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Onde quase nunca chove, moradores penduraram redes gigantes nas montanhas do deserto e começaram a ‘pescar’ água potável da neblina: as telas chegam a coletar milhares de litros por dia direto do nevoeiro

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Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges Publicado em 10/07/2026 às 13:58 Atualizado em 10/07/2026 às 14:04
No Marrocos, redes gigantes no Monte Boutmezguida colhem até 37.400 litros por dia da neblina do deserto.
No Marrocos, redes gigantes no Monte Boutmezguida colhem até 37.400 litros por dia da neblina do deserto.
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No sudoeste do Marrocos, onde chove menos de 130 milímetros por ano, a ONG Dar Si Hmad e famílias de aldeias berberes penduraram redes gigantes no alto do Monte Boutmezguida e passaram a colher até 37.400 litros de água potável por dia a partir da neblina que sobe do oceano Atlântico. O sistema, montado ao longo dos anos 2010 e ampliado em 2018, é hoje apontado como um dos maiores captadores de nevoeiro do planeta, levando abastecimento encanado a cerca de mil moradores da região de Sidi Ifni que antes dependiam de poços cada vez mais secos.

O conjunto instalado na encosta reúne dezenas de painéis de malha que somam 1.700 metros quadrados, área equivalente a mais de três campos de futebol, e é capaz de produzir cerca de 37.400 litros num único dia de nevoeiro forte. Cada metro quadrado de tela chega a render entre 6 e 22 litros por dia, dependendo da estação, e o fornecimento garante em torno de 18 litros diários para cada habitante, mais que o dobro dos 8 litros a que as famílias tinham acesso antes. A tecnologia, batizada de CloudFisher, foi desenhada pelo engenheiro alemão Peter Trautwein, diretor da empresa Aqualonis. Reportagem da PBS NewsHour mostra que o projeto, dirigido pela antropóloga Jamila Bargach, cobre uma montanha varrida por névoa durante cerca de metade do ano, numa faixa que recebe apenas cinco polegadas de chuva, e transformou a rotina das mulheres que antes caminhavam horas para encher baldes.

A ideia parece nova, mas nasceu do outro lado do mundo, no deserto do Atacama, no Chile, tido como um dos lugares mais secos da Terra. Foi lá, na aldeia de El Tofo, que cientistas testaram no fim dos anos 1980 as primeiras grandes telas para capturar a bruma costeira que os chilenos chamam de camanchaca. A técnica, hoje conhecida como captação de neblina ou “fog harvesting”, se espalhou pelo Peru, pelo México e por outras regiões áridas, mas foi no Marrocos que ganhou a maior escala já vista, provando que é possível arrancar líquido potável do ar num lugar onde quase nunca chove. O que começou como experimento acadêmico virou uma linha de vida para comunidades inteiras, e a névoa, antes só um véu que encobria as montanhas, passou a ser tratada como uma safra.

O deserto onde a chuva quase nunca chega

Após a conclusão da instalação em Marrocos, a Aqualonis estima que o sistema produzirá aproximadamente 37.400 litros de água por dia de neblina.
Após a conclusão da instalação em Marrocos, a Aqualonis estima que o sistema produzirá aproximadamente 37.400 litros de água por dia de neblina.

Poucos lugares do mundo são tão hostis à vida como as encostas do Anti-Atlas, no sudoeste do Marrocos. A região de Sidi Ifni, onde fica o Monte Boutmezguida, recebe menos de 130 milímetros de chuva por ano, e o avanço da desertificação empurra as famílias para uma disputa diária por cada gota. Os poços que sustentavam as aldeias berberes vão secando temporada após temporada, e a seca crônica se soma às mudanças climáticas para tornar a água um bem raro e caro.

Nesse cenário, quem pagava a conta mais alta eram as mulheres e as meninas. Cabia a elas descer e subir trilhas de terra carregando garrafões, muitas vezes por horas, até encontrar um poço ainda com um pouco de líquido. O tempo perdido nessas caminhadas roubava as horas de estudo das meninas e o trabalho das mães, num ciclo que prendia comunidades inteiras à pobreza. Faltava recurso para beber, para cozinhar, para os animais e para a pequena horta.

O paradoxo é que, mesmo naquela terra árida, o ar da montanha não é totalmente seco. Durante boa parte do ano, uma névoa densa vinda do Atlântico, a cerca de 35 quilômetros dali, cobre o alto do Boutmezguida. Essa neblina carrega bilhões de gotículas minúsculas, leves demais para virar chuva, que simplesmente passam pela crista e se perdem no vento. A pergunta que moveu o projeto foi simples: e se fosse possível peneirar o nevoeiro e ficar com a umidade que ele transporta?

