Dono de uma coleção avaliada em US$ 13 milhões, Mark McCann pagou caro por um Bugatti Veyron que chegou desmontado e com a caixa de câmbio arruinada. O problema é que esse supercarro usa um câmbio hidráulico selado, e o conserto pode exigir uma bancada de teste que sozinha passa de US$ 600 mil.
Comprar um dos carros mais caros e raros do mundo deveria ser o ápice de uma coleção, mas para o britânico Mark McCann virou o começo de um problema de engenharia que poucos mecânicos no planeta sabem resolver. Ao longo do primeiro semestre de 2026, o YouTuber assumiu a missão de devolver à vida um Bugatti Veyron que comprou por quase US$ 1,2 milhão, o equivalente a cerca de £ 900 mil, e que chegou às suas mãos em pedaços.
Em maio de 2026, ficou claro que o pior não era a lataria amassada nem o interior estragado. Era a caixa de câmbio. O que parecia um conserto caro porém comum se revelou um quebra-cabeça técnico que a própria fabricante se recusa a resolver, deixando o dono do supercarro diante de orçamentos que beiram o absurdo só para colocar o câmbio de volta para funcionar.
Um Bugatti Veyron que chegou em pedaços

O carro pertenceu a um príncipe do Oriente Médio e passou por uma conversão de estilo que custou cerca de US$ 440 mil, transformando o supercarro original em uma versão personalizada. Quando Mark McCann fechou a compra, porém, o que recebeu não foi um carro pronto para rodar, e sim uma coleção de caixas e componentes espalhados por duas garagens diferentes, onde o Veyron tinha ficado desmontado por anos sem nunca ser remontado.
-
Tá pensando em comprar um HB20 usado? Veja por que o modelo 2015 ainda é queridinho do povão, tem peça barata, mecânico que resolve fácil, motor forte e vende rápido
-
Suzuki Fronx surge como o “SUV cupê compacto” que o Brasil não tem: na faixa dos R$ 37 mil na conversão sem impostos, modelo tem versão híbrida, motor 1.0 turbo, visual arrojado e preço de carro popular na Índia
-
Nem todo carro com bateria é elétrico de verdade, alguns híbridos nunca andam só na elétrica e ,desde 2025, a ABVE parou de contar o híbrido leve como eletrificado, e essas diferenças mudam tudo na hora de comprar
-
Peugeot 408 Griffe 2015 combina motor turbo, 0 a 100 km/h em 8,3 segundos, porta-malas de 526 litros maior que muito SUV compacto, couro, multimídia, piloto automático e teto solar, mas continua fora do radar entre usados completos
A lista de problemas é longa. Faltam peças, os painéis de alumínio da carroceria estão danificados e o interior se deteriorou com o tempo parado. Para piorar, parte do que parecia fibra de carbono na conversão era, na verdade, um adesivo de vinil de baixa qualidade imitando o material, o que aumenta o custo e a complexidade da restauração. Para quem não conhece o personagem, vale o contexto: Mark McCann é um colecionador britânico cujo acervo de carros é avaliado em torno de US$ 13 milhões, então ele sabia que estava entrando numa empreitada cara. O tamanho do conserto, mesmo assim, surpreendeu.
O verdadeiro pesadelo está na caixa de câmbio
De todos os defeitos, a caixa de câmbio é o que transforma esse projeto em pesadelo. Os especialistas que abriram o conjunto encontraram sinais de corrosão galvânica dentro da carcaça, um processo que acontece quando peças de aço e alumínio ficam em contato e sofrem com contaminação, neste caso resíduo deixado por um reparo anterior malfeito. O resultado é uma caixa de câmbio comprometida por dentro, que não dá para simplesmente limpar e reinstalar.
A reação natural seria comprar uma peça nova e seguir em frente. Foi aí que Mark McCann esbarrou na parede. Segundo o próprio YouTuber, depois de semanas tentando contato, a Bugatti não quis nem informar um preço para uma nova caixa de câmbio. A marca trabalha apenas com a substituição do conjunto inteiro, lacrado de fábrica, e não oferece o reparo da peça danificada. Sem cooperação da fabricante, o dono do supercarro ficou sozinho diante de um dos câmbios mais complexos já colocados em um carro de rua.
