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Fósseis de mandíbula preservados em rocha há 86 milhões de anos revelam que um polvo de 19 metros dominava os mares do Cretáceo como predador ápice, e a descoberta sugere que os polvos de hoje são anões comparados aos ancestrais inteligentes que rivalizavam com mosassauros e plesiossauros

Escrito por Débora Araújo
Publicado em 11/05/2026 às 14:22
Atualizado em 11/05/2026 às 14:28
Assista o vídeoFósseis de mandíbula preservados em rocha há 86 milhões de anos revelam que um polvo de 19 metros dominava os mares do Cretáceo como predador ápice, e a descoberta sugere que os polvos de hoje são anões comparados aos ancestrais inteligentes que rivalizavam com mosassauros e plesiossauros
Polvo de 19 metros dominava os mares do Cretáceo.
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Pesquisadores identificaram fósseis raríssimos de um cefalópode gigante que viveu no período Cretáceo e podia alcançar 19 metros, mudando teorias sobre a evolução, inteligência e tamanho dos ancestrais dos polvos modernos.

Segundo a ScienceDaily, um estudo liderado por pesquisadores da Universidade de Hokkaido, no Japão, publicado na revista Science em 23 de abril de 2026, identificou fósseis de mandíbulas de polvos gigantes do Período Cretáceo — entre 100 e 72 milhões de anos atrás — que revelam animais com comprimento total estimado entre 7 e 19 metros. A espécie principal descrita, Nanaimoteuthis haggarti, foi batizada de “Kraken do Cretáceo” pela National Geographic — e o apelido é tecnicamente justificado. Com 19 metros de comprimento, o animal seria quase tão longo quanto um ônibus escolar colocado três vezes em fila.

Seus maxilares apresentam desgaste intenso com arranhões, lascas e bordas arredondadas que indicam que esses animais britavam repetidamente presas duras como conchas e ossos. A assimetria no desgaste das mandíbulas — com a ponta frontal de ambas as espécies desgastada num único lado em até 10% do tamanho total — é sinal de comportamento lateralizado, associado à inteligência mais sofisticada.

“Esses não eram apenas polvos gigantes, mas polvos gigantes e inteligentes”, disse Yasuhiro Iba, co-autor do estudo e paleontólogo da Universidade de Hokkaido, ao Live Science. “Nossas descobertas revisam a visão do oceano Cretáceo como um mundo dominado apenas por grandes predadores vertebrados. Elas mostram que invertebrados gigantes — polvos — também ocupavam o topo da cadeia alimentar.”

O problema que manteve os polvos fora da história por décadas

O registro fóssil de polvos é notoriamente escasso por uma razão física simples: seus corpos são quase inteiramente moles. Diferentemente de animais com esqueleto, conchas ou exoesqueletos, um polvo morto deixa pouquíssima evidência física ao longo de milhões de anos.

Polvos têm apenas uma estrutura corporal suficientemente rígida para sobreviver ao processo de fossilização: a mandíbula, feita de quitina endurecida — o mesmo material que compõe os exoesqueletos de insetos e crustáceos. É uma peça pequena em relação ao corpo do animal, de coloração escura, facilmente confundida com rocha comum numa análise superficial.

Para identificar mandíbulas de polvos em amostras de rocha, os pesquisadores da Hokkaido desenvolveram uma técnica chamada “mineração digital de fósseis”: grinding tomography de alta resolução combinada com um modelo de inteligência artificial treinado para reconhecer o perfil específico das mandíbulas de cefalópodes.

Com essa abordagem, a equipe analisou 15 mandíbulas previamente descobertas e identificou mais 12 em amostras de rocha do Japão e da Ilha de Vancouver, no Canadá. As condições de fundo oceânico calmo nessas regiões durante o Cretáceo preservaram detalhes que normalmente se perderiam. O resultado foi a descoberta de não uma, mas duas espécies de Nanaimoteuthis — N. jeletzkyi e N. haggarti — com mandíbulas de tamanhos e morfologias distintas.

Dezenove metros e mandíbulas que esmagavam ossos

Para estimar o comprimento total dos animais a partir apenas das mandíbulas preservadas, os pesquisadores usaram proporções estabelecidas entre mandíbula e comprimento corporal de polvos com aletas modernos — como o polvo-dumbo das profundezas oceânicas.

Os cálculos produziram um intervalo amplo: de 7 a 19 metros de comprimento total. O Natural History Museum de Londres, ao comentar o estudo, destacou que mesmo o limite inferior desse intervalo representaria um animal gigantesco — e que o limite superior colocaria o Nanaimoteuthis haggarti como potencialmente o maior invertebrado já descrito na história paleontológica. A curadora sênior de cefalópodes fósseis do museu, Zoe Hughes, resumiu a surpresa da descoberta: “A maioria dos polvos do Cretáceo que conheço tem o tamanho da minha mão, mas este é muito maior!”

As mandíbulas apresentam desgaste extenso que conta a história do que esses animais comiam. Arranhões, lascas e bordas progressivamente arredondadas pelo uso intenso indicam que o Nanaimoteuthis britava presas com conchas duras e ossos regularmente — não como ocasional oportunismo, mas como estratégia alimentar sistemática.

O estudo sugere que peixes, moluscos e potencialmente outros invertebrados com carapaça estavam no cardápio. E a evidência de comportamento lateralizado — usar consistentemente um lado específico da mandíbula — é a mesma característica que nos polvos modernos está associada à resolução de problemas e à memória de longo prazo.

