Estudo da Academia Nacional de Engenharia e do CIGRE-Brasil encaminhado à Aneel aponta que o país precisa contratar 35 GW adicionais de energia despachável até 2035, o equivalente a quase três Itaipus, para evitar apagões em horários de pico, enquanto o sistema elétrico já operou no limite de segurança em ao menos 16 dias de 2025
O Brasil vai precisar adicionar 35 GW de energia despachável ao seu sistema elétrico até 2035 para evitar apagões nas horas de maior demanda. O volume equivale a quase três usinas de Itaipu, que tem capacidade instalada de 14 GW e responde por cerca de 9% de toda a eletricidade consumida no país. A conclusão vem de um estudo elaborado pela Academia Nacional de Engenharia e pelo CIGRE-Brasil, encaminhado à Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).
Segundo o TecMundo, o cenário atual já dá sinais de esgotamento. O Sistema Interligado Nacional (SIN) atingiu capacidade instalada de 246.762 MW no segundo semestre de 2025 para atender uma demanda de até 104.732 MW, mas a distribuição dessa energia na rede enfrenta gargalos graves. A Volt Robotics, consultoria do setor, avaliou que o sistema operou próximo ao limite de segurança em ao menos 16 dias de 2025. Os momentos de maior risco ocorreram nos finais de semana, quando a queda de consumo gerou excesso de oferta de energia que a rede não conseguiu absorver.
Por que o Brasil precisa de energia equivalente a três Itaipus
O problema não é falta de capacidade instalada. O Brasil já tem usinas suficientes para gerar mais do que consome. O problema é que boa parte dessa energia vem de fontes intermitentes, como eólica e solar, que produzem apenas quando há vento ou sol e não podem ser acionadas sob demanda.
-
Enquanto milhões recebem o Bolsa Família e trabalham na informalidade, um dado intriga especialistas: por que até contribuições acessíveis no INSS não convencem brasileiros a planejar a aposentadoria?
-
Brasil e Marrocos se enfrentam em campo neste sábado pela Copa do Mundo, mas longe do gramado os dois países movimentam US$ 2,8 bilhões por ano em comércio agrícola; o açúcar brasileiro sozinho responde por quase 60% de tudo que o país africano compra daqui
-
Taxa das blusinhas saiu de cena, mas o ICMS ficou: entenda por que compras internacionais ainda podem pesar no bolso do consumidor
-
Parceria entre Brasil e a União Europeia mira chips, supercomputador de IA e serviços de nuvem, enquanto governo tenta fortalecer soberania digital em áreas consideradas estratégicas
Nos horários de pico, quando milhões de brasileiros ligam chuveiros, aparelhos de ar condicionado e eletrodomésticos ao mesmo tempo, o sistema precisa de fontes que respondam imediatamente: hidrelétricas e termelétricas, as chamadas fontes despacháveis.
O governo federal já contratou cerca de 19 GW de energia de fontes térmicas e hidráulicas para reforçar o abastecimento em momentos de escassez. Esse volume já supera a capacidade de uma Itaipu inteira.
Mas o estudo aponta que serão necessários mais 35 GW até 2035, e esse déficit precisa ser coberto com fontes de energia que possam ser ligadas e desligadas conforme a necessidade. Sem isso, apagões nas horas de pico se tornam uma questão de tempo.
O paradoxo do excesso: como sobra de energia pode causar apagões
Parece contraditório, mas o excesso de energia na rede é tão perigoso quanto a falta. Quando a geração supera o consumo, o sistema elétrico precisa descartar o excedente para evitar sobrecarga.
O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) recorre cada vez mais ao curtailment, a interrupção forçada da geração de energia para equilibrar oferta e demanda. Sem essa medida, a rede pode colapsar.
Esse fenômeno acontece principalmente nos finais de semana, quando a atividade econômica diminui e o consumo de energia cai, mas as usinas eólicas e solares continuam gerando na mesma intensidade.