Por que nem a Bugatti consegue simplesmente trocar a peça
Para entender o tamanho do desafio, Mark McCann recorreu a Rob Barnes, ex-engenheiro da Ricardo, a empresa britânica que projetou o câmbio do Veyron lá no começo do projeto. A explicação dele desmontou qualquer ilusão de conserto simples. A caixa de câmbio do Bugatti Veyron não é só um amontoado de engrenagens, é um sistema hidráulico sofisticado, com tolerâncias finíssimas e uma lógica de funcionamento que pouca gente domina fora da fábrica.
O ponto mais delicado é a embreagem. Toda embreagem nova passa por um processo de assentamento em que fibras de carbono se soltam da superfície. Numa linha de montagem, essas fibras são capturadas por filtros especiais montados em uma bancada de teste. Sem essa filtragem, as fibras entopem as válvulas hidráulicas, o fluxo do óleo de arrefecimento para, e a embreagem, nas palavras de Barnes, seria destruída pelo calor em menos de um minuto. Por isso o conserto não termina em montar a peça. Ele exige uma bancada capaz de assentar a embreagem com segurança, e os orçamentos para construir esse equipamento chegaram a US$ 666.577. Em outras palavras, só a ferramenta para testar o câmbio custa mais do que muitos supercarros novos.
A aposta de baixo custo contra o orçamento oficial
Diante de uma conta que pelos caminhos oficiais pode chegar a US$ 600 mil ou mais, considerando a troca completa do conjunto, Mark McCann passou a buscar uma saída alternativa para o conserto. A peça central desse plano é Pascal, um engenheiro holandês conhecido como The Dutchman, que trabalha com desenho em CAD e fabricação de componentes sob medida para tentar recuperar a caixa de câmbio sem depender da peça lacrada da Bugatti.
A diferença de valores ajuda a entender a aposta. De um lado, o caminho de fábrica, com a substituição do conjunto, empurra o orçamento para a casa das centenas de milhares de dólares. Do outro, a tentativa artesanal na oficina holandesa promete resolver o coração do problema por uma fração disso. Parte do trabalho mais delicado de restauração ainda foi confiada à Furlongers, uma oficina especialista com credenciais reconhecidas em Bugatti. O supercarro, portanto, vira também um teste sobre até onde o talento independente consegue ir onde a própria montadora se recusa a entrar.
A engenharia que torna o Veyron tão difícil de manter
O caso ilustra bem por que o Bugatti Veyron é, ao mesmo tempo, uma lenda da engenharia e um pesadelo de manutenção. O modelo nasceu para quebrar recordes com seu motor W16 quad-turbo, uma arquitetura de dezesseis cilindros que entrega mais de mil cavalos e exige sistemas auxiliares igualmente extremos. Cada solução criada para suportar essa potência, incluindo a caixa de câmbio hidráulica de dupla embreagem, foi pensada para desempenho máximo, não para reparo fácil em qualquer oficina.
É essa filosofia de projeto que cobra a fatura agora. Componentes selados, tolerâncias de fábrica e processos que dependem de equipamento dedicado fazem do conserto uma tarefa quase industrial. Não é coincidência que histórias parecidas se repitam com esse supercarro, de faróis que custam o preço de um carro popular a revisões que chegam a cifras de seis dígitos. Para Mark McCann, o aprendizado é caro: ser dono de um Bugatti Veyron significa, em muitos momentos, depender de um punhado de especialistas no mundo inteiro capazes de mexer no que a fábrica entregou lacrado.
E agora, qual o destino do supercarro?
No fim, o que torna essa saga fascinante não é só o dinheiro envolvido, mas o que ela revela sobre o limite entre engenharia de ponta e o direito de consertar o que é seu. Mark McCann comprou o supercarro sabendo do risco, e agora aposta que a criatividade de poucos engenheiros independentes pode vencer um sistema feito para só ser tocado pela fábrica. Se a caixa de câmbio voltar a funcionar fora do circuito oficial da Bugatti, o conserto vira um marco. Se não, será mais um Bugatti Veyron caríssimo parado por causa de uma única peça.
E você, no lugar de Mark McCann, apostaria suas fichas na oficina independente ou pagaria caro pela peça lacrada de fábrica para garantir o conserto do supercarro? Conta aqui nos comentários o que faria com um Bugatti Veyron desses nas mãos.


Seja o primeiro a reagir!