Após o anúncio político e os discursos nostálgicos, o encouraçado da classe Trump esbarra na realidade da Marinha dos EUA: navios de guerra hoje enfrentam salvas de mísseis, custariam cerca de 10 bilhões e ofereceriam menos células de lançamento vertical que um Arley Burke, com menor flexibilidade no combate moderno.
O encouraçado da classe Trump entrou no debate após declarações do presidente Trump em frente a almirantes de três e quatro estrelas, defendendo um retorno aos navios de guerra, com aço maciço e canhões, e criticando o uso de alumínio. O impulso nostálgico citou imagens antigas, Victory at Sea e o fascínio pelos navios do passado.
Na avaliação técnica discutida por Trent Hone, fuzileiro naval e presidente da Foundation University Corps Studies Strategic no Corpo de Fuzileiros Navais University em Quanico, Virgínia, o problema central não é nostalgia, mas a incompatibilidade entre navios de guerra e o ambiente de engajamento atual, marcado por aeronaves, submarinos modernos e salvas de mísseis.
O anúncio político e a promessa do encouraçado da classe Trump

A ideia do encouraçado da classe Trump foi tratada inicialmente como um momento típico de discurso, mas ganhou contornos mais concretos quando apareceu um anúncio de um navio de guerra de classe encouraçada associado a Mara Lago.
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A proposta resgatou a imagem de navios de guerra como símbolo de poder nacional e naval.
Esse simbolismo é parte do apelo.
Trent Hone relaciona a tradição ao imaginário de Theodore Roosevelt e da Great White Fleet, quando a Marinha dos EUA buscava afirmar interesses e, ao mesmo tempo, treinar e experimentar táticas de frota moderna com navios de guerra integrados a outros meios.
O que navios de guerra representavam no auge e por que o cenário mudou

No auge, navios de guerra não eram peças isoladas.
Eles funcionavam dentro de uma frota equilibrada, com cruzadores de batalha, cruzadores de reconhecimento, contratorpedeiros e unidades menores, todas voltadas a localizar o inimigo, proteger a formação, negar reconhecimento adversário e criar as condições para o engajamento.
A base desse sistema era coerência entre reconhecimento, triagem, detecção e alcance de engajamento.
Essa coerência foi corroída com a introdução de eletrônicos mais sofisticados, sistemas de comunicação mais sofisticados, satélites, aeronaves e armamento submarino mais capaz, incluindo submarinos nucleares modernos e submarinos de ataque nuclear.
Yamato como marco e a virada para o alcance da aviação

