Nova massa de ar polar, impulsionada por ciclone extratropical entre Argentina, Paraguai e Bolívia, ainda deve manter o frio intenso no Centro-Sul do país até o início de julho antes da virada climática
A onda de frio que tem marcado os últimos dias no Brasil ainda vai resistir por algum tempo, mas o desfecho desse ciclo gelado já tem data estimada para acontecer. Segundo previsões meteorológicas mais recentes, o país deve enfrentar uma nova massa de ar polar nos primeiros dias de julho, mantendo as temperaturas abaixo da média em boa parte do Centro-Sul. Contudo, a partir da segunda quinzena do mês, o cenário começa a mudar de forma significativa, com o retorno gradual do calor.
De acordo com os modelos meteorológicos, essa nova massa de ar frio será impulsionada por um ciclone extratropical que começa a se formar entre Argentina, Paraguai e Bolívia ainda neste fim de semana. O sistema deve se intensificar a partir de uma área de baixa pressão, dando origem a uma frente fria que, a partir de segunda-feira (29), volta a empurrar o ar gelado sobre o Centro-Sul brasileiro. A informação foi divulgada em 26 de junho de 2026 pelo portal ND Mais, em reportagem assinada pela jornalista Deny Campos.
Frio ainda deve persistir no início de julho, mas perde força ao longo do mês
Segundo as projeções, essa nova configuração atmosférica deve manter o frio intenso sobre o Centro-Sul do país ao longo da próxima semana, prolongando o período de temperaturas negativas em diversas localidades — sobretudo nas regiões Sul e partes do Sudeste, historicamente mais sensíveis a esse tipo de avanço de massas polares.
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Apesar disso, os modelos meteorológicos indicam que esse cenário de frio intenso não deve se estender por todo o mês de julho. De acordo com as previsões mais atualizadas, a tendência é que, após a passagem dessa nova massa de ar polar, o padrão atmosférico comece a mudar de forma gradual, favorecendo a elevação das temperaturas justamente na segunda metade do mês.
Nesse sentido, os mapas meteorológicos já mostram uma redução significativa nas anomalias negativas de temperatura, que praticamente desaparecem do território brasileiro na segunda quinzena de julho. Essa mudança ocorre, segundo os especialistas, porque as próximas massas de ar frio que devem atingir o país terão intensidade menor e capacidade reduzida de avançar sobre o território nacional, em comparação com os episódios mais extremos registrados nas semanas anteriores.
Diante desse novo cenário, as estimativas iniciais apontam que as temperaturas máximas durante a tarde poderão voltar a superar os 30°C em áreas da Região Sudeste ainda ao longo da segunda quinzena de julho — uma mudança expressiva em relação ao quadro de frio intenso que tem caracterizado o país nas últimas semanas.
El Niño começa a redesenhar o clima brasileiro a partir de julho
Por outro lado, o principal fator por trás dessa transição climática mais ampla é a influência crescente do El Niño sobre o território brasileiro. Segundo a Meteored, fonte citada pela reportagem, as previsões indicam que o fenômeno deve passar a exercer impacto mais significativo sobre o clima do país já nos próximos meses.
Mas o que é, exatamente, o El Niño? Segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM), o fenômeno integra um padrão climático natural conhecido como El Niño-Oscilação Sul, ou ENSO — sigla em inglês para El Niño-Southern Oscillation. Esse padrão envolve a variação das temperaturas oceânicas nas regiões central e leste do Oceano Pacífico Equatorial, combinada com mudanças na atmosfera que cobre essa área. O ENSO possui duas fases opostas: a fase quente, batizada de El Niño, e a fase fria, conhecida como La Niña — havendo ainda um estado intermediário chamado de neutro, quando as temperaturas do oceano se mantêm próximas da média histórica.
De acordo com a OMM, o El Niño se caracteriza por temperaturas da superfície do oceano anormalmente quentes nas regiões central e leste do Pacífico. O fenômeno costuma surgir quando os ventos alísios — correntes de ar que normalmente sopram de leste para oeste ao longo da linha do equador — perdem força ou chegam a inverter de direção. Sem esse vento constante, a troca natural entre águas quentes da superfície e águas mais frias e profundas deixa de ocorrer da forma habitual, fazendo com que o calor se acumule na superfície oceânica por um período prolongado.
