Declaração de fundador da JD.com expõe como a automação no delivery avança na China e reacende discussões sobre emprego, requalificação profissional e uso de robôs em serviços urbanos de grande escala.
O fundador e presidente do conselho da JD.com, Richard Qiangdong Liu, afirmou que os cerca de 700 mil entregadores da companhia chinesa poderão ser substituídos por robôs “mais cedo ou mais tarde”.
A declaração foi dada no Fórum de CEOs da Cooperação Econômica Ásia-Pacífico, a APEC, realizado em Pequim, segundo o Financial Times, e trouxe novamente ao debate público os efeitos da automação sobre trabalhadores de plataformas.
A JD.com é uma das maiores empresas de comércio eletrônico da China e mantém uma operação logística própria.
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Na fala, Liu relacionou o avanço de robôs de entrega à possibilidade de reduzir, no futuro, a necessidade de trabalhadores humanos na etapa final do transporte até o consumidor, conhecida como última milha.
A frase atribuída ao executivo foi: “No futuro, quando robôs estiverem entregando encomendas, mais cedo ou mais tarde haverá um dia em que entregadores basicamente não serão mais necessários.”
Ele também disse que não quer ver os “700 mil irmãos” da empresa sem comida ou sem trabalho, ao defender programas de requalificação para esses profissionais.
JD.com planeja requalificar entregadores
De acordo com o Financial Times, a JD.com assinou contratos com cerca de 120 escolas para treinar entregadores em novas funções.
Entre as possibilidades mencionadas por Liu estão atividades de reparo e manutenção dos próprios robôs usados na logística.
A companhia já desenvolve veículos autônomos há anos.
Em comunicado publicado em 2023, a JD Logistics informou pesquisar veículos autônomos de entrega de última milha desde 2016 e disse ter mais de 600 unidades autônomas em operação em 30 cidades chinesas naquele momento.
Esses equipamentos eram usados em ambientes como condomínios, centros comerciais e prédios de escritórios.

Veículos autônomos de entrega avançam na China
A expansão não se limita à JD.com.
Reportagem do The Wire China, publicada em outubro de 2025, apontou que a China avançava na adoção de veículos autônomos de entrega.
O texto citou a Neolix, uma das empresas do setor, e registrou cerca de 30 mil pedidos globais para seus veículos autônomos.
Esses veículos, conhecidos pela sigla ADV em inglês, costumam operar em rotas definidas e em baixa velocidade.
Por transportarem mercadorias, e não passageiros, eles seguem uma lógica diferente da usada por robotáxis, embora também dependam de regras locais, infraestrutura urbana e sistemas de segurança para circular.
O avanço da automação aparece em diferentes áreas além das entregas.
No Japão, a Japan Airlines iniciou uma experiência com robôs humanoides no Aeroporto de Haneda, em Tóquio, para apoiar atividades de solo, como movimentação de bagagens, em parceria com a GMO AI & Robotics.
A iniciativa foi apresentada como teste para lidar com escassez de mão de obra e reduzir esforço físico dos funcionários.
Na indústria automotiva, a BMW informou em 25 de junho de 2026 que avançou em testes com robôs humanoides da Figure AI na fábrica de Spartanburg, na Carolina do Sul, nos Estados Unidos.
Segundo a montadora, o Figure 02 atuou em tarefas ligadas à produção do BMW X3, enquanto o Figure 03 passou a ser avaliado em uma nova aplicação logística na unidade.
Robôs também têm sido usados em ações de segurança e inspeção.
A Reuters verificou, em junho de 2026, que cães robóticos Spot, da Boston Dynamics, estavam presentes em locais relacionados à Copa do Mundo, mas não eram usados para reconhecimento facial, ao contrário do que afirmavam publicações enganosas nas redes sociais.
Trabalho flexível cresce com plataformas digitais
A fala de Liu ocorre em um período de crescimento do trabalho flexível na China.
O Financial Times citou dados do China New Employment Forms Research Center segundo os quais o número de trabalhadores temporários ou de plataformas deve chegar a 320 milhões em 2026, ante 200 milhões cinco anos antes.
Esse grupo inclui entregadores, motoristas de aplicativo e trabalhadores temporários em fábricas.
Outras fontes chinesas também apontam crescimento nesse tipo de ocupação.
O Global Times registrou que a China tinha 280 milhões de trabalhadores flexíveis em 2025, com previsão de 320 milhões em 2026, o equivalente a mais de 40% do emprego urbano.
A classificação de “trabalho flexível”, no entanto, é tratada de formas diferentes por governos, empresas e pesquisadores.
Em análise sobre o tema, a Human Rights Watch afirmou que trabalhadores de plataformas na China precisam de proteção mais efetiva, especialmente em relação a renda, seguridade social e direito de organização.
O governo chinês também passou a tratar o tema como parte da política nacional de emprego.
Em junho de 2026, a Reuters informou que o Conselho de Estado divulgou um plano quinquenal para manter a estabilidade do mercado de trabalho, com menção à adaptação ao avanço da inteligência artificial e de novas formas de colaboração entre humanos e máquinas.
Automação muda funções no comércio eletrônico
Nesse cenário, a declaração do fundador da JD.com mostra como empresas de logística e comércio eletrônico passaram a associar automação, produtividade e reorganização de funções.
A substituição de tarefas repetitivas por máquinas já é apresentada por companhias do setor como uma forma de reduzir esforço físico e ampliar eficiência operacional.
Para trabalhadores, sindicatos, governos e plataformas, a discussão se concentra em como essa transição será feita.