Como se ‘pesca’ água da neblina

No deserto do Atacama, no Chile, redes de malha fina capturam a camanchaca, a neblina costeira que virou fonte de água potável e inspirou os projetos do Marrocos. (Foto: FAO/Gabriel Marín)
No deserto do Atacama, no Chile, redes de malha fina capturam a camanchaca, a neblina costeira que virou fonte de água potável e inspirou os projetos do Marrocos. (Foto: FAO/Gabriel Marín)

O segredo está em grandes telas verticais de malha fina, parecidas com redes de vôlei ou com telões de propaganda, fincadas exatamente nas cristas por onde o nevoeiro costuma passar. Quando a neblina atravessa essas redes, as gotículas em suspensão se chocam contra os fios, se juntam e crescem até ficarem pesadas o bastante para escorrer. A gravidade faz o resto: o líquido desce por calhas na base das telas e segue por canos até tanques de armazenamento no pé da montanha.

No Marrocos, redes gigantes no Monte Boutmezguida colhem até 37.400 litros por dia da neblina do deserto.
No Marrocos, redes gigantes no Monte Boutmezguida colhem até 37.400 litros por dia da neblina do deserto.

As primeiras versões usavam a chamada malha Raschel, um tecido plástico barato também empregado em sombrites de plantação. No Marrocos, a evolução veio com os captadores CloudFisher, projetados para resistir a ventos fortes que rasgavam as telas antigas. Cada painel funciona como uma peneira de nevoeiro: quanto mais densa a bruma e mais constante o vento, mais litros a tela consegue arrancar do ar. Depois de coletada, a umidade passa por filtragem e mineralização antes de chegar às torneiras, o que a torna própria para o consumo.

O que impressiona é a simplicidade. Não há bombas caras nem energia elétrica no coração do sistema, já que a própria gravidade conduz o recurso montanha abaixo. Os captadores de neblina não dependem de rios, de chuva nem de lençóis subterrâneos, apenas do encontro entre a umidade do oceano e o frio das montanhas. É uma engenharia de baixo custo que resolve um problema que perfurações de poços profundos nem sempre conseguem enfrentar.

As mulheres que perdiam horas todo dia buscando água

À frente do projeto está a antropóloga marroquina Jamila Bargach, que dirige a ONG Dar Si Hmad. Foi ela quem ajudou a convencer as aldeias, num primeiro momento desconfiadas, de que aquelas telas estranhas no topo da montanha realmente trariam abastecimento para dentro de casa. “Ter água transformou radicalmente a vida das mulheres, que antes caminhavam horas para conseguir o líquido”, resume a diretora ao explicar o alcance social do projeto.

O impacto foi mais fundo do que o número de litros sugere. Com o fornecimento chegando por canos até as casas, as meninas voltaram a frequentar a escola com regularidade, e as mães ganharam tempo para outras tarefas. A neblina, transformada em fio corrente nas torneiras, devolveu horas de vida a cada família. Em várias aldeias, moradores relatam ter recuperado boa parte do dia útil que antes se esvaía nas idas e vindas ao poço.

Dar Si Hmad não parou na engenharia. A organização criou uma espécie de “escola da água” para ensinar as comunidades a cuidar das telas e a administrar o consumo, e passou a treinar moradores locais para a manutenção dos captadores. A ideia é que a tecnologia não dependa de técnicos de fora e que as próprias aldeias sejam donas do sistema. Assim, o nevoeiro virou não só fonte de bebida, mas também de autonomia.

Do Monte Boutmezguida às torneiras das aldeias

Captadores de neblina numa encosta árida do Atacama, um dos lugares mais secos da Terra, onde a técnica de 'pescar' água do nevoeiro foi testada em grande escala. (Foto: Nick Lavars/New Atlas)
Captadores de neblina numa encosta árida do Atacama, um dos lugares mais secos da Terra, onde a técnica de ‘pescar’ água do nevoeiro foi testada em grande escala. (Foto: Nick Lavars/New Atlas)

Na prática, o sistema marroquino é hoje um dos maiores captadores de neblina do mundo. São dezenas de painéis somando 1.700 metros quadrados de malha fincados no alto do Monte Boutmezguida, a mais de 1.200 metros de altitude, de onde o fornecimento desce por mais de dez quilômetros de tubulação até as aldeias. Em um bom dia de nevoeiro, o conjunto pode render os tais 37.400 litros que colocaram o projeto no mapa mundial da inovação.

