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Pai e filho criam robôs que injetam lascas de madeira no subsolo para erguer cidades inteiras ameaçadas por inundações, uma alternativa que pode custar uma fração do muro de contenção marítimo orçado em quase um bilhão de dólares na Califórnia

Publicado em 01/06/2026 às 10:41
Atualizado em 01/06/2026 às 11:04
Assista o vídeoNa Califórnia, a Terranova usa robôs que injetam madeira no subsolo para erguer cidades contra inundações por uma fração do preço de um muro de contenção.
Na Califórnia, a Terranova usa robôs que injetam madeira no subsolo para erguer cidades contra inundações por uma fração do preço de um muro de contenção.
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Em San Rafael, na Califórnia, a startup Terranova aposta em robôs autônomos que bombeiam uma pasta de resíduos de madeira para o subsolo e elevam o terreno aos poucos. A ideia é livrar bairros que afundam das inundações por cerca de 92 milhões de dólares, em vez de quase um bilhão em muros.

Uma startup da Califórnia decidiu enfrentar as enchentes de um jeito pouco usual: em vez de erguer muros contra o mar, ela quer levantar a própria cidade. Para isso, a Terranova desenvolveu robôs autônomos que injetam resíduos de madeira no subsolo e elevam o terreno lentamente, devolvendo a bairros que afundam alguma proteção contra as inundações.

O projeto nasceu em San Rafael, na região da Baía de São Francisco, e tem rosto de família: foi tocado por Laurence Allen, cofundador e CEO, ao lado do pai, Trip Allen, presidente da empresa. A dupla calcula que dá para proteger a cidade por cerca de 92 milhões de dólares, valor bem abaixo dos 500 milhões a 900 milhões estimados para muros de contenção marítimos. Em novembro de 2025, a startup levantou 7 milhões de dólares em uma rodada inicial de investimento.

Por que San Rafael afunda e precisa de uma saída

imagem: video
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San Rafael convive com um problema silencioso: partes da cidade estão afundando. O chamado Canal District, vizinho à baía, já cedeu cerca de 90 centímetros e fica abaixo do nível do mar, o que deixa a região exposta a inundações que tendem a piorar com a elevação dos oceanos. Estimativas citadas pela empresa indicam que o solo continua descendo na casa de poucos centímetros por ano, e que, sem intervenção, o centro e a área do canal podem ficar submersos nas próximas décadas.

O obstáculo é o custo. Segundo a Terranova, as soluções apresentadas à cidade por consultores giravam sempre em torno de 500 milhões a 900 milhões de dólares em muros de contenção, um valor difícil de bancar para um município de cerca de 60 mil habitantes, parte deles vivendo em situação de pobreza. É nesse cenário que entra a proposta de erguer o chão em vez de barrar a água, usando robôs em vez de grandes obras de concreto.

Como os robôs erguem o chão com madeira

 robô da Terranova, chamado Atlas 3
 robô da Terranova, chamado Atlas 3

A tecnologia é menos complexa do que parece. A empresa mistura lascas de madeira com água e um agente espessante, formando uma pasta que é bombeada de um contêiner para o equipamento de injeção.

Os robôs, que se movem sozinhos pelo canteiro, perfuram poços e empurram esse material para profundidades de cerca de 12 a 18 metros, sob pressão baixa. O efeito é o de um elevador lento: a superfície sobe de forma tão gradual que, segundo os criadores, mal dá para perceber a mudança no dia a dia.

robô da Terranova
robô da Terranova

Por trabalhar com uma área ampla e em camadas profundas, o sistema não comprometeria as estruturas na superfície, de acordo com a empresa. Os fundadores costumam usar o aeroporto de San Francisco como exemplo: seria possível elevar o terreno enquanto os aviões continuam pousando normalmente. Em ritmo de operação, os robôs conseguem levantar cerca de um acre-pé de terra por dia, com a versão mais recente do equipamento bombeando perto de 1.500 galões por minuto, contra os 200 galões por minuto dos primeiros protótipos.

