O caso do navio iraniano Delruba, sancionado pelo Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC) dos EUA desde 2018, que atracou em outubro de 2025 no Terminal Portuário de Santa Catarina (TESC), em São Francisco do Sul, com 60 mil toneladas de ureia avaliadas em US$ 24,4 milhões, voltou ao centro do debate sobre a dependência brasileira de fertilizantes importados. Em maio de 2026, a ureia atingiu US$ 710 por tonelada nos portos brasileiros, alta de 50% em 30 dias, segundo o Itaú BBA Agribusiness, em cenário agravado por restrições de exportação de Rússia e China e pelos efeitos do bloqueio do Estreito de Ormuz.
O episódio do navio iraniano Delruba que atracou em Santa Catarina com 60 mil toneladas de ureia produzidas pela Pardis Petrochemical, estatal iraniana também sancionada pela OFAC, ganhou nova relevância em maio de 2026 porque o mercado global de fertilizantes entrou em crise aguda. A ureia, principal fertilizante nitrogenado usado no agronegócio brasileiro, disparou 50% em 30 dias e alcançou US$ 710 por tonelada nos portos do Brasil, segundo o Itaú BBA Agribusiness. O cenário expõe uma vulnerabilidade que a atracação do Delruba já sinalizava: o Brasil importa cerca de 85% dos fertilizantes que consome e depende de fornecedores como Rússia, China e Irã.
A crise não é abstrata: afeta diretamente o custo de plantar soja, milho e café no próximo semestre. A Rússia, que respondeu por 25,9% das importações brasileiras de produtos químicos em 2025, segundo o MDIC, suspendeu temporariamente exportações de nitrato de amônio. A China restringiu vendas de fertilizantes fosfatados, com até 40 milhões de toneladas sob bloqueio ou cotas rígidas, segundo a Reuters. E o Estreito de Ormuz, por onde transitam 20% do petróleo mundial e parcela significativa dos fertilizantes iranianos, esteve bloqueado entre 28 de fevereiro e 6 de maio de 2026, quando foi reaberto à navegação comercial pela Marinha da Guarda Revolucionária do Irã.
O que aconteceu com o navio Delruba em outubro de 2025

O Delruba atracou nos berços do TESC em São Francisco do Sul em 4 de outubro de 2025 e concluiu o desembarque em 8 de outubro. A carga de 60 mil toneladas de ureia granulada, avaliada em US$ 24,4 milhões (cerca de R$ 130,6 milhões na cotação da época), foi produzida pela Pardis Petrochemical, subsidiária da National Petrochemical Company, vinculada ao Ministério do Petróleo do Irã. Tanto o navio quanto a fabricante constam na lista de sanções da OFAC, segundo a Gazeta do Povo.
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A importação foi feita pela Link Comercial, empresa brasileira, com intermediação da Eastoil Petroleum Products LLC, sediada nos Emirados Árabes Unidos. Segundo fonte do complexo portuário sob anonimato, citada pelo Metrópoles, a operação foi autorizada pela Marinha do Brasil, Anvisa e Polícia Federal, com respaldo do Governo Federal, que informou não haver impedimento para atracação de embarcações de origem iraniana em portos brasileiros. O Governo do Estado de Santa Catarina confirmou a operação e os valores envolvidos, segundo a Gazeta do Povo.
O risco das sanções secundárias para o Brasil
A questão jurídica do caso Delruba vai além da atracação em si. A OFAC emitiu um alerta em emitiu um alerta em 1º de maio de 2026 que entidades que se relacionem com estatais iranianas sancionadas podem sofrer sanções secundárias, mecanismo que permite aos EUA punir empresas, bancos e até governos de terceiros países que façam negócios com alvos da lista. Na prática, isso significa que a Link Comercial, os bancos que processaram a transação e o próprio porto podem ser incluídos em listas restritivas americanas.
Para o Brasil, que depende do sistema financeiro internacional denominado em dólar, sanções secundárias representam risco operacional concreto. Bancos brasileiros que processem pagamentos de fertilizantes iranianos podem perder acesso ao sistema de compensação em dólar, cenário que nenhuma instituição financeira aceita voluntariamente. Esse é o dilema que o caso Delruba ilustra: o Brasil precisa da ureia iraniana para alimentar o agronegócio, mas comprá-la por canais sancionados pode custar mais caro do que o preço do fertilizante.
A disparada da ureia e o que está pressionando os preços