Trent Hone usa o navio de guerra japonês Yamato como demarcação histórica.
O Yamato, descrito como o maior e mais poderoso navio de guerra bem construído, foi enviado em uma missão de alto risco ligada à tentativa de interromper a invasão anfíbia de Okinawa, com a intenção de encalhar e atuar como bateria costeira.
Ele foi avistado e atacado por aeronaves da Marinha dos EUA, da força-tarefa de porta-aviões rápidos, força-tarefa 58, e afundou após ataques concentrados de torpedo em um lado, dentro de horas.
A tática incorporou aprendizados do afundamento do navio irmão Musashi, em outubro de 1944, na batalha do Golfo de Lee.
O ponto técnico é o alcance. Trent Hone destaca que o máximo alcance de um combate entre navios de guerra fica em 13 milhas náuticas.
Além do Yamato, Trent Hone cita exemplos clássicos de navios de guerra em confronto direto, como a Batalha da Jutlândia e o HMS Hood, tratado como invulnerável pela Marinha Real até ser destruído, reforçando como certezas técnicas mudam com o tempo.
Quando aeronaves passam a operar com potencial de destruir ou degradar um navio e a atuar em distâncias muito maiores, a lógica da frota muda, e o eixo deixa de ser o canhão.
Da década de 1930 às batalhas de porta-aviões, a perda de relevância do canhão
A transição não foi um corte limpo, e Trent Hone descreve o processo como confuso.
A partir dos anos 1920 e, de forma mais clara, na década de 1930, o desempenho da aeronave cresce e empurra marinhas como a Marinha Real, a Marinha dos EUA e a Marinha Imperial Japonesa a gravitar em direção ao potencial da aviação.
A comparação de envelope é direta: não 13 milhas, mas 130 milhas. Isso altera táticas.
A Marinha dos EUA passa a pensar em atingir o inimigo com tudo de uma vez, combinando disparo naval, ataques de aeronaves de porta-aviões e torpedos de destróieres para maximizar efeito cumulativo e colocar o adversário em desordem.
O resultado aparece em batalhas como Mar de Coral, Midway e Mar das Filipinas, em que a batalha entre porta-aviões domina e um lado pode recusar combate de superfície se a missão já estiver cumprida ou se o poder de ataque tiver sido degradado.
O uso pós-guerra: visibilidade política e apoio de fogo em terra
Navios de guerra não desapareceram imediatamente.
A Marinha dos EUA tentou manter navios de guerra em serviço após a Segunda Guerra Mundial, mas enfrentou um fato operacional: navios de guerra exigem muita manutenção e muita gente para operar, com esforço manual intenso para manter canhões e a fábrica de engenharia de navios a vapor.
Nos anos 80 e 90, a volta dos navios de guerra da classe Iowa aparece associada à visibilidade política.
Trent Hone descreve que um navio de guerra em alto-mar é um pedaço dos Estados Unidos, expressando compromisso, especialmente no contexto da Guerra Fria.
Do ponto de vista de missão, navios de guerra se tornaram sobretudo plataformas de apoio de fogo em terra. O padrão citado inclui Coreia, Vietnã e Guerra do Golfo, com uso de canhões de 16 polegadas para atingir alvos em terra.
Mesmo com despesas de tripulação, um projétil de 16 polegadas é descrito como muito mais barato do que um Tomahawk.
O cálculo que derruba o encouraçado da classe Trump: mísseis e células de lançamento vertical
O argumento moderno gira em torno de salvas de mísseis e volume de lançamento. Trent Hone propõe uma métrica simples: quantas células de lançamento vertical um navio carrega.
Nesse recorte, o encouraçado da classe Trump seria um navio de guerra de cerca de 35.000 toneladas, mas os destróieres Arley Burke, com cerca de 10.000 toneladas, oferecem mais poder de fogo ofensivo em número de células de lançamento vertical.
A comparação operacional é ainda mais dura. Três Arley Burke podem ser distribuídos em formações diferentes, em partes diferentes do mundo, ou dispersos em um mesmo teatro, aumentando distribuição, resiliência e a capacidade de concentrar poder de fogo no espaço e no tempo.
Um único encouraçado da classe Trump, mesmo com discurso de aço e canhão, fica preso a um ponto e expõe mais risco de concentração.
O custo reforça a barreira. O número citado para o encouraçado da classe Trump é 10 bilhões, aproximando-se do custo de um porta-aviões Ford.
Nesse patamar, a Marinha dos EUA precisaria justificar por que investir em um navio de guerra com menos células de lançamento vertical do que alternativas já no inventário.
Por que a Marinha dos EUA não vai construir o encouraçado da classe Trump
O verdadeiro motivo não é apenas político, é estrutural.
Em um conflito entre pares, a discussão citada aponta para letalidade distribuída e para a necessidade de mais plataformas menores, dentro de certos limites, para ganhar flexibilidade e resiliência.
A proposta do encouraçado da classe Trump é grande, não tão grande quanto um porta-aviões, mas com menos flexibilidade e, numericamente, menos poder ofensivo do que opções já existentes.
O raciocínio de risco também pesa. Se alguém atingir um porta-aviões, o impacto é enorme por causa de milhares de pessoas e do pequeno número em estoque.
Se alguém atinge navios menores, como destróieres, há mais flexibilidade de resposta política e operacional, como lembrado em referências ao Cole e ao Stark. Um navio de guerra único adiciona vulnerabilidade política e militar por concentrar capacidades em uma única plataforma.
O efeito colateral útil: a conversa sobre construção naval e força de trabalho
Apesar de improvável, o encouraçado da classe Trump é descrito como gatilho de debate.
Trent Hone considera que, se a proposta servir para ganhar entusiasmo entre representantes do povo e aumentar investimento na Marinha dos EUA, o resultado pode ser positivo, desde que o dinheiro vá para navios melhor alinhados com a forma de combater e aplicar política nacional na era moderna.
A conversa citada inclui um dado direto de necessidade industrial: 250.000 trabalhadores de estaleiros nos próximos cinco anos.
Nesse enquadramento, o encouraçado da classe Trump funciona como proposta de papel que chama atenção, enquanto a entrega prática seria construir mais navios, mais marinheiros e uma estrutura de força mais conectada ao cenário atual de mísseis.
O encouraçado da classe Trump foi anunciado com apelo de memória, Victory at Sea e a imagem de navios de guerra invulneráveis. A análise discutida por Trent Hone aponta o oposto: alcance limitado de canhões, transformação do combate pela aviação, e um presente definido por salvas de mísseis, detecção e submarinos, onde células de lançamento vertical e distribuição valem mais do que massa e aço.
Na planilha de capacidade, Arley Burke vence por número, dispersão e resiliência, e a Marinha dos EUA tende a priorizar mais plataformas e mais células de lançamento vertical, em vez de concentrar recursos em um navio de guerra único, caro e politicamente sensível. Se o debate ajudar a destravar investimento e mão de obra em estaleiros, o tema terá cumprido um papel mesmo sem sair do discurso.
O que pesa mais contra o encouraçado da classe Trump: custo de 10 bilhões, vulnerabilidade a salvas de mísseis ou menor número de células de lançamento vertical que Arley Burke?


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