Auditoria após vazamento de fluido reacende debate sobre petróleo na Foz do Amazonas. Dados revelam histórico alarmante de acidentes e pressão cresce contra a Petrobras.
A exploração de petróleo na costa amazônica voltou ao centro de uma forte controvérsia após um vazamento registrado em uma sonda operada pela Petrobras, na bacia da Foz do Amazonas.
O episódio, ocorrido no início de janeiro, levou a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) a anunciar uma auditoria detalhada nas condições de segurança da unidade, reacendendo debates antigos sobre os riscos da atividade em uma das regiões ambientalmente mais sensíveis do país.
O vazamento envolveu cerca de 18 mil litros de fluido de perfuração durante a abertura do poço exploratório Morpho, no bloco 59, localizado a aproximadamente 175 quilômetros da costa do Amapá.
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Embora não tenha havido liberação direta de petróleo, o incidente elevou o nível de alerta entre ambientalistas, especialistas e comunidades locais.
Auditoria da ANP entra em cena após novo incidente
A fiscalização da ANP está prevista para ocorrer entre os dias 2 e 7 de fevereiro e terá como foco principal os sistemas de segurança operacional da sonda.
Segundo o órgão regulador, a perfuração segue suspensa e só poderá ser retomada mediante autorização expressa, após a análise completa das condições técnicas e operacionais.
Em ofício enviado à Petrobras, a agência deixou claro que a auditoria busca garantir a “proteção da vida humana, do meio ambiente e dos ativos”, além de permitir o registro de eventuais não conformidades e a aplicação de medidas administrativas adicionais, caso sejam identificadas falhas.
A Petrobras terá até 90 dias, contados a partir da constatação do vazamento, para apresentar um relatório detalhado explicando as causas do incidente e as ações corretivas adotadas.
Histórico de acidentes levanta dúvidas sobre segurança do petróleo na região
Embora o governo federal tenha defendido, em ocasiões anteriores, a capacidade técnica da Petrobras para operar em águas profundas, dados históricos indicam que a exploração de petróleo na margem equatorial brasileira enfrenta desafios recorrentes.
Levantamento baseado em informações da própria ANP mostra que, desde 1970, uma em cada quatro tentativas de perfuração nas bacias da Foz do Amazonas, Pará-Maranhão e Barreirinhas foi interrompida por acidentes mecânicos. Ao todo, dos 156 poços autorizados nesse período, 41 tiveram as atividades paralisadas por falhas técnicas.
Na bacia da Foz do Amazonas, onde ocorreu o vazamento recente, o cenário é ainda mais preocupante: 28% das perfurações registraram acidentes mecânicos, o que equivale a uma interrupção a cada 3,5 poços.
Já na bacia de Barreirinhas, o índice chega a 35%, enquanto na Pará-Maranhão atinge 15%. Para efeito de comparação, nas bacias de Campos e Santos, no Sudeste, os percentuais ficam entre 5% e 7%.
Diante do novo episódio, organizações como Greenpeace Brasil e Instituto Internacional Arayara intensificaram os pedidos pela suspensão da licença ambiental do bloco 59 e pela paralisação de novos licenciamentos para exploração de petróleo na região.
As entidades alertam para a complexidade da dinâmica oceânica local, marcada por correntes intensas, grande variação de marés e elevada profundidade, fatores que dificultariam qualquer resposta rápida em caso de acidentes mais graves.
“O episódio confirma o que a organização e diversos especialistas vêm alertando há anos: a exploração de petróleo na margem equatorial envolve riscos elevados, recorrentes e estruturalmente difíceis de mitigar”, afirmou Nicole Oliveira, diretora-executiva do Instituto Internacional Arayara.
Petrobras se defende e diz que fluido é biodegradável
Em nota, a Petrobras informou que adotou todas as medidas de controle necessárias e notificou imediatamente os órgãos competentes. Segundo a estatal, o fluido utilizado na perfuração atende aos limites de toxicidade permitidos, é biodegradável e o vazamento foi totalmente contido.
A empresa reforçou que não houve liberação de petróleo, nem comprometimento da segurança do poço ou da sonda, destacando que o material vazado é conhecido como “lama de perfuração”, utilizado para resfriar a broca, remover fragmentos de rocha e controlar a pressão interna do poço.
O Ibama solicitou um relatório detalhado à Petrobras, incluindo informações sobre a composição do fluido, suas características ecotoxicológicas, possíveis impactos ambientais e medidas preventivas.
O Ministério Público Federal no Amapá também pediu esclarecimentos, no âmbito de um inquérito civil que investiga a regularidade do licenciamento ambiental da atividade na Foz do Amazonas.
Na última atualização enviada ao Ibama, a Petrobras afirmou que as causas do vazamento ainda estão em fase de apuração.
“Hoje é um fluido, amanhã pode ser óleo”, alerta Greenpeace
Para o Greenpeace, o incidente reforça riscos estruturais da operação. “Hoje é um fluido, amanhã pode ser óleo”, alertou Mariana Andrade, coordenadora de oceanos da organização, destacando a falta de estudos atualizados sobre a hidrodinâmica da região.
Segundo ela, a ausência dessas informações impede saber para onde o material vazado se deslocou e quais impactos pode ter causado, especialmente para comunidades tradicionais que dependem da pesca e de recursos marinhos para sobreviver.
Você acredita que os alertas são reais ou apenas exagero? A exploração de petróleo na Foz do Amazonas deveria continuar ou ser definitivamente suspensa?


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