O edifício Raízes, de 154 metros e R$ 500 milhões de investimento, nasce num solo ótimo para plantar e ruim para construir, e marca a virada dos fazendeiros de Mato Grosso que estão trocando as casas gigantes por apartamentos
Em meio a um mar de soja, brota um edifício de 42 andares no centro de Sinop, no interior do Mato Grosso: o Raízes, com mais de 150 metros de altura, sustentado por 50 metros de estacas no subsolo, projeto da incorporadora São Benedito, uma das mais reconhecidas do Centro-Oeste, segundo a Exame, em reportagem de janeiro de 2026. A comparação que dá a dimensão da obra: o Senna Tower, em Balneário Camboriú, que terá mais de 150 andares, tem fundação de 40 metros de profundidade, 10 a menos que o prédio mato-grossense.
Os números do canteiro parecem de usina: a construção, num terreno de 5 mil metros quadrados, prevê usar mais de 15 mil metros cúbicos de concreto e 350 mil quilos de aço, o que exige aproximadamente 1.900 caminhões de concreto e 13 carretas de aço, com a fundação sozinha orçada em mais de R$ 10 milhões, segundo a IstoÉ Dinheiro, que visitou a região. O motivo de tanta estaca é irônico: o solo de Sinop é ótimo para a soja e ruim para arranha-céu.
A cidade que não tem nem 50 anos e já quer ter skyline
Sinop é um fenômeno de velocidade. A cidade não tem nem 50 anos, o aeroporto tem menos de 20 e já ocupa a 2ª posição do estado em movimentação de passageiros, e o município está entre os 100 mais ricos do agronegócio brasileiro, segundo a Exame. “É uma cidade muito jovem, que está crescendo em um ritmo fora da curva. Antes, as pessoas dependiam de Cuiabá para serviços como faculdades e aeroporto, mas Sinop está se tornando um centro regional”, afirma Omar Maluf, CEO da incorporadora, na reportagem.
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A IstoÉ Dinheiro completa o retrato: quarta maior cidade de Mato Grosso, 216 mil habitantes, renda per capita acima de R$ 64 mil, e uma metragem construída que praticamente dobrou em cinco anos, de 538,3 mil metros quadrados em 2020 para mais de 1 milhão em 2024. Até o nome da cidade conta a história: Sinop é um acrônimo de Sociedade Imobiliária Noroeste do Paraná, herança da colonização sulista dos anos 1970.
O fazendeiro trocou a casa gigante pelo apartamento

A mudança cultural é o motor das vendas. Os fazendeiros da região estão começando a preferir apartamentos a casas grandes, em busca de conveniência, segurança e menos despesas com manutenção, e para atender a cultura local que valoriza espaço a incorporadora desenhou plantas com jeito de casa suspensa, incluindo varandas de 30 metros quadrados, com o menor apartamento do Raízes medindo 194 metros quadrados e o maior, 766, segundo a Exame.
O preço acompanha a ambição: o metro quadrado na planta é negociado a R$ 15 mil, valor próximo ao praticado em Balneário Camboriú e mais que o dobro da média de Cuiabá, com expectativa de que possa até dobrar depois da obra pronta, segundo a IstoÉ Dinheiro. O empreendimento de R$ 500 milhões terá 132 apartamentos e entrega prevista para agosto de 2029.
A família libanesa que começou vendendo televisores
Por trás do gigante existe uma saga de imigrante. A São Benedito nasceu em 1983, mas a história começa com a chegada do libanês Samir Maluf ao Brasil na década de 1950: ele foi o primeiro a vender televisores na região de Cuiabá, expandiu para materiais de construção e, depois de erguer alguns prédios, fundou a incorporadora hoje comandada pelos netos Omar e Amir Maluf, segundo a Exame.
O portfólio atual dá o tamanho do império: 1,5 milhão de metros quadrados construídos e entregues em mais de 55 empreendimentos verticais, que somam 5 mil moradias, crescimento de cerca de 50% nos últimos quatro anos e valor geral de vendas de R$ 2 bilhões no período, segundo a IstoÉ Dinheiro. A incorporadora faz parte de uma holding que abriga ainda negócios de energia solar, pecuária e 16 unidades de uma grande rede de academias, espalhadas de Manaus a Chapecó.
A estratégia que salvou a empresa: ser dona de 15% de tudo que constrói

O segredo financeiro da família é contraintuitivo. Desde a criação, a São Benedito compra 15% dos próprios empreendimentos, deixando apartamentos para locação como patrimônio, estratégia que segurou a empresa em crises como a da pandemia, segundo a Exame. “Cada prédio que a gente faz, deixamos nossos apartamentos ali para locar, para ser nosso patrimônio. E foi o que salvou a gente nos momentos de crise”, explica Amir Maluf na reportagem.
Enquanto muitas empresas quebraram, o respaldo patrimonial e o baixo endividamento garantiram crédito nos bancos e a entrega das obras mesmo com vendas fracas, registra a Exame. É o oposto do padrão do setor, de girar rápido e dever muito.
O “Texas brasileiro” e os irmãos que apostam tudo em Mato Grosso
A tese de investimento tem apelido. “Mato Grosso está sendo comparada como um Texas brasileiro, pelo franco crescimento e rápido crescimento atrelado ao agro”, avalia Amir Maluf à IstoÉ Dinheiro, citando ainda a mineração e o turismo dos três biomas do estado como vetores, que registra a expectativa da empresa de crescer 60% no faturamento em 2025 e a possibilidade de entrar em projetos comerciais, no Minha Casa, Minha Vida e em parcerias com hotéis.
Em Cuiabá, a incorporadora ergue outros dois espigões: o Baalbek, apresentado à IstoÉ Dinheiro como o futuro maior edifício residencial do Centro-Oeste, com 183 metros, 50 andares e uma piscina de 48 metros inspirada num famoso hotel de Cingapura, batizado em homenagem à cidade histórica do Líbano de onde veio o fundador, e o Harissa, com plantas que acomodam até 7 banheiros, de acordo com a IstoÉ Dinheiro.
O que o Raízes significa para Sinop
O prédio é tratado como um marco de virada. Pela magnitude das medidas, o Raízes é considerado o marco inicial da verticalização de Sinop, com a expectativa de que outras construtoras sigam o exemplo na cidade em franca expansão, segundo a Exame. A economia local, que nasceu da madeira e migrou para a soja nos anos 1990, hoje abriga a maior produtora de etanol de milho do país e atende cerca de meio milhão de pessoas na região, completa a IstoÉ Dinheiro.
Fica a observação desta redação, devidamente sinalizada: o Brasil se acostumou a medir a riqueza do agro em sacas e hectares, mas o termômetro mais visual está subindo em forma de concreto no meio do Nortão, andar por andar, num solo que até outro dia só conhecia raiz de soja.
Da lavoura ao 42º andar, a história do Raízes mostra que a fronteira agrícola brasileira agora também cresce para cima.
Conta pra gente nos comentários: você moraria num arranha-céu no meio da terra da soja, ou prédio desse tamanho só faz sentido no litoral?
