Queda do preço do cacau anima o mercado, mas especialistas dizem que o preço do chocolate pode levar meses para cair no varejo.
A forte queda do preço do cacau no mercado internacional reacendeu uma pergunta recorrente entre consumidores: o preço do chocolate vai finalmente cair?
O movimento ocorre em 2025, com recuo acumulado de 63,1% nas cotações globais da commodity, negociadas principalmente nas bolsas de Nova York e Londres.
A redução é significativa, mas, segundo especialistas, o impacto no bolso do consumidor ainda deve demorar a aparecer nas gôndolas.
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De acordo com analistas da indústria chocolateira, o repasse da queda não é imediato. Isso porque a cadeia do cacau é longa, envolve estoques, contratos antigos e diferentes etapas de processamento.
Assim, embora o mercado global de cacau esteja entrando em uma nova fase de preços mais baixos, o chocolate tende a continuar caro no curto prazo.
Mercado global de cacau entra em fase de virada após dois anos de tensão
Após quase duas temporadas marcadas por escassez e preços recordes, o mercado global de cacau começa a mostrar sinais de reequilíbrio.
Projeções da Organização Internacional do Cacau (ICCO) indicam superávit de 287 mil toneladas na safra 2025/26 e de 267 mil toneladas em 2026/27.
Esse cenário contrasta fortemente com 2023/24, quando o déficit histórico de cerca de 400 mil toneladas levou os preços a ultrapassarem US$ 11,5 mil por tonelada.
Atualmente, as cotações giram em torno de US$ 4,2 mil, refletindo a combinação de oferta em recuperação e demanda industrial mais fraca.
Apesar disso, a presidente da Associação da Indústria Processadora de Cacau (AIPC), Ana Paula Losi, alerta que o ajuste é gradual.
“As empresas têm estoques e contratos firmados a cotações mais altas.
O preço da amêndoa vem caindo, mas isso leva tempo para chegar ao produto final”, afirma.
Demanda mais fraca pesa mais que a oferta na queda do preço do cacau
Embora a produção global de amêndoas esteja em recuperação, o principal fator por trás da queda do preço do cacau é a retração da demanda.
Na Europa, a moagem caiu mais de 8%. No Brasil, a redução foi ainda mais intensa, chegando a 14%.
Segundo especialistas, a disparada dos preços entre 2023 e 2024, quando o cacau subiu entre 150% e 200%, não foi totalmente repassada ao varejo.
Como consequência, as margens da indústria chocolateira ficaram comprimidas, o que desacelerou compras e reduziu o consumo de matéria-prima.
África Ocidental reage, mas crise climática ainda preocupa
Do lado da oferta, a África Ocidental dá sinais de recuperação após duas safras frustradas. Costa do Marfim e Gana, responsáveis por cerca de 60% da produção mundial, caminham para volumes mais próximos da normalidade.
Estimativas da consultoria StoneX indicam que a Costa do Marfim pode alcançar 1,85 milhão de toneladas em 2025/26, enquanto Gana deve produzir entre 600 mil e 650 mil toneladas.
Ainda assim, o setor segue atento aos riscos da crise climática, que nos últimos anos afetou severamente as lavouras africanas.
Fenômenos como El Niño, chuvas irregulares, períodos de seca e a disseminação de doenças, como o vírus do broto inchado do cacaueiro (CSSV), continuam ameaçando a estabilidade da produção global.
Preço do chocolate: por que a queda demora a chegar ao consumidor
Mesmo com a descompressão no mercado da amêndoa, o preço do chocolate não deve cair rapidamente.
A cadeia produtiva envolve produtores, processadores de manteiga, licor e pó de cacau, indústria de confeitaria e varejo. Historicamente, o repasse leva de seis a oito meses.
Segundo Bezzon, especialista do setor, quando o cacau disparou em 2024, esse mesmo intervalo foi observado.
Portanto, uma eventual “deflação do chocolate” depende da manutenção das cotações em patamares mais baixos por um período prolongado.
Menos cacau nas receitas virou mudança estrutural
Outro fator relevante é que a indústria chocolateira promoveu ajustes estruturais durante a crise.
Grandes fabricantes reduziram o uso de manteiga de cacau e ampliaram o emprego de gorduras alternativas, aromatizantes e recheios, especialmente em produtos populares.
“Isso não inclui chocolates premium, como barras com 70% de cacau, que têm percentuais definidos”, explica Ana Paula Losi.
Segundo Bezzon, essas mudanças vieram para ficar, reduzindo a dependência direta da amêndoa.
Brasil sente impacto duplo no mercado global de cacau
O Brasil tem capacidade instalada para moer 275 mil toneladas de cacau, mas processou apenas cerca de 190 mil toneladas em 2025, o pior resultado desde a pandemia.
Como o país importa amêndoas e exporta derivados, ainda sofre com demanda fraca e custos elevados.
Com a queda do preço do cacau no mercado interno, a pressão sobre a indústria tende a diminuir, mas de forma gradual.
Assim, embora o cenário global seja mais favorável, o consumidor brasileiro ainda precisará de paciência antes de ver o chocolate efetivamente mais barato.
Veja mais em: Chocolate vai ficar mais barato? Entenda o impacto da queda no preço do cacau e Cacau em queda: entenda por que o chocolate está ficando mais caro

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