos tendem a enfrentar perdas mais fortes caso as novas tarifas entrem em vigor.
Constanza Negri, gerente de Comércio e Integração Internacional da CNI, avalia que a diversificação deve ser tratada como estratégia complementar, não como substituição plena do mercado americano.
Segundo a entidade, os Estados Unidos compram do Brasil produtos industriais de maior complexidade e valor agregado, o que torna esse mercado relevante para cadeias produtivas intensivas em tecnologia.
Balança comercial resistiu, mas segmentos perderam mercado
Estudo do BNDES sobre o tarifaço anterior aponta que o redirecionamento das vendas ajudou a proteger o resultado agregado da balança comercial brasileira, embora não tenha evitado prejuízos em todos os setores.
Em 2025, as exportações brasileiras totais cresceram mesmo com a queda nas vendas aos Estados Unidos, segundo o levantamento citado por representantes do setor produtivo.
Entre agosto e dezembro de 2025, período posterior à entrada em vigor das tarifas, as exportações ao mundo avançaram, enquanto os embarques para os Estados Unidos recuaram.
A diferença entre os dois resultados indica, segundo o estudo, que novos mercados ajudaram a compensar parte das perdas, mas não eliminaram impactos em cadeias específicas.
Madeira, carvão vegetal e obras de madeira tiveram forte retração nas vendas aos Estados Unidos e também registraram queda no desempenho global.
Peixes e crustáceos tiveram recuo expressivo, enquanto máquinas, aparelhos e materiais elétricos também apresentaram perdas nos embarques para os americanos e no resultado total.
No setor de pescados, o presidente da Abipesca, Eduardo Lobo, afirma que novos destinos ajudaram a girar estoques, mas com preços inferiores aos praticados no mercado americano.
Parte das vendas aos Estados Unidos foi mantida, segundo ele, porém com margens reduzidas em razão da perda de competitividade provocada pelas tarifas.
“Essa taxação coloca o setor novamente sem competitividade para os EUA, em relação aos competidores da América Central e do Caribe”, disse Lobo.
Ele afirma que a soma das tarifas pode aproximar a cobrança do patamar de 50% visto no primeiro tarifaço, caso a tarifa global de 10% seja mantida.
Máquinas e equipamentos enfrentam barreira técnica
No setor de máquinas e equipamentos, representantes da indústria afirmam que a dificuldade de redirecionamento está ligada principalmente às especificações técnicas exigidas pelo comprador americano.
O presidente-executivo da Abimaq, José Velloso, afirma que o setor está entre os mais afetados porque petróleo e aeronaves, outros grandes itens da pauta brasileira para os EUA, foram preservados nas exceções.
Segundo Velloso, a produção destinada aos Estados Unidos nem sempre pode ser realocada para outro país, pois muitos equipamentos são desenvolvidos para padrões específicos daquele mercado.
Máquinas vendidas aos americanos seguem requisitos próprios, como medidas em libra e polegada, em vez de quilo e metro, além de especificações definidas previamente em contrato.
No tarifaço anterior, a queda das exportações para os Estados Unidos só não foi maior, segundo a Abimaq, porque houve aumento no valor médio vendido e retomada de compras por outros destinos.
Entre os mercados que ajudaram a sustentar parte do resultado, Velloso cita Argentina e Cingapura, que ampliaram a demanda por máquinas brasileiras em 2025.
Mesmo assim, a entidade calcula perda relevante de potencial exportador no período em que as tarifas americanas afetaram a competitividade dos produtos brasileiros.
“Se não tivéssemos as tarifas, teríamos provavelmente R$ 500 milhões a mais de exportações em 2025”, afirmou Velloso.
Para o setor, a diplomacia empresarial e governamental continua sendo considerada necessária, enquanto as empresas acompanham a tramitação das medidas e os possíveis efeitos sobre contratos futuros.
Indústria têxtil vê perdas escondidas no resultado geral
Na indústria têxtil e de confecção, representantes do setor afirmam que o desempenho agregado das exportações pode ocultar perdas relevantes em segmentos específicos.
O diretor-superintendente da Abit, Fernando Pimentel, diz que algumas linhas exportadas cresceram, mas produtos ligados à moda e a nichos de consumo perderam força no mercado americano.
As vendas de cordas de sisal ajudaram o resultado geral por atenderem à agropecuária dos Estados Unidos e não terem sido sobretaxadas na rodada anterior.
Por outro lado, moda, confecções, filamentos, fibras e tecidos tiveram quedas relevantes no período posterior ao tarifaço, de acordo com dados citados pela entidade.
Pimentel afirma que empresas menores são as mais vulneráveis, especialmente no segmento de confecções, em que parte da receita externa depende de compradores americanos.
Algumas dessas empresas construíram presença em nichos como moda praia, setor em que o Brasil tem marcas voltadas a consumidores específicos no exterior.
“Quando falamos do macro, esquecemos do micro, que são pequenas empresas, que atuam nesse mercado de nicho e têm 30% a 40% da sua receita advinda dos EUA”, afirmou o representante da Abit.
A substituição pelo mercado interno também enfrenta obstáculos, segundo a indústria têxtil, que aponta concorrência elevada com importados asiáticos em diferentes faixas de preço.
Enquanto tenta preservar clientes internacionais, o setor também busca reverter mudanças tributárias no Congresso e reduzir os efeitos combinados da disputa comercial com os Estados Unidos e da competição doméstica.


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