O oceano Cretáceo que a paleontologia não enxergava

Durante décadas, a narrativa paleontológica do oceano Cretáceo era dominada por vertebrados: mosassauros com dentes serrilhados como o Mosasaurus hoffmannii de 18 metros, plesiossauros de pescoço longo como o Elasmosaurus de mais de 10 metros, tubarões de esmalte espesso e peixes gigantes. Invertebrados eram classificados como presas, não como predadores.

A descoberta do Nanaimoteuthis desafia essa narrativa de forma direta. Com comprimento potencial de 19 metros — comparável ao Mosasaurus hoffmannii —, mandíbulas com desgaste de predador ativo e evidências de inteligência comportamental, o animal reposiciona os cefalópodes no topo da cadeia alimentar do Cretáceo ao lado dos vertebrados, não abaixo deles. “Isso indica que os ecossistemas marinhos do Cretáceo eram mais complexos e incluíam uma gama mais ampla de predadores ápice do que se pensava anteriormente”, disse Iba à CNN.

Polvo-gigante-do-pacífico (Enteroctopus dofleini), a maior espécie de polvo da Terra atualmente.

A própria revista Science, ao publicar o estudo, incluiu uma perspectiva editorial que articula a mudança conceitual: “Para os últimos 370 milhões de anos, vertebrados de grande porte dominaram o ápice da cadeia alimentar marinha, enquanto invertebrados serviam como presas menores.” A descoberta dos Nanaimoteuthis reverte essa premissa para pelo menos um período específico do Mesozoico.

Por que a lenda do Kraken tem 19 metros de base real

O Kraken é uma criatura do folclore escandinavo — um monstro marinho capaz de afundar navios com seus tentáculos, descrito em textos noruegueses do século XIII e imortalizados por poetas e exploradores ao longo dos séculos. Scientistas sempre assumiram que a lenda era exagero baseado em avistamentos de lulas gigantes ou colossais, que atingem no máximo 13 metros.

A National Geographic foi direta ao chamar o Nanaimoteuthis haggarti de “Kraken do Cretáceo” — e a conexão não é apenas metafórica. O animal existiu numa época muito anterior ao surgimento humano, então não poderia ser a fonte direta das lendas escandinavas medievais. Mas a existência confirmada de polvos de 19 metros como predadores ápice nos oceanos pré-históricos transforma retrospectivamente o Kraken de fantasia pura em possibilidade evolutiva documentada.

Se existiu uma vez, o mecanismo biológico que permite a um cefalópode atingir essas proporções existe. A pergunta que os paleontólogos agora fazem é se existiram versões mais recentes — em oceanos do Paleogeno ou do Neogeno — que a escassez do registro fóssil de cefalópodes simplesmente não preservou.

Convergência evolutiva: como polvos e vertebrados chegaram ao mesmo resultado

Um dos aspectos mais tecnicamente fascinantes do estudo publicado na Science é a conclusão sobre convergência evolutiva — o processo pelo qual linhagens completamente diferentes chegam a soluções semelhantes para os mesmos desafios ecológicos.

Os autores documentaram que mandíbulas poderosas e perda de esqueleto externo transformaram convergentemente cefalópodes e vertebrados marinhos em predadores enormes e inteligentes. Em outras palavras: polvos e grandes répteis marinhos chegaram ao topo da cadeia alimentar por caminhos evolutivos completamente distintos, mas usando estratégias funcionais similares — corpo grande, capacidade de processar presas duras, comportamento inteligente de caça.

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A perda do esqueleto externo — que ancestrais de polvos tinham, e que se perdeu ao longo da evolução — é paradoxalmente o que permitiu que o corpo do Nanaimoteuthis crescesse sem a restrição que uma concha imporia. Sem o peso e a rigidez de um exoesqueleto, o corpo mole podia se expandir até proporções que um molusco com concha jamais atingiria. Foi a mesma liberação evolutiva que permitiu que baleias atingissem 30 metros e que répteis marinhos atingissem 18 metros — e que aparentemente funcionou também para os cefalópodes do Cretáceo.

O que ainda falta entender

O estudo da Hokkaido estabeleceu que o Nanaimoteuthis existiu, era enorme e era inteligente. O que ainda não está claro é como esses animais competiam ou dividiam o oceano com os grandes répteis marinhos que os cercavam.

As mandíbulas preservadas mostram desgaste compatível com presas de concha e osso, mas sem acesso ao conteúdo estomacal — impossível de fossilizar — não é possível confirmar se o Nanaimoteuthis caçava mosassauros e plesiossauros, ou se dividia o oceano comendo presas menores e evitando confronto com os vertebrados gigantes.

O Live Science foi cauteloso ao reproduzir a opinião de especialistas externos ao estudo: “Não há dúvida de que o Nanaimoteuthis era um predador enorme e eficiente, mas focar apenas no tamanho máximo faz esquecer que é concebível que não tenham alcançado dez metros” — o limite inferior do intervalo calculado.

O que o estudo definitivamente estabelece é que o oceano Cretáceo era mais complexo do que a paleontologia reconhecia. E que a próxima descoberta de mandíbulas cefalópodes em amostras de rocha de outros períodos geológicos — usando as mesmas técnicas de tomografia digital e IA da Hokkaido — pode revelar que animais da linhagem do Nanaimoteuthis sobreviveram ao asteroide que extinguiu os dinossauros e continuaram a nadar em mares que os humanos nunca chegaram a conhecer.

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Débora Araújo

Débora Araújo é redatora no Click Petróleo e Gás, com mais de dois anos de experiência em produção de conteúdo e mais de mil matérias publicadas sobre tecnologia, mercado de trabalho, geopolítica, indústria, construção, curiosidades e outros temas. Seu foco é produzir conteúdos acessíveis, bem apurados e de interesse coletivo. Sugestões de pauta, correções ou mensagens podem ser enviadas para contato.deboraaraujo.news@gmail.com

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