Peixe de pequeno porte sustenta uma cadeia industrial decisiva para o Peru, conecta a costa do Pacífico a grandes compradores internacionais e revela como clima, cotas pesqueiras, processamento e demanda asiática determinam o desempenho de um dos mercados marinhos mais relevantes do mundo.
Pouco presente na alimentação cotidiana dos peruanos, a anchoveta tornou-se o centro de uma cadeia exportadora que transforma grandes capturas do Pacífico em farinha e óleo de peixe, produtos comercializados internacionalmente e importantes para a economia pesqueira do Peru.
O país consolidou sua liderança nesse segmento ao combinar a abundância do recurso marinho com uma estrutura industrial voltada ao processamento, temporadas controladas de pesca e uma produção que responde diretamente às condições do oceano e às autorizações oficiais de captura.
Durante a segunda temporada de pesca de 2024, realizada na região centro-norte do litoral peruano, as embarcações capturaram 2,42 milhões de toneladas de anchoveta, o equivalente a mais de 95% da cota de 2,51 milhões de toneladas.
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Anchoveta sustenta a pesca industrial peruana
Os números divulgados pelo Ministério da Produção do Peru mostram que aquela temporada gerou mais de 680 mil toneladas de farinha e óleo de peixe, confirmando a dimensão alcançada pela atividade industrial baseada na espécie.
A mesma safra movimentou mais de US$ 1,41 bilhão em exportações, valor associado aos produtos obtidos durante a temporada, enquanto o governo peruano estimou a geração de aproximadamente 49 mil postos de trabalho diretos e indiretos ligados à atividade.
A escala milionária aparece principalmente no volume de anchoveta retirado do mar, enquanto a quantidade exportada corresponde aos produtos resultantes do processamento, uma diferença importante para compreender os dados apresentados sobre captura, produção industrial e comércio exterior.
Embora tenha dimensões reduzidas, o peixe exerce influência sobre fábricas, embarcações, trabalhadores portuários, empresas exportadoras e comunidades costeiras, formando uma cadeia que transforma um recurso natural abundante em uma das principais mercadorias pesqueiras oferecidas pelo país.

Farinha e óleo de peixe concentram o valor comercial da anchoveta, pois permitem que grandes volumes capturados em períodos determinados sejam processados e direcionados ao exterior, ampliando o alcance econômico de uma espécie pouco consumida diretamente pela população peruana.
China concentra as compras de farinha de peixe
A presença peruana no comércio mundial tornou-se especialmente relevante após a recuperação observada em 2024, quando as exportações de farinha de peixe chegaram a 885 mil toneladas nos primeiros nove meses, contra 460 mil toneladas registradas durante o mesmo período de 2023.
Segundo análise publicada pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, a China recebeu 771 mil toneladas do produto peruano naquele intervalo, volume superior ao dobro das 360 mil toneladas importadas um ano antes.
Com esse avanço, o mercado chinês absorveu quase 90% das exportações peruanas de farinha de peixe contabilizadas no período, reforçando uma relação comercial que costuma representar aproximadamente 80% das vendas externas do produto realizadas pelo Peru em anos regulares.
A China também respondeu por cerca de 40% das importações mundiais de farinha de peixe em 2024, participação que ajuda a explicar por que as decisões de compra do país asiático têm impacto direto sobre produtores, exportadores e preços internacionais.
Essa concentração oferece uma demanda de grandes proporções, mas também deixa a cadeia peruana fortemente ligada ao comportamento de um comprador dominante, sobretudo nos momentos em que a recuperação das capturas amplia rapidamente a oferta disponível para negociação no mercado externo.
El Niño altera capturas e produção mundial
A força econômica dessa atividade convive com uma vulnerabilidade permanente às condições ambientais, porque mudanças na temperatura e na circulação das águas do Pacífico podem modificar a distribuição da anchoveta e limitar o volume disponível para as temporadas industriais.
Em 2023, capturas fracas da espécie no Peru contribuíram para uma redução de 23% na produção mundial de farinha de peixe e de 21% na fabricação de óleo, segundo o levantamento da FAO sobre o comércio internacional desses produtos.
As condições desfavoráveis continuaram no início de 2024, mas perderam intensidade à medida que o fenômeno El Niño enfraqueceu, permitindo uma recuperação das operações na região centro-norte peruana e uma utilização elevada das cotas estabelecidas para as duas temporadas daquele ano.
Com o retorno da oferta do Peru, os estoques disponíveis no mercado internacional ganharam estabilidade e a pressão sobre os preços diminuiu, embora a produção de óleo de peixe tenha permanecido limitada por rendimentos reduzidos observados tanto no país quanto no Chile.
O episódio mostrou que oscilações na pesca peruana ultrapassam as fronteiras nacionais, pois a anchoveta é apontada pela FAO como a principal fonte mundial de matéria-prima para farinha e óleo de peixe, produtos negociados por diferentes economias.
Cotas definem o ritmo de cada temporada
Para administrar esse recurso, o governo determina limites de captura e períodos específicos de operação, como ocorreu na temporada iniciada em 1º de novembro de 2024, quando a frota recebeu autorização para retirar até 2,51 milhões de toneladas.
A captura efetiva de 2,42 milhões de toneladas demonstrou o elevado aproveitamento da cota, enquanto o Ministério da Produção afirmou que as decisões sobre a atividade são baseadas em estudos científicos e no monitoramento permanente das condições do estoque marinho.
Esse modelo faz com que o desempenho das empresas dependa não apenas da demanda estrangeira, mas também das avaliações realizadas antes e durante cada temporada, capazes de ampliar, restringir ou interromper as operações conforme a disponibilidade da anchoveta no litoral.
Assim, a pequena espécie conecta fenômenos oceânicos, decisões governamentais e necessidades industriais em uma cadeia que movimenta bilhões de dólares, sustenta milhares de empregos e coloca o Peru no centro das mudanças observadas no fornecimento mundial de ingredientes marinhos.
Até que ponto o Peru conseguirá preservar a anchoveta e, ao mesmo tempo, manter a força econômica de uma cadeia que depende do clima, de cotas rigorosas e de compradores internacionais concentrados principalmente no mercado chinês?

