Dez anos depois de comprar uma casa geminada do século 18 em Ellerby, no norte da Inglaterra, um casal decidiu reformar. Ao levantar o piso da cozinha, achou uma taça de cerâmica lotada de moedas de ouro raras e o tesouro escondido acabou parando em um leilão milionário.
O que era para ser uma reforma banal terminou em um achado de cinema. Segundo a revista Smithsonian, um casal anônimo que trocava o piso da cozinha de sua casa em Ellerby, uma vila de North Yorkshire, no nordeste da Inglaterra, encontrou sob o assoalho uma pequena caneca de barro abarrotada de moedas de ouro raras, algumas com mais de quatro séculos.
De acordo com a Smithsonian, a descoberta aconteceu em julho de 2019 e reunia 266 moedas datadas de 1610 a 1727. A casa de leilões Spink & Son estimava o conjunto em mais de £ 250 mil mas, quando o martelo bateu, a “aposentadoria enterrada” alcançou cerca de £ 754 mil, aproximadamente o triplo do previsto.
Um “cabo elétrico” que virou fortuna

A descoberta começou com um susto banal. Enquanto trabalhavam na troca do piso da cozinha, o casal se deparou com algo duro sob o concreto e imaginou ter esbarrado em um velho cabo elétrico enterrado.
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Ao investigar a obstrução, porém, perceberam que era outra coisa: uma taça de cerâmica repleta de moedas de ouro um achado que logo levantou a pergunta que persegue todo tesouro desenterrado no país, a de saber se aquilo se enquadrava nas regras britânicas sobre tesouros.
As dimensões ajudam a entender o espanto. A taça de grés estava enterrada entre 15 e 20 centímetros abaixo da superfície e tinha mais ou menos o tamanho de uma lata de refrigerante pequena o suficiente para passar despercebida por gerações, mas suficiente para guardar 266 moedas de ouro. O recipiente modesto escondia, na prática, uma pequena fortuna adormecida sob as tábuas.
Moedas de 1610 a 1727: dinheiro do dia a dia de outra era

Cortesia de Spink & Son / Gregory Edmund.
Apesar de o conjunto ser extraordinário, as peças não nasceram como raridades. As moedas circularam como dinheiro comum na época, usadas no comércio cotidiano antes de serem guardadas e esquecidas. Datadas de 1610 a 1727, elas valiam, juntas, algo entre £ 50 e £ 100 quando foram enterradas uma quantia considerável para o período.
Entre todas, algumas se destacam pelo capricho do erro. A mais rara e valiosa é uma guiné de Jorge I de 1720 com falha de cunhagem, que traz a mesma inscrição nos dois lados, avaliada em cerca de £ 4.000. Há ainda outra curiosidade cobiçada: uma guiné de Carlos II com o nome em latim grafado de forma incorreta, estimada em torno de £ 1.500.
Por que o casal pôde ficar com o tesouro

Nem todo achado desse tipo fica com quem o encontra, mas este teve um desfecho favorável. Depois de um vaivém jurídico, um legista do governo britânico concluiu que as moedas podiam ser “dispensadas” porque a mais recente delas uma guiné de Jorge I de 1727 tinha menos de 300 anos no momento da descoberta.
Sem se enquadrarem na definição legal de “tesouro”, as peças puderam permanecer, em sua maioria, com o casal.
O Estado, ainda assim, reservou uma lembrança. O governo decidiu ficar com um único item: uma rara moeda de ouro brasileira que circulou na Inglaterra na década de 1720, destinada ao acervo de um de seus museus. O restante seguiu com os proprietários, livre para ser levado a leilão.
O casal do século 17 que desconfiava dos bancos
A história por trás das moedas é quase tão curiosa quanto o achado. Antes de virarem tesouro esquecido, elas provavelmente pertenceram a Joseph e Sarah Fernley-Maisters, um casal de uma próspera família mercantil que enriqueceu com o comércio de recursos naturais como madeira, carvão e minério de ferro. Eles se casaram em 1694; Joseph morreu em 1725 e Sarah, em 1745.
Para os especialistas, a escolha de enterrar o dinheiro revela muito sobre a época. Segundo Gregory Edmund, numismata da Spink & Son, o casal “claramente desconfiava do recém-criado Banco da Inglaterra, das cédulas e até das moedas de ouro de seu tempo”, já que preferiu acumular peças que remontavam à Guerra Civil Inglesa e a períodos anteriores.
“Por que nunca recuperaram as moedas, tão fáceis de achar logo abaixo das tábuas originais do século 18, é um mistério ainda maior”, acrescenta.
Da caneca enterrada ao martelo de £ 754 mil
O passo seguinte foi transformar o achado em dinheiro vivo. Conduzido pela Spink & Son, o leilão partiu de uma estimativa acima de £ 250 mil, já considerada alta para um conjunto do tipo.
No fim, porém, o lote foi arrematado por cerca de £ 754 mil quase o triplo do valor previsto, um resultado que surpreendeu até os organizadores.
A cifra combina com o tom das avaliações. Para Edmund, “o notável acervo é diferente de qualquer descoberta da arqueologia britânica ou de qualquer leilão de moedas de que se tenha memória”. Mais do que o ouro em si, o que valoriza o conjunto é a combinação de raridade, estado de conservação e a história pessoal que ele carrega.
O que ainda intriga sobre o achado
Mesmo com o mistério do valor resolvido no martelo, algumas perguntas seguem sem resposta. Não se sabe ao certo por que os antigos donos nunca voltaram para buscar a poupança, guardada a poucos centímetros de profundidade e tão fácil de alcançar. O que levou uma família próspera a abandonar uma pequena fortuna sob o próprio assoalho continua em aberto.
O episódio também serve de lembrete de que casas antigas podem esconder capítulos inteiros de história sob os pés de quem mora nelas. Uma simples reforma de cozinha bastou para reabrir uma janela para o século 17 e para transformar um casal comum em protagonista de um dos achados mais comentados da numismática britânica recente.
E você, o que faria se achasse isso embaixo de casa?
Um pote do tamanho de uma latinha, 266 moedas de ouro e um martelo de £ 754 mil: a história de Ellerby tem tudo para alimentar o sonho de quem já imaginou desenterrar um tesouro em casa.
Você levaria tudo a leilão como o casal fez, ou guardaria as moedas de recordação? E, sinceramente, você já teve vontade de arrancar o piso da cozinha só para ver o que há embaixo? Conta pra gente aqui nos comentários.
