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Pipas gigantes começam a produzir eletricidade a centenas de metros do chão

Escrito por Fabio Lucas Carvalho
Publicado em 30/01/2026 às 18:29
Atualizado em 30/01/2026 às 18:30
Pipas geradoras de energia usam ventos de alta altitude, já alcançam até 100 kW e avançam para testes contínuos e integração à rede.
Pipas geradoras de energia usam ventos de alta altitude, já alcançam até 100 kW e avançam para testes contínuos e integração à rede.
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Tecnologia de energia eólica aérea usa pipas presas por cabos para captar ventos mais fortes e estáveis entre 300 e 500 metros de altitude, já registra dezenas de voos de teste na Europa e nos EUA e avança do estágio experimental para projetos com conexão à rede elétrica

As pipas presas por cabos e projetadas para gerar eletricidade em grandes altitudes estão deixando a fase experimental e entrando no desenvolvimento sério de energia renovável, com testes contínuos na Europa e nos Estados Unidos e foco em operação autônoma e integração à rede elétrica.

Esses sistemas, conhecidos como airborne wind energy systems (AWES), substituem torres de aço e fundações de concreto por pipas leves que operam a centenas de metros do solo, onde os ventos são mais fortes e previsíveis, convertendo força aerodinâmica em energia mecânica e elétrica por meio de um cabo conectado ao solo.

Por que a altura é decisiva para a geração de energia

O princípio central do AWES está na relação direta entre velocidade do vento e altitude. Modelos físicos da baixa troposfera indicam que, entre 300 e 500 metros, os ventos médios são mais intensos e estáveis do que próximos ao solo, aumentando o potencial energético disponível.

Estudos iniciais conduzidos por Miles L. Loyd, do Lawrence Livermore National Laboratory, demonstraram que o movimento transversal de uma pipa em voo cruzado eleva significativamente a densidade de potência em comparação com sistemas estacionários presos ao solo.

Especialistas do AWESCO explicam que a essência da tecnologia é substituir limitações materiais passivas por algoritmos de controle ativo, o que amplia o potencial energético, mas impõe desafios técnicos relevantes.

No ciclo de bombeamento, modo mais comum em sistemas com gerador no solo, a pipa voa em padrões de oito para maximizar a tensão do cabo durante a fase de desenrolamento, quando a energia é produzida, e retorna com gasto mínimo na fase de recolhimento.

Controle autônomo como núcleo dos sistemas AWES

A principal vantagem física dos ventos de altitude exige controle extremamente preciso. Tensão do cabo, estabilidade da trajetória e adaptação instantânea a rajadas precisam ser gerenciadas por sistemas autônomos robustos para evitar falhas operacionais ou perdas estruturais.

No centro de cada sistema AWES há uma arquitetura complexa de controle que coordena padrões de voo, comportamento do cabo e ciclos de geração centenas de vezes por hora, garantindo repetibilidade e segurança operacional.

Atualmente, predominam os projetos com gerador no solo, nos quais a força exercida pela pipa aciona um guincho ligado a um gerador. Em contraste, alguns conceitos ainda exploratórios preveem turbinas instaladas na própria pipa, com transmissão de eletricidade por cabos condutores.

Sensores, modelos e lógica de voo integrada

Os sistemas modernos combinam fusão de sensores, incluindo unidades inerciais, GNSS e codificadores de ângulo do cabo, para estimar com precisão posição, velocidade e dinâmica do voo em tempo real.

Técnicas de controle preditivo baseadas em modelos são utilizadas para planejar trajetórias que maximizem a produção de energia, mantendo os riscos dentro de limites aceitáveis e respeitando transições claras entre fases de geração e reposicionamento.

Modelos dinâmicos desenvolvidos na TUDelft ilustram trajetórias típicas de voo e subsidiam o refinamento dos algoritmos de controle empregados em campo por diversos desenvolvedores.

Testes em escala real no litoral da Irlanda

Em 2023, a empresa Kitepower firmou parceria com a RWE para instalar uma área dedicada de testes de energia eólica aérea em Bangor Erris, no condado de Mayo, Irlanda, com foco em operação compatível com a rede elétrica.

O sistema Falcon utilizado no local emprega uma pipa de 60 metros quadrados, com cerca de 80 quilos, sensores embarcados e unidade de controle próxima ao cabo, podendo gerar até 100 kW e atingir altitudes máximas de 350 metros durante os testes.

Segundo Johannes Peschel, então CEO da Kitepower, os voos passaram a ocorrer em média cinco vezes por semana, com mais de 35 horas acumuladas e um recorde individual de cinco horas e quarenta e cinco minutos, indicando avanço rumo à operação contínua e automatizada.

Até o final de 2024, o local havia registrado mais de 90 voos e 100 horas de testes, sinalizando a transição de experimentos intermitentes para um regime de operação mais estável e previsível, apesar de alguns dados ainda estarem em fase de validação teécnica.

Mobilidade e outras iniciativas internacionais

A rápida implantação, possível em menos de 24 horas, e a facilidade de realocação são apontadas por engenheiros como vantagens relevantes dos sistemas AWES frente às turbinas convencionais, que exigem longos prazos de construção.

Na Alemanha, a SkySails Power avança com pipas inteligentes equipadas com piloto automático e sistemas de controle para otimizar rotas e distribuição de energia.

Outras empresas europeias, como EnerKite, Kitemill e TwingTec, trabalham em modularidade e autonomia, buscando sair da prova de conceito rumo à comercialização.

Nos Estados Unidos, pesquisas são apoiadas pelo DOE e pela ARPA-E, com ênfase em modelagem, controle e implantação, aproveitando conhecimentos gerados por projetos anteriores, como o Makani, da Google.

Custos, materiais e desafios de longo prazo

A viabilidade econômica do AWES baseia-se no uso mais eficiente de materiais e em estações de solo menores, em contraste com as grandes torres e fundações exigidas por turbinas tradicionais, reduzindo custos energéticos incorporados.

Embora ainda não existam dados consolidados de longo prazo, estudos preliminares sugerem reduções de ordem de grandeza no uso de materiais estruturais, enquanto testes indicam que unidades de 100 a 200 kW podem ser combinadas de forma modular.

Avaliações completas de custo nivelado de energia dependem de anos de operação, incluindo manutenção e desgaste dos cabos, fatores que seguem em análise em Bangor Erris e em outros locais de teste, onde a confiabilidade e a integração à rede permanecem como desafios centrais para a tecnologia.

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Fabio Lucas Carvalho

Jornalista especializado em uma ampla variedade de temas, como carros, tecnologia, política, indústria naval, geopolítica, energia renovável e economia. Atuo desde 2015 com publicações de destaque em grandes portais de notícias. Minha formação em Gestão em Tecnologia da Informação pela Faculdade de Petrolina (Facape) agrega uma perspectiva técnica única às minhas análises e reportagens. Com mais de 10 mil artigos publicados em veículos de renome, busco sempre trazer informações detalhadas e percepções relevantes para o leitor.

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