Esse volume abastece em torno de mil pessoas espalhadas por várias aldeias da região de Sidi Ifni. Cada morador passou a contar com cerca de 18 litros de água por dia, quantidade que parece modesta para os padrões urbanos, mas que representa mais que o dobro do que essas famílias tinham antes. Naquela região árida, a diferença entre 8 e 18 litros diários é a distância entre apenas sobreviver e viver com um mínimo de dignidade.

O custo, embora não seja desprezível, é baixo diante da alternativa. Cada unidade do coletor CloudFisher sai por volta de 10,9 mil euros e, uma vez instaladas, as telas exigem pouca manutenção e nenhuma conta de energia. Para comunidades que estavam prestes a abandonar suas terras por falta de recursos, os captadores de neblina se tornaram um motivo concreto para ficar em vez de migrar para as cidades.

Do Atacama ao Marrocos: a técnica que cruzou o mundo

Muito antes das telas marroquinas, o deserto do Atacama já havia mostrado o caminho. Naquele trecho do Chile, onde em alguns pontos nunca se registrou chuva, a bruma costeira conhecida como camanchaca sobe do Pacífico e cobre os morros quase diariamente. No fim dos anos 1980, na localidade de El Tofo, cientistas montaram um dos primeiros grandes sistemas de captação de neblina do planeta, provando que a névoa do deserto podia virar bebida potável em escala de aldeia.

A partir do Chile, a técnica ganhou o mundo. Grupos como a organização canadense FogQuest passaram a levar as redes para regiões áridas de vários continentes. Nas colinas ao redor de Lima, no Peru, moradores usam as mesmas malhas para irrigar hortas e reflorestar encostas com a umidade capturada. No Atacama chileno, comunidades de pescadores chegaram a cultivar alface, morango e babosa abastecidos apenas pelo nevoeiro que passa pelas telas.

Quem quiser conhecer os detalhes do maior desses projetos pode visitar o site da própria Dar Si Hmad, que reúne dados e histórias das aldeias atendidas no Marrocos. O que todos esses casos têm em comum é a mesma lição: em muitos desertos, o recurso não falta por completo, ele apenas está no ar, à espera de alguém que saiba peneirá-lo. Do Atacama ao Anti-Atlas, os captadores de neblina viraram sinônimo de esperança em lugares onde a chuva desistiu de cair.

Quanto rende cada tela e o que ainda pode falhar

O rendimento das redes varia muito: num dia de bruma espessa e vento constante, cada metro quadrado pode entregar mais de vinte litros; num dia seco, quase nada. É por isso que os projetos mais sérios medem o volume de neblina antes de instalar as telas, escolhendo com cuidado as cristas onde o nevoeiro é mais fiel. A localização exata é tudo nesse jogo travado na montanha.

Há ainda a ameaça de longo prazo. As mudanças climáticas podem reduzir a frequência da neblina, alterar o tamanho das gotículas ou empurrar a camada de névoa para cima, acima do alcance das telas. Ventos muito fortes rasgam as malhas mais frágeis, e foi justamente para enfrentar esse problema que os captadores CloudFisher foram reforçados. A técnica é simples, mas não é imune ao clima que ela ajuda a driblar.

Mesmo com essas limitações, o balanço é amplamente positivo. Comparados a caminhões-pipa, dessalinizadoras ou poços profundos, os captadores de neblina são baratos, limpos e fáceis de manter. Não emitem carbono, não esgotam aquíferos e podem ser operados pela própria comunidade. Para aldeias isoladas no meio do deserto, poucas soluções oferecem tanto por tão pouco quanto essas telas de malha fina.

Uma tecnologia simples para um problema gigante

O caso marroquino chama atenção porque acontece num momento em que a escassez de água ameaça bilhões de pessoas em todos os continentes. Enquanto grandes cidades investem em obras caríssimas de dessalinização, aldeias no topo de uma montanha do deserto encontraram na neblina uma resposta quase artesanal. As redes de malha fina não vão resolver a crise hídrica do mundo sozinhas, mas mostram que existe umidade aproveitável onde ninguém pensava em procurar.

Talvez o mais poderoso nessa história seja o simbolismo. Ver mulheres berberes subindo a montanha não mais para carregar baldes, mas para cuidar das telas que trazem o líquido para casa, é ver uma inversão de destino. A mesma neblina que por séculos foi apenas um incômodo úmido virou o motor de uma pequena revolução silenciosa. E o que antes era um deserto quase intransponível hoje tem torneiras que correm.

Se um punhado de redes penduradas numa montanha pode arrancar 37.400 litros por dia do nada aparente do ar, quantos outros desertos do planeta estarão, neste exato momento, cobertos por uma neblina que ninguém ainda pensou em pescar?

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Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

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