Entregue à operadora belga DEME, o navio Norse Wind entrou em operação carregando um guindaste de 3.200 toneladas, peça monstruosa feita para erguer e fincar no fundo do mar turbinas eólicas com pás maiores do que um campo de futebol e bases que pesam tanto quanto um pequeno prédio.
Existe uma categoria de navio que quase ninguém vê, mas sem a qual a energia eólica no mar simplesmente não existiria. São as embarcações de instalação, máquinas flutuantes projetadas para uma única tarefa absurdamente difícil, plantar turbinas gigantes no meio do oceano. E o mais novo gigante dessa família é o Norse Wind, que acaba de entrar em serviço pela DEME.
O número que define o navio é o do seu braço de aço. O guindaste principal levanta 3.200 toneladas, capacidade que permite manusear turbinas com rotores que passam de 300 metros de diâmetro e fixá-las sobre fundações do tipo monopile que chegam a 3.000 toneladas cada. Para ter ideia, é como pegar uma estrutura do peso de centenas de carros e encaixá-la com precisão milimétrica num buraco no leito do mar, com o navio balançando.
Como se planta uma turbina no meio do oceano
O processo é uma das engenharias mais impressionantes que existem hoje, e quase ninguém presta atenção nele. O navio chega ao ponto, baixa pernas gigantes até o fundo e literalmente se ergue para fora da água, virando uma plataforma estável. A partir daí o guindaste entra em ação, fincando a base, montando a torre e encaixando as pás uma a uma, tudo a dezenas de metros de altura, com o vento e a maré jogando contra.
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Confesso que fico fascinado com a logística disso. Cada turbina moderna é do tamanho de um arranha-céu deitado, e o navio precisa transportar várias peças dessas de uma vez, do porto até o parque, e montá-las em sequência sem parar. Quanto maior o guindaste e mais estável a plataforma, mais turbinas o navio instala por viagem, e é aí que o Norse Wind faz a diferença.

A corrida das turbinas cada vez maiores
Tem uma lógica por trás desse gigantismo todo. Quanto maior a turbina, mais energia ela gera, e a indústria eólica vem numa escalada em que cada nova geração de equipamento supera a anterior em tamanho. O problema é que turbina gigante exige navio gigante para instalar, e os antigos simplesmente não dão conta das pás e fundações atuais. Por isso embarcações como o Norse Wind são tão estratégicas, elas destravam a próxima geração de parques no mar.
É um efeito dominó interessante. A pá cresce, então a fundação cresce, então o guindaste precisa crescer, então o navio inteiro precisa ser reprojetado. Cada salto de tamanho da turbina puxa um investimento bilionário numa frota nova de instalação, e poucas empresas no mundo têm fôlego para bancar essas máquinas.
A DEME é justamente uma dessas poucas. A empresa belga construiu nas últimas décadas uma reputação em obras marítimas complexas, da dragagem à instalação de parques no mar, e o Norse Wind é a sua aposta para a próxima onda de turbinas gigantes. Encomendar um navio desses é uma decisão de longo prazo, porque a embarcação custa centenas de milhões e só se paga ao longo de muitos anos de parques instalados. É o tipo de aposta que só faz sentido para quem acredita que a energia do vento no mar veio para ficar e crescer. E a fila de projetos eólicos na Europa parece dar razão a essa leitura, porque só o Mar do Norte concentra hoje uma corrida de parques espalhados por águas de vários países, num esforço coletivo para trocar combustível fóssil por vento que o continente inteiro acompanha de perto. Cada novo navio de instalação é, nesse sentido, um voto de confiança no futuro dessa indústria.

O mar que o Brasil ainda não explorou
É impossível olhar para isso e não pensar no nosso litoral. O Brasil tem uma das maiores costas do mundo e um potencial de vento no mar que especialistas descrevem como gigantesco, sobretudo no Nordeste e no Sul, e mesmo assim a energia eólica offshore por aqui ainda engatinha, presa em discussão regulatória enquanto a Europa enche o mar de turbinas.
Navios como o Norse Wind são exatamente o tipo de tecnologia que faria a diferença num futuro parque eólico brasileiro no mar. A gente vê a Europa montando essa indústria peça por peça, criando empregos, frota e conhecimento, enquanto o nosso vento de altíssima qualidade segue ali, soprando de graça sobre um oceano que ninguém ainda colheu. Estudos oficiais já mapearam um potencial eólico no mar brasileiro maior do que toda a capacidade elétrica hoje instalada no país, e mesmo assim nenhum parque saiu do papel até agora.

A máquina que torna o vento do mar possível
Fico imaginando o quanto da energia limpa que a Europa celebra depende, no fim das contas, de meia dúzia desses navios silenciosos que quase nunca aparecem nas manchetes. Sem eles, as turbinas gigantes seriam só projetos no papel. O Norse Wind é, nesse sentido, uma daquelas peças invisíveis que sustentam a transição energética inteira.
Ele entra em operação num momento em que o mundo aposta cada vez mais no vento do mar, e cada turbina que ele fincar vai gerar eletricidade por décadas. É um trabalho discreto, gigantesco e fundamental, o de transformar oceano vazio em usina.
Será que o Brasil vai finalmente colher o vento do seu mar, ou vamos assistir a Europa fazer isso por mais uma década?

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