A rede não tem onde armazenar esse excedente. O resultado é um sistema que alterna entre momentos de sobra e momentos de escassez de energia, operando no limite de segurança com frequência crescente. Em 2025, foram ao menos 16 dias nessa condição.
Armazenamento de energia: a peça que falta no sistema brasileiro
Uma das soluções apontadas pelo estudo é a ampliação dos sistemas de armazenamento de energia. Baterias de grande escala poderiam absorver o excedente gerado por usinas eólicas e solares nos horários de baixo consumo e devolvê-lo à rede nos horários de pico.
Em novembro de 2025, o Ministério de Minas e Energia promoveu um webinar para tratar das diretrizes do leilão de baterias previsto para 2026, sinalizando que o governo reconhece a necessidade.
Outra recomendação do estudo é o investimento em reservatórios de regularização para hidrelétricas. A energia armazenada em períodos de maior produção poderia ser usada para bombear água de volta aos reservatórios, transformando as usinas em baterias naturais.
Itaipu já funciona dessa forma, aumentando a geração de energia sob demanda e chegando a cobrir até 30% do consumo nacional em momentos de pico. Replicar esse modelo em outras hidrelétricas é uma das recomendações mais relevantes do relatório.
O papel de Itaipu como bateria natural do sistema de energia brasileiro
A Usina Hidrelétrica de Itaipu, localizada na fronteira entre Brasil e Paraguai, é uma das maiores fontes de energia limpa do planeta.
Com capacidade instalada de 14 GW, ela responde por cerca de 9% do consumo de energia elétrica brasileiro e funciona como uma bateria natural do Sistema Interligado Nacional. Em momentos de maior demanda, Itaipu pode elevar sua geração para cobrir até 30% do atendimento nacional.
Usar Itaipu como referência para dimensionar a necessidade de energia até 2035 não é apenas um recurso retórico. É uma medida prática que mostra a escala do desafio. Construir três novas Itaipus seria inviável em termos de tempo, custo e impacto ambiental.
A alternativa realista combina contratação de termelétricas, ampliação de baterias, melhoria das redes de transmissão e integração inteligente das fontes intermitentes ao sistema. O estudo enviado à Aneel deixa claro que não existe uma solução única: o país precisa de todas ao mesmo tempo.
O que acontece se o Brasil não contratar essa energia até 2035
O estudo é direto: sem os 35 GW adicionais de energia despachável, o Brasil enfrentará instabilidades crescentes no fornecimento de eletricidade. Apagões localizados, cortes programados e racionamento em horários de pico passam a ser cenários reais se o investimento não avançar no ritmo necessário.
O crescimento da demanda, impulsionado pela eletrificação do transporte, pela expansão de data centers e pelo aumento do uso de ar condicionado, pressiona o sistema de forma contínua.
O desafio é também logístico e regulatório. Integrar melhor as fontes de energia intermitentes ao sistema exige investimentos em transmissão, distribuição e armazenamento que levam anos para serem concluídos.
A janela até 2035 é curta para a escala do problema, e qualquer atraso nos leilões, nas obras ou na regulamentação pode comprometer o abastecimento de energia do país inteiro.
Um alerta que não pode esperar
O estudo encaminhado à Aneel é um alerta claro: o Brasil precisa de energia equivalente a quase três Itaipus até 2035 e o sistema já opera no limite.
Não se trata de uma projeção distante; são 16 dias no limite de segurança só em 2025. A solução passa por baterias, reservatórios, termelétricas e melhorias na rede, tudo ao mesmo tempo.
A pergunta não é se o investimento é necessário, mas se ele vai acontecer rápido o suficiente.
Você já foi afetado por algum apagão ou instabilidade na rede elétrica? Acha que o Brasil vai conseguir contratar essa energia a tempo ou estamos caminhando para um racionamento? Deixe nos comentários e compartilhe este artigo com quem precisa entender o que está acontecendo com o fornecimento de eletricidade no país.

-
2 pessoas reagiram a isso.