Estudo da Universidade Cornell aponta que resíduos humanos e animais nos Estados Unidos concentram nutrientes agrícolas com valor estimado em US$ 5,7 bilhões, volume que poderia suprir 102% do nitrogênio e 50% do fósforo exigidos pela produção agrícola do país
Um estudo da Universidade Cornell aponta que os resíduos humanos e animais dos Estados Unidos concentram nutrientes agrícolas suficientes para substituir, em teoria, uma parcela expressiva dos fertilizantes sintéticos usados no país. Pelos preços atuais, esse volume inexplorado de resíduos representa um potencial econômico estimado em US$ 5,7 bilhões.
A pesquisa concluiu que esses dejetos poderiam fornecer 102% do nitrogênio e 50% do fósforo necessários para abastecer toda a indústria agrícola norte-americana. O resultado reforça a possibilidade de reduzir a dependência de insumos sintéticos, cuja produção exige alto consumo de energia e gera emissões de gases de efeito estufa.
A substituição parcial desses fertilizantes também pode ajudar a estabilizar cadeias de suprimentos afetadas por conflitos internacionais. Chuan Liao, autor correspondente do estudo e professor assistente, afirmou que o uso excessivo de fertilizantes sintéticos contribui para a poluição da água, enquanto sua fabricação é um processo intensivo em emissões.
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Ele também associou a vulnerabilidade do sistema atual à insegurança alimentar diante de tensões externas. Para o pesquisador, problemas recentes nas cadeias de suprimentos mostram como a dependência desse modelo pode ampliar riscos para a produção agrícola.
Geografia dos resíduos e dos nutrientes
Os resíduos humanos e animais são ricos nos três principais nutrientes exigidos pelas plantas para crescer: nitrogênio, fósforo e potássio. Apesar da abundância do recurso, o estudo identificou que o maior obstáculo está na distribuição geográfica entre os locais de geração e as áreas onde esses nutrientes são mais necessários.
A produção de resíduos se concentra em cidades densamente povoadas e em grandes centros de criação animal. Já a demanda agrícola está mais presente em regiões como o Centro-Oeste e as Grandes Planícies, o que cria um descompasso entre oferta e necessidade.
Liao afirmou que o problema central é de coordenação, e não de escassez de recursos. Na avaliação dele, mesmo com limitações do mundo real, ainda há uma quantidade substancial de nutrientes que pode ser redistribuída de forma economicamente viável para atender às lavouras.
Os maiores excedentes aparecem nos corredores urbanos densos do Nordeste e nos grandes polos pecuários do Oeste. Ao mesmo tempo, o Meio-Oeste, descrito como o celeiro do país, segue com forte déficit de nutrientes e depende de fertilizantes sintéticos caros, intensivos em energia e importados do exterior.
Para localizar essas desigualdades, o estudo utilizou mapeamento de alta resolução com foco em blocos de 10 quilômetros. Os resultados mostraram um retrato detalhado da distribuição dos nutrientes e das diferenças entre áreas com excesso e regiões com carência.
Desigualdade ambiental ligada aos resíduos
Os mapas produzidos pela pesquisa revelaram que a desigualdade nutricional acompanha, em muitos casos, os mapas sociais. Municípios socioeconomicamente desfavorecidos aparecem com frequência dentro desse cenário, acumulando uma sobrecarga ambiental em duas frentes.
Nas regiões com excesso, o vazamento de resíduos para cursos d’água locais favorece florações tóxicas. Nas áreas com deficiência, a dependência de produtos químicos sintéticos pode prejudicar a saúde do solo com o passar do tempo.
Liao avaliou que a desigualdade de nutrientes reflete, em grande medida, a desigualdade social. Para ele, corrigir o fluxo desses nutrientes pode abrir espaço para avanços em justiça ambiental.
Esse quadro amplia a relevância do reaproveitamento de resíduos para além do ganho econômico. A redistribuição mais equilibrada poderia reduzir danos locais causados pelo acúmulo de dejetos e, ao mesmo tempo, aliviar a dependência de insumos externos em áreas agrícolas estratégicas.
Solução descentralizada para recuperar resíduos
O estudo ressalta que os resíduos brutos não podem ser simplesmente aplicados nos campos. A presença de patógenos e o elevado teor de água impedem esse uso direto, exigindo processamento antes de qualquer aproveitamento agrícola.
Diante disso, especialistas defendem um sistema descentralizado. A proposta é que centros locais transformem os resíduos em grânulos secos concentrados ou em líquidos mais fáceis e baratos de transportar para fazendas próximas, em vez de mover grandes volumes líquidos por longas distâncias.
A pesquisa mostrou que essa abordagem localizada pode ser altamente eficiente. Quase 37% do nitrogênio e 46% do fósforo poderiam ser recuperados e usados praticamente no mesmo lugar onde são gerados.
Em relação ao excedente restante, a equipe verificou que mais da metade pode ser redistribuída para regiões vizinhas com impacto econômico ou ambiental mínimo. O resultado indica que a maior parte desses nutrientes presentes nos resíduos pode retornar ao solo sem exigir um sistema massivo de transporte a longa distância.
Potencial econômico e desafios de implementação
O estudo apresenta um plano estratégico para recuperar o valor hoje desperdiçado nos resíduos humanos e animais. A proposta oferece uma alternativa sustentável aos fertilizantes sintéticos e, ao mesmo tempo, pode fortalecer a segurança alimentar nacional.
A adoção desse modelo também reduziria os danos ambientais associados à fabricação convencional desses insumos. Ainda assim, os pesquisadores apontam que o êxito dessa transição depende menos de novas invenções tecnológicas e mais da criação de governança e infraestrutura capazes de integrar agricultura, resíduos e energia.
A tecnologia necessária para esse aproveitamento já existe, mas a coordenação entre setores ainda é o ponto decisivo. Os resultados da pesquisa foram publicados em 15 de abril na revista Nature Sustainability, consolidando os resíduos como um ativo agrícola de grande escala ainda pouco explorado.

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