As sanções dos Estados Unidos contra o setor de semicondutores da China produziram o efeito oposto ao pretendido: fabricantes chinesas de chips registraram receitas recordes em 2025, com crescimentos de até 247%, impulsionadas pela demanda de inteligência artificial e pela política governamental que obriga empresas locais a comprar tecnologia nacional.
A China não apenas sobreviveu às sanções americanas no setor de semicondutores como está lucrando com elas. Os números divulgados pelas principais fabricantes chinesas de chips mostram um cenário que contraria frontalmente a estratégia de Washington: a SMIC, maior fabricante de chips da China, atingiu receita de 9 bilhões de dólares em 2025, com analistas projetando mais de 11 bilhões para 2026. A Huaon registrou faturamento recorde. E a More Threads, considerada a principal concorrente da Nvidia dentro da China, reportou um crescimento de receita entre 231% e 247% em um único ano, segundo dados apresentados pela CNBC.
O que aconteceu é, em essência, um caso clássico de consequências não intencionais. As restrições impostas pelos Estados Unidos nos últimos anos isolaram o setor de chips da China do acesso a tecnologias essenciais, como as máquinas de litografia ultravioleta extrema da holandesa ASML. Mas em vez de sufocar a indústria, as sanções empurraram o governo chinês a adotar uma política agressiva de substituição de importações, orientando empresas locais a adquirir chips nacionais, mesmo que menos poderosos que os equivalentes da Nvidia e da AMD. O resultado são receitas recordes para fabricantes domésticas que ganharam um mercado cativo gigantesco, antes dominado por fornecedores americanos.
Por que as sanções dos Estados Unidos beneficiaram a China em vez de prejudicá-la
A lógica das sanções parecia sólida: cortar o acesso da China a tecnologias avançadas de semicondutores para impedir que o país avançasse em áreas como inteligência artificial e defesa. Na prática, o isolamento tecnológico forçou uma migração massiva da demanda chinesa para fornecedores domésticos. Empresas que antes compravam chips da Nvidia, AMD e outros fabricantes ocidentais foram orientadas pelo governo de Pequim a priorizar alternativas nacionais, criando uma base de clientes que não existia antes das restrições.
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Essa dinâmica funciona em duas frentes simultâneas. De um lado, a demanda por chips de inteligência artificial segue em alta globalmente, e a China não ficou de fora dessa corrida. De outro, setores industriais chineses como veículos elétricos, telecomunicações e eletrônicos de consumo absorvem volumes enormes de chips que fabricantes locais conseguem produzir, mesmo sem acesso às tecnologias mais avançadas. Para esses usos específicos, os chips chineses são suficientes, e as empresas locais estão capitalizando essa oportunidade com margens de lucro crescentes.
Os números que mostram o tamanho do boom na indústria de chips da China
Segundo o Canal TIMES BRASIL – LICENCIADO EXCLUSIVO CNBC, os resultados financeiros das fabricantes chinesas de semicondutores não deixam margem para interpretação otimista por parte de Washington. A SMIC, que opera as fábricas de chips mais avançadas da China, fechou 2025 com receita de 9 bilhões de dólares, um salto significativo em relação aos anos anteriores. Analistas do setor projetam que esse número ultrapasse 11 bilhões em 2026, consolidando a empresa como uma das maiores fundições de semicondutores do mundo em faturamento.
O crescimento da More Threads é ainda mais expressivo. Com aumento de receita entre 231% e 247%, a empresa se posiciona como a resposta chinesa à Nvidia no mercado de chips para inteligência artificial. A CXMT, fabricante de memória que prepara uma abertura de capital (IPO), registrou crescimento de receita de cerca de 130% em 2025, beneficiada pela escassez global de memória e pelos preços em alta. A Samsung também lucrou com essa tendência, mas o fato de que alternativas domésticas da China estão capturando fatia significativa do mercado interno é o que realmente preocupa os estrategistas americanos.
O papel da inteligência artificial e dos veículos elétricos no crescimento da China
A demanda por chips de inteligência artificial é o principal motor por trás das receitas recordes da indústria chinesa de semicondutores. Empresas de tecnologia na China estão investindo pesadamente em modelos de IA que, embora não utilizem os chips mais avançados do mundo, funcionam com processadores fabricados domesticamente.
Essa abordagem pragmática permite que a China avance na corrida da inteligência artificial mesmo sem acesso aos GPUs de última geração da Nvidia, cuja venda ao país foi restringida pelas sanções americanas.
Os veículos elétricos representam outro pilar fundamental. A China é o maior mercado de carros elétricos do planeta, e cada veículo utiliza centenas de chips para sistemas de controle, navegação, bateria e entretenimento.
Para esses componentes, a tecnologia de fabricação de 28 ou 14 nanômetros que a China domina é mais do que suficiente, e a demanda cresce a cada trimestre à medida que as vendas de elétricos se expandem. As sanções americanas, focadas em bloquear o acesso a tecnologias de 7 nanômetros ou abaixo, acabaram tendo pouco efeito sobre esse segmento massivo do mercado.
Quais desafios ainda restam para a indústria de chips da China
Apesar dos números impressionantes, a indústria chinesa de semicondutores não resolveu todos os seus problemas. O maior gargalo continua sendo o acesso a equipamentos de litografia ultravioleta extrema (EUV) da ASML, a empresa holandesa cujas máquinas são indispensáveis para fabricar os chips mais avançados do mundo, aqueles com transistores de 5 nanômetros ou menos.
A exportação dessas máquinas para a China está proibida, e sem elas, empresas como a SMIC e a Hua Hong não conseguem competir na faixa mais avançada do mercado.
Isso significa que, embora a China esteja faturando recordes com chips de gerações anteriores, há um teto tecnológico que as sanções efetivamente impõem. Para ultrapassá-lo, a China precisaria desenvolver sua própria alternativa às máquinas da ASML, um desafio de engenharia que especialistas consideram possível, mas que pode levar anos ou até décadas para ser concretizado.
Enquanto isso, as fabricantes chinesas maximizam o que conseguem produzir com a tecnologia disponível, e os resultados financeiros mostram que esse mercado intermediário é grande o suficiente para gerar bilhões em receita.
O que o boom de chips na China significa para a estratégia dos Estados Unidos
A ironia da situação não escapa aos analistas. As sanções que deveriam enfraquecer a indústria de semicondutores da China estão, na prática, acelerando a construção de uma cadeia de suprimentos doméstica que pode se tornar autossuficiente no médio prazo.
Os Estados Unidos conseguiram bloquear o acesso da China aos chips mais avançados, mas criaram um incentivo poderoso para que o país desenvolva sua própria base industrial, financiada agora por receitas recordes que tornam o investimento em pesquisa e desenvolvimento mais viável do que nunca.
Para Washington, o dilema é real. Afrouxar as sanções permitiria que empresas americanas como Nvidia e AMD vendessem para o mercado chinês, recuperando receita perdida, mas também daria à China acesso a tecnologias que poderiam ser usadas para fins militares.
Manter as sanções, por outro lado, continua alimentando o boom doméstico e empurrando a China em direção à autossuficiência, exatamente o cenário que os Estados Unidos queriam evitar. O tiro saiu pela culatra, e agora ambos os lados medem as consequências de uma guerra tecnológica que nenhum dos dois controla completamente.
As sanções americanas deveriam frear a China, mas as fabricantes chinesas de chips nunca faturaram tanto. Você acha que a estratégia de Washington falhou ou que os efeitos de longo prazo ainda justificam as restrições? Deixe sua opinião nos comentários.


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