Arca, Atlas, Prometeu e Vulcano: a frota de robôs

Os equipamentos ganharam nomes de peso. A Arca funciona como uma nave-mãe, recebendo a matéria-prima e abastecendo as demais máquinas no campo. O Atlas é a unidade que carrega e movimenta o maquinário pelo local, com uma bateria capaz de sustentar cerca de dez horas de trabalho. Já o Prometeu é a cápsula que faz de fato as injeções, baixando seus apoios e empurrando a pasta para o subsolo, enquanto a Vulcano é a plataforma de perfuração.

A escolha dos nomes mistura mitologia grega e a Arca de Noé, numa brincadeira com a missão de salvar cidades das águas. A montagem dos robôs também impressiona pela velocidade: segundo a equipe, uma das unidades Atlas foi construída em apenas duas semanas, com um time de três pessoas. Para 2026, o plano é ambicioso, com a intenção de fabricar cerca de dez desses robôs e três naves-mãe, o que exige um modelo de produção quase industrial.

Mais barato que um muro e com crédito de carbono

O grande trunfo da proposta é financeiro. A Terranova estima que pode elevar cerca de 240 acres em San Rafael em quase 1,2 metro por aproximadamente 92 milhões de dólares, uma fração do que custariam os muros de contenção. Parte da conta ainda poderia ser abatida com a venda de créditos de carbono, já que a madeira enterrada fica retida no subsolo em vez de ser queimada ou descartada em aterros, o que sequestra carbono e pode reduzir o custo final para os contribuintes.

A matéria-prima é justamente um problema que a Califórnia tem de sobra. Em uma região marcada por incêndios e por grande volume de resíduos de poda, sobra madeira que costuma ser enviada para queima. Os fundadores afirmam que um único caminhão de madeira rende cerca de oito vezes mais volume do que um caminhão de terra, o que torna o transporte muito mais barato. A inspiração veio de experiências dos anos 1970 ao redor de Veneza, onde prédios chegaram a ser erguidos com injeção de lama, técnica que esbarrava no custo alto de transportar o material.

Segurança, dúvidas e a resistência da cidade

Do lado da segurança, a empresa sustenta que o material é inofensivo. Segundo a Terranova, o conteúdo injetado são basicamente lascas de madeira misturadas com água, e testes indicariam que o processo pode até ajudar a remover nitratos do lençol freático. A companhia afirma ter recebido sinalizações de órgãos ambientais no sentido de não tratar a injeção como uma ameaça à água subterrânea.

Mas nem todos estão convencidos. Alguns engenheiros levantaram a dúvida de se o solo preenchido com a pasta de madeira poderia amplificar o tremor em caso de terremoto, algo sensível em uma região sísmica como a Califórnia. A própria prefeitura de San Rafael demonstrou reservas, com questionamentos sobre como conectar ruas, edifícios e trilhos depois de elevar o terreno, e sobre o uso de engenharia assistida por inteligência artificial. Trip Allen chegou a atribuir a resistência a um certo ceticismo com soluções locais, mas a discussão sobre riscos e viabilidade segue aberta.

Do quintal alagado ao sonho de terraformar a Terra

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A motivação dos fundadores é pessoal. Trip Allen conta que via o próprio quintal alagar em San Rafael, onde mora há mais de duas décadas, e que a sensação de poder perder a cidade natal foi o que empurrou a família a agir. Laurence, que trabalhou na SpaceX antes de tocar a Terranova, diz achar curioso o tanto que se fala em terraformar Marte enquanto cidades inteiras se afogam na Terra sem que se faça muita coisa a respeito.

Para eles, os robôs que erguem o solo são apenas um primeiro passo rumo a algo maior: a ideia de remodelar o terreno em larga escala para tornar áreas costeiras habitáveis no longo prazo. É uma ambição que mistura engenharia pesada, ciência do solo e um discurso de resiliência climática, com o detalhe simbólico de ser tocada por pai e filho lado a lado.

A aposta da Terranova levanta uma pergunta interessante: diante de cidades que afundam, faz mais sentido gastar quase um bilhão de dólares em muros ou confiar em robôs que erguem o chão com madeira por uma fração do preço?

Conte nos comentários se você toparia ver a sua cidade sendo elevada dessa forma ou se ainda confia mais nas soluções tradicionais de contenção.

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Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

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