A Petrobras avalia entrar no mercado de etanol de milho, biocombustível em forte expansão no Centro-Oeste brasileiro, num movimento que marcaria a volta da estatal ao setor de biocombustíveis e poderia transformá-la num grande player também do etanol, ao lado do seu domínio histórico no petróleo. A iniciativa faz parte da estratégia da companhia de investir em energias de baixo carbono.
Seria uma virada simbólica. A maior petroleira do país, símbolo do combustível fóssil, passando a produzir também o combustível renovável que abastece milhões de carros flex. O interesse mostra como até as gigantes do óleo estão se movendo para diversificar diante da transição energética.
A volta a um velho conhecido
Não seria a primeira vez da Petrobras no setor. A empresa já teve uma subsidiária de biocombustíveis no passado, com participação em usinas de etanol e biodiesel, mas recuou do segmento em anos de reestruturação e foco no petróleo. Agora, com a pressão mundial por energia limpa, a companhia reavalia a decisão e estuda voltar, dessa vez de olho no etanol de milho.
-
Leilão de R$ 44 bilhões contrata novas usinas térmicas para garantir que não falte energia no horário de pico
-
Por que a gasolina não dispara: como o subsídio e a política de preços da Petrobras seguram o combustível no Brasil
-
SpaceX quer reduzir a dependência de comboios de caminhões para transportar combustível e planeja construir gasoduto de 13 km para acelerar lançamentos foguetes Starship nos Estados Unidos
-
Petrobras bate recorde de produção no pré-sal: 2,66 milhões de barris por dia
A escolha do milho não é por acaso. Diferente do etanol de cana, tradicional no Brasil, o etanol de milho cresce em ritmo acelerado no Centro-Oeste, onde sobra grão. Ele permite transformar o milho em combustível na própria região produtora, agregando valor e evitando o frete caro até os portos, num modelo que atraiu uma onda de novas usinas.

Por que a Petrobras se interessa
O cálculo é estratégico. A transição energética pressiona as petroleiras a reduzir a dependência do petróleo, e os biocombustíveis são uma forma de fazer isso sem abandonar a sua expertise em combustíveis. O etanol já está integrado à matriz brasileira, é vendido nos mesmos postos da gasolina e conta com uma demanda firme, sustentada por políticas de incentivo aos renováveis.
Entrar nesse mercado daria à Petrobras um pé sólido no baixo carbono com risco menor do que apostar em tecnologias ainda imaturas. A companhia já anunciou planos de investir em etanol, biodiesel, diesel renovável e combustível de aviação sustentável, e o etanol de milho se encaixa nessa estratégia de diversificação que os investidores acompanham de perto.
É uma aposta no que já funciona.
O impacto no mercado
A eventual entrada da Petrobras mexeria com todo o setor. Com o seu tamanho, capital e capacidade de distribuição, a estatal poderia acelerar a expansão do etanol de milho e pressionar os preços, beneficiando o consumidor, mas também preocupando os produtores já estabelecidos, que veriam um concorrente de peso entrar no jogo. O equilíbrio entre estimular o setor e não sufocar quem já está nele será delicado.

Para o agronegócio, o interesse da Petrobras é, em geral, uma boa notícia. Mais um grande comprador de milho na região produtora ajuda a sustentar o preço do grão e dá ao produtor mais uma saída para a sua safra, num momento em que o gargalo logístico para escoar a produção ainda é grande. Transformar o milho em combustível perto da lavoura alivia essa pressão.
Uma decisão em estudo
Por enquanto, trata-se de uma avaliação, e não de um negócio fechado. A Petrobras estuda as formas de entrar no mercado, seja construindo usinas, comprando participações ou firmando parcerias, e a decisão final dependerá da análise de custos, retorno e estratégia de longo prazo da companhia.

De um jeito ou de outro, o simples interesse já sinaliza a direção que a maior empresa do país está tomando. Segundo a Brasilagro e a Agência Petrobras, avaliar o etanol de milho integra o esforço da estatal de se posicionar na economia de baixo carbono sem abrir mão da sua força no petróleo, equilibrando o presente fóssil e o futuro renovável.