O preço da ureia nos portos brasileiros saltou de cerca de US$ 470 para US$ 710 por tonelada em 30 dias, alta de 50% que o Itaú BBA Agribusiness atribui à combinação de três fatores simultâneos. O primeiro é a tensão no Oriente Médio: o Irã é grande produtor de fertilizantes nitrogenados, e o bloqueio do Estreito de Ormuz entre fevereiro e maio interrompeu o fluxo de navios que transportam ureia e outros derivados do gás natural iraniano.
O segundo fator são as restrições de Rússia e China. A Rússia suspendeu temporariamente exportações de nitrato de amônio para priorizar o mercado interno, e os embarques estão previstos para retomada em maio. A China restringiu vendas de fertilizantes fosfatados com previsão de liberação apenas em agosto, segundo a Reuters. O terceiro fator é o frete: o desvio de rotas por conflitos no Mar Vermelho adicionava até 15 dias de viagem a cada embarque, encarecendo o custo final do produto que chega ao Brasil.
A dependência brasileira que a crise escancarou
Os números da dependência são conhecidos, mas a crise os torna urgentes. O Brasil importa cerca de 85% dos fertilizantes que consome, segundo o Plano Nacional de Fertilizantes (PNF). A Rússia foi responsável por 25,9% das importações brasileiras de produtos químicos em 2025, segundo dados do MDIC. A China é o terceiro maior fornecedor geral, e o Irã é o terceiro maior fornecedor específico de ureia. Marrocos, Egito e Argélia completam o quadro de dependência.
A senadora Tereza Cristina (PL-SP), ex-ministra da Agricultura e autora do PNF, alertou em entrevista à Gazeta do Povo: “Hoje estamos repetindo 2022 pior, com risco de alta de preços“. Notas técnicas do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) apontam “elevadíssimo risco” para o setor de fertilizantes, com ameaça de elevação de preços internos e até desabastecimento na safra que será plantada no segundo semestre de 2026. O PNF, lançado em 2022 com meta de reduzir a dependência externa para 45% a 50% até 2050, avançou de forma insuficiente nos primeiros anos.
O gás natural caro que impede o Brasil de produzir a própria ureia
A raiz da dependência brasileira de ureia importada está no custo do gás natural. No Brasil, o gás chega às fábricas de fertilizantes a até US$ 14 por milhão de BTU, enquanto nos EUA e na Rússia o mesmo insumo custa entre US$ 2 e US$ 4, segundo a Anda (Associação Nacional para Difusão de Adubos). Como o gás natural é a matéria-prima principal da ureia e de todos os fertilizantes nitrogenados, essa diferença de custo torna a produção nacional até quatro vezes mais cara que a importação em condições normais de mercado.

A Petrobras está tentando mudar essa equação. A estatal retomou a produção de ureia na Fafen-SE (dezembro/2025), Fafen-BA (janeiro/2026) e Ansa (abril/2026, com investimento de R$ 870 milhões e capacidade de 720 mil toneladas por ano), e retomou obras da UFN-III em Três Lagoas (MS) com previsão de operação em 2029. A meta combinada é alcançar 35% do mercado nacional de ureia após a UFN-III, reduzindo a dependência mas sem eliminá-la. A conexão com o gás do pré-sal é a aposta de longo prazo, mas o custo competitivo ainda depende de regulação e infraestrutura de transporte.
O que esperar da próxima safra e por que o caso Delruba importa
O caso Delruba importa porque ilustra o beco sem saída em que o Brasil se encontra. Sem produção interna suficiente de ureia, o país é obrigado a importar de fornecedores que operam em zonas de conflito ou sob sanções internacionais, aceitando riscos logísticos, diplomáticos e financeiros que em tempos normais seriam inaceitáveis. A atracação de um navio sancionado em porto brasileiro não é incidente isolado: é sintoma de uma política de fertilizantes que priorizou dependência externa por décadas.
Para a safra 2026/27, a ameaça é concreta. Os embarques russos estão previstos para retomada em maio, mas os chineses só devem voltar em agosto, período que coincide com o início do plantio de soja no Centro-Oeste. Se a ureia permanecer acima de US$ 700 por tonelada, o custo de produção agrícola sobe proporcionalmente, pressionando margens de produtores que já operam com rentabilidade apertada. A reabertura do Estreito de Ormuz em 6 de maio é alívio parcial, mas a crise estrutural permanece intacta.
Você acha que o Brasil deveria comprar ureia de navios sancionados para alimentar o agronegócio, ou deveria investir mais para produzir internamente mesmo que custe mais caro? Conte nos comentários se a dependência de 85% de fertilizantes importados te preocupa e o que pensa sobre a Petrobras voltar a fabricar ureia.

Petrobras investir todo seu lucro fábrica de fertilizantes construir novas Refinarias cada Estado ter no mínimo uma, continuar importando o produto até ficar pronto.
Eu acho que os EUA tem que parar de querer ser o dono do comércio mundial. Haja coragem de falar isso.
Eu acho que faltou mencionar na reportagem que o governo Bolsonaro “fechou” fabricas desses fertilizantes no Brasil, por isso esse embróglio todo.