O Brasil contratou, em um leilão de reserva de capacidade, cerca de nove usinas termelétricas que somam aproximadamente 2,6 gigawatts de potência, com receita fixa estimada em torno de R$ 44 bilhões ao longo dos contratos. O objetivo é garantir energia firme para os momentos de maior demanda ou quando o sol e o vento não estão gerando, dando uma rede de segurança ao sistema elétrico do país.
Pode parecer contraditório contratar usinas térmicas, geralmente movidas a combustível fóssil, num país que se orgulha de uma das matrizes mais limpas do mundo. Mas há uma lógica por trás: justamente porque o Brasil aposta tanto em fontes intermitentes como a solar e a eólica, ele precisa de uma reserva confiável para quando essas fontes falham.
O que é o leilão de reserva de capacidade
O chamado leilão de reserva de capacidade não compra exatamente energia, e sim a garantia de que ela estará disponível quando for preciso. Na prática, o governo paga às usinas uma receita fixa para que fiquem prontas para entrar em operação nos momentos críticos, mesmo que passem boa parte do tempo desligadas. É como contratar um time reserva que só entra em campo na hora do aperto.
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Essas usinas funcionam como um seguro. Em dias de pico de consumo, em ondas de calor com todos os ares-condicionados ligados, ou quando uma seca reduz os reservatórios e o vento amaina, as térmicas são acionadas para que não falte energia e o país não corra risco de apagão. A maioria delas é movida a gás natural, combustível mais flexível e menos poluente que o carvão ou o óleo.

Por que o Brasil precisa dessa reserva
A explicação está na transformação da matriz elétrica. O país encheu o sistema de energia solar e eólica, que são baratas e limpas, mas têm um defeito: dependem do tempo. O painel só gera de dia, e a turbina só com vento. Quando essas fontes param ao mesmo tempo em que o consumo dispara, é preciso ter algo confiável pronto para cobrir o buraco.
O modelo é o chamado complemento. As renováveis fornecem a maior parte da energia barata no dia a dia, e as térmicas entram só nas horas críticas, garantindo a estabilidade. Sem essa retaguarda, o risco de apagão cresceria à medida que o país depende cada vez mais de fontes que não se pode ligar e desligar à vontade.
É um preço a pagar pela transição energética.
O custo e o impacto na conta de luz
Essa segurança, porém, não sai de graça. Os R$ 44 bilhões previstos nos contratos ao longo dos anos entram, de uma forma ou de outra, na conta de luz paga por todos os consumidores. Manter usinas de prontidão, mesmo sem gerar o tempo todo, é um custo embutido na fatura, e há sempre o debate sobre qual o tamanho ideal dessa reserva para não pagar caro demais por algo que se usa pouco.

Críticos questionam se não seria melhor investir mais em baterias e em outras formas de armazenamento, que guardam a energia limpa das renováveis em vez de queimar combustível fóssil nos picos. O próprio governo já prepara leilões de baterias, num sinal de que o futuro da reserva pode ser cada vez mais limpo. Por ora, porém, as térmicas a gás ainda são a forma mais barata e disponível de garantir energia firme.
O equilíbrio do sistema
No fim, o leilão reflete o desafio de operar um sistema elétrico moderno: combinar fontes limpas e baratas com uma retaguarda confiável, sem deixar faltar energia nem encarecer demais a conta. É um quebra-cabeça que todos os países enfrentam à medida que abraçam as renováveis.

Para o gás natural, o resultado é uma boa notícia, já que reforça a demanda pelo combustível num momento em que a Petrobras amplia a oferta no país. Segundo a ANEEL e o Ministério de Minas e Energia, a reserva contratada é vista como essencial para sustentar o crescimento das renováveis sem comprometer a segurança do fornecimento nos próximos anos.
