Em uma paisagem vulcânica esculpida pela erosão, as cidades subterrâneas se somam às chaminés de fadas e aos santuários rupestres que preservam vestígios humanos desde o século IV.
As cidades subterrâneas de Göreme, na Capadócia, não são apenas uma curiosidade turística. Elas fazem parte de um conjunto raro de habitações escavadas na rocha que revela como comunidades humanas se adaptaram a um território extremo, moldado por erosão e por uma geografia vulcânica que criou vales, pináculos e formações conhecidas como chaminés de fadas.
Nesse cenário, as cidades subterrâneas convivem com aldeias trogloditas, conventos, igrejas rupestres e santuários decorados, compondo um dos complexos de habitações em cavernas mais extensos e impressionantes do mundo, com registros de ocupação que remontam ao século IV.
Onde fica Göreme e por que a paisagem é tão diferente
O Parque Nacional de Göreme e os Sítios Rupestres da Capadócia ficam no planalto da Anatólia Central, em uma paisagem vulcânica esculpida pela erosão. O conjunto abrange a região entre as cidades de Nevşehir, Ürgüp e Avanos, além de sítios como Karain, Karlık, Yeşilöz e Soğanlı.
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O relevo é marcado por cordilheiras, vales e pináculos que ganharam o apelido de chaminés de fadas, resultado de processos erosivos atuando sobre rochas vulcânicas. É essa “arquitetura natural” que permitiu que o ser humano criasse arquitetura pela remoção de material, escavando a rocha em vez de construir com tijolos.
Por que as cidades subterrâneas viraram parte da sobrevivência
As cidades subterrâneas aparecem como resposta a um problema histórico muito concreto: segurança. A descrição do sítio aponta que os primeiros indícios de atividade monástica na Capadócia datam do século IV, quando comunidades de eremitas, seguindo os ensinamentos de Basílio, o Grande, bispo de Kayseri, passaram a habitar celas escavadas na rocha.
Em períodos posteriores, diante de invasões árabes, essas comunidades começaram a se unir em aldeias trogloditas ou em cidades subterrâneas que serviam como refúgio, como Kaymaklı e Derinkuyu. A lógica era simples e poderosa: esconder-se dentro do próprio terreno, aproveitando a rocha como abrigo e proteção.
Igrejas escavadas na rocha e a arte bizantina preservada
Além das cidades subterrâneas, Göreme se destaca pela densidade de santuários e igrejas rupestres. O sítio oferece evidências únicas da arte bizantina no período pós-iconoclasta, com destaque para a decoração de muitos santuários.
O monasticismo capadócio já estava bem estabelecido no período iconoclasta, entre 725 e 842, quando muitos espaços mantinham um mínimo estrito de símbolos, frequentemente cruzes esculpidas ou pintadas. Após 842, porém, muitas igrejas rupestres foram escavadas e ricamente decoradas com pinturas figurativas de cores vivas.
No Vale de Göreme, a base cita igrejas como Tokalı Kilise e El Nazar Kilise, do século X, Santa Bárbara Kilise e Saklı Kilise, do século XI, e Elmalı Kilise e Karanlık Kilise, do final do século XII ao início do século XIII. É um recorte artístico que transforma a rocha em arquivo vivo de um período histórico.
Um habitat humano “fossilizado” desde o século IV
O conjunto de habitações rupestres, aldeias trogloditas, conventos, igrejas e cidades subterrâneas preserva a imagem “fossilizada” de uma província do Império Bizantino entre o século IV e a chegada dos turcos seljúcidas, em 1071.
Essa continuidade ajuda a explicar por que a Capadócia é vista como um exemplo notável de assentamento humano tradicional.
As cidades subterrâneas não surgem isoladas, elas se encaixam em um modo de vida inteiro, que combina moradia, refúgio, culto e organização comunitária dentro das formações rochosas.
Por que o lugar é considerado Patrimônio Mundial
O Parque Nacional de Göreme e os Sítios Rupestres da Capadócia são reconhecidos como Patrimônio Mundial por reunir, ao mesmo tempo, valores culturais e naturais.
A descrição destaca a qualidade e densidade dos santuários rupestres como uma conquista artística única, além do testemunho essencial de uma civilização que desapareceu.
Também pesa o aspecto natural: em uma paisagem que demonstra de forma dramática as forças erosivas, Göreme e seus arredores oferecem uma exibição reconhecida de formações rochosas e características erosivas de grande beleza, em interação com os elementos culturais da paisagem.
O que ameaça as cidades subterrâneas e os sítios rupestres

A base chama atenção para um ponto delicado: o mesmo processo erosivo que criou as chaminés de fadas continua atuando, e isso significa que os valores naturais e culturais podem ficar ameaçados se o uso do território não for sustentável.
Há relatos de uso excessivo por turistas, vandalismo e introdução de estruturas incompatíveis com o local. Alguns cones e pilares sofreram danos devido a terremotos, o que é considerado um fenômeno natural.
O risco maior, porém, recai sobre os elementos culturais que podem ser irrecuperáveis se forem comprometidos por erosão e processos naturais, somados à pressão do turismo de massa e do desenvolvimento.
Nesse contexto, as cidades subterrâneas fazem parte de um equilíbrio frágil: são resistentes por estarem “dentro” da rocha, mas integram um sistema patrimonial que depende de conservação e gestão cuidadosas.
Proteção legal e gestão do território em Göreme
O sítio está sujeito à proteção legal na Turquia, com base em leis de proteção de recursos culturais e naturais e na lei de parques nacionais.
A gestão e o monitoramento são responsabilidade de administrações governamentais nacionais e regionais, com conselhos regionais de conservação envolvidos no registro e aprovação de obras de restauração.
A base também menciona que o plano de uso e conservação do solo existente, originalmente de 1981, passou por revisão e atualização com estudos concluídos em 2003.
Entre as decisões, está o controle rigoroso do crescimento físico de cidades localizadas nos sítios de conservação, além de limites de capacidade para empreendimentos hoteleiros. A ideia é reduzir o impacto do turismo sem eliminar o acesso, porque o acesso existe e é parte do desafio.
Por que o vale de Göreme parece um labirinto
O “labirinto” da Capadócia nasce do encontro entre natureza e intervenção humana. De um lado, a erosão esculpiu vales, cordilheiras e pináculos. De outro, comunidades transformaram a rocha em moradia, igreja, refúgio e passagem.
Quando o visitante vê chaminés de fadas, santuários escavados e cidades subterrâneas no mesmo território, a sensação é de um lugar que não foi montado para impressionar, mas que acabou impressionando porque carrega função, história e paisagem em camadas, como se o próprio vale guardasse séculos dentro de si.
Se você pudesse visitar Göreme, você entraria em cidades subterrâneas mesmo sabendo que são um labirinto escavado na rocha, ou preferiria ficar só nas igrejas e mirantes da paisagem?


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