Segundo a entidade, um episódio de El Niño costuma se desenvolver entre os meses de março e junho, atingindo sua intensidade máxima entre novembro e fevereiro — embora a duração total do fenômeno possa variar bastante, chegando a se estender por até 18 meses em alguns casos. A transição entre as fases de El Niño e La Niña, segundo a OMM, costuma ocorrer em ciclos irregulares de dois a sete anos, o que torna cada novo episódio relativamente imprevisível em termos de intensidade e momento exato de início.
Vale destacar que o fenômeno mais recente da categoria, registrado entre 2023 e 2024, foi classificado como um dos El Niños mais intensos já documentados, contribuindo, segundo análises climáticas internacionais, para que 2024 se tornasse o ano mais quente já registrado globalmente até aquele momento — combinação direta entre o calor adicional gerado pelo fenômeno e o aquecimento global de origem humana já em curso. Após esse episódio, o Oceano Pacífico passou por uma fase neutra e, posteriormente, por um novo ciclo de La Niña entre o final de 2025 e o início de 2026, antes de voltar a sinalizar a formação de um novo El Niño a partir de meados de 2026.
De acordo com os modelos climáticos mais recentes, a atmosfera já está respondendo ao aquecimento das águas do Oceano Pacífico Equatorial — fenômeno que altera o regime de ventos e, consequentemente, modifica o comportamento das chuvas em diferentes regiões do Brasil. Ainda segundo as projeções, esse episódio específico de El Niño tem potencial para atingir intensidade histórica, com a média dos modelos dinâmicos indicando anomalias de até 2,7°C acima da média no Oceano Pacífico Equatorial. Algumas simulações mais extremas chegam a apontar a possibilidade de anomalias superiores a 3,5°C.
Esse cenário deve provocar efeitos distintos em cada região do país. Na Região Sul, a expectativa é de chuvas intensas e mais frequentes, além de temperaturas médias mais altas — padrão que, segundo especialistas em climatologia, costuma se repetir em praticamente todos os episódios de El Niño, já que o fenômeno tende a represar frentes frias na região, impedindo seu avanço mais rápido para o restante do país. Já na Região Sudeste, os modelos indicam aumento moderado nas temperaturas médias e maior ocorrência de ondas de calor ao longo dos próximos meses. No Centro-Oeste, os efeitos tendem a ser menos pronunciados, ainda que existam projeções de chuvas e temperaturas acima da média, principalmente no Mato Grosso do Sul.
Contudo, nem todas as regiões devem sentir os efeitos do fenômeno da mesma forma positiva. No Nordeste, a tendência é de diminuição significativa nas chuvas, com possibilidade de secas severas, especialmente durante o próximo verão — um padrão climático associado ao deslocamento das áreas de maior umidade para o meio do Oceano Pacífico durante episódios de El Niño, o que reduz a formação de nuvens carregadas sobre o norte da América do Sul. Já na Região Norte, a expectativa também é de redução nas chuvas, secas mais intensas e aumento do risco de incêndios florestais — um padrão que costuma se agravar em anos de El Niño mais expressivo, sobretudo em regiões de floresta tropical mais sensíveis a períodos prolongados de estiagem.
Diante desse panorama, as projeções meteorológicas indicam que o fenômeno pode favorecer a ocorrência de ondas de calor severas e o registro de novos recordes de temperatura máxima entre 2026 e 2027 — seguindo, segundo climatologistas, um padrão histórico observado em praticamente todos os grandes episódios de El Niño das últimas décadas, em que o ano seguinte ao pico do fenômeno costuma registrar temperaturas médias globais mais elevadas. Portanto, embora o frio intenso ainda deva marcar os primeiros dias de julho no Brasil, a tendência climática para o restante do ano aponta para uma transição gradual, mas expressiva, rumo a um padrão mais quente e, em algumas regiões, mais seco — uma mudança que deve impactar diretamente desde o planejamento agrícola até a rotina de quem vive nas grandes cidades do país.
