O Brasil desperdiçou mais de 20% da energia limpa que poderia ter produzido no último ano, um volume equivalente a 10 meses de geração da Hidrelétrica de Belo Monte. O prejuízo chegou a 6,5 bilhões de reais, e a crise levou ao abandono de 509 projetos de geração solar e eólica enquanto o país contrata termoelétricas a diesel para cobrir o desequilíbrio.
O Brasil se tornou referência mundial em energia limpa e agora enfrenta um problema que parece paradoxal: produz mais do que consegue usar, transmitir ou armazenar. No último ano, mais de 20% da capacidade instalada de energia solar e eólica foi desperdiçada, principalmente nas regiões Norte e Nordeste, onde as usinas são obrigadas a interromper a produção porque não existe infraestrutura suficiente para escoar o excedente. O prejuízo acumulado alcançou 6,5 bilhões de reais, segundo balanço da Volt Robotics.
O desperdício de energia limpa não é apenas um problema técnico é um sinal de que o crescimento da geração renovável no Brasil ultrapassou a capacidade do sistema de absorvê-la. A participação da energia solar na matriz energética saltou de 1,1% em 2019 para cerca de 20% em 2026, e a eólica passou de 8,8% para aproximadamente 16% no mesmo período. Esse avanço trouxe um desequilíbrio que o país ainda não resolveu: sobra energia limpa durante o dia e falta infraestrutura para levá-la aonde é necessária.
Por que o Brasil joga fora energia limpa que já produziu

O operador nacional do sistema elétrico precisa coordenar em tempo real a produção de hidrelétricas, térmicas, eólicas e solares, mantendo o volume de geração exatamente igual à demanda do país.
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Quando o sistema detecta excesso de oferta, reduz automaticamente a entrada de energia e as primeiras a serem cortadas são justamente as usinas solares e eólicas do Norte e Nordeste.

O problema tem duas raízes. A primeira é a falta de linhas de transmissão que conectem as regiões produtoras às regiões consumidoras.
A segunda é a ausência de tecnologias de armazenamento em escala suficiente para guardar o excedente de energia limpa e liberá-lo no início da noite, quando a demanda aumenta e a geração solar cai a zero. Sem transmissão e sem armazenamento, a única opção é desligar as usinas e desperdiçar energia que já poderia estar sendo usada.
Os 509 projetos abandonados e a fuga de investidores
O desperdício gerou consequências diretas no mercado. No último ano, a Agência Nacional de Energia Elétrica revogou 509 pedidos de outorgas para empreendimentos de geração solar e eólica e as revogações foram solicitadas pelos próprios empreendedores, que avaliaram que seus projetos se tornaram inviáveis. A corrida por subsídios que atraiu investidores nos anos anteriores se transformou em recuo.
Especialistas apontam que a raiz do problema está no excesso de subsídios concedidos à energia limpa, especialmente à solar, que estimularam investimentos sem levar em conta a capacidade real do sistema de absorver a nova geração.
“Os investidores fizeram uma espécie de corrida do ouro”, resumiu um analista do setor. O resultado é que projetos foram construídos onde não há demanda suficiente nem infraestrutura para transmitir a produção, gerando prejuízos que agora afugentam capital nacional e internacional.
O paradoxo de contratar termoelétricas a diesel para compensar energia limpa
Em uma das contradições mais evidentes do setor energético brasileiro, o governo negociou novos contratos de usinas termoelétricas movidas a óleo diesel, óleo combustível e biodiesel justamente o tipo de energia suja que a expansão solar e eólica deveria substituir.
Na prática, essas termoelétricas funcionam como um seguro de capacidade: ficam de prontidão para entrar em operação quando a energia limpa não está disponível, especialmente no início da noite.
O custo desse seguro é expressivo. O leilão de termoelétricas vai gerar um custo anual de aproximadamente R$ 40 bilhões para manter essas usinas disponíveis, mesmo que elas não operem a maior parte do tempo.
A situação levou especialistas a descreverem o cenário como “enxugar gelo com termoelétrica” uma solução cara e poluente para um problema que deveria ser resolvido com transmissão e armazenamento de energia limpa.
A linha de transmissão de 1.468 km que pode ajudar
Uma das soluções em andamento é a construção da linha de transmissão Graça Aranha-Silvânia, com 1.468 km de extensão. A obra vai atravessar Maranhão, Tocantins e Goiás, interligando a produção de energia limpa do Norte e Nordeste às regiões Centro-Oeste, Sul e Sudeste, onde está a maior parte da demanda. A previsão é que fique pronta no início de 2028, com custo de R$ 18 bilhões.
Quando estiver operando, a linha deve reduzir significativamente o desperdício, permitindo que a energia solar e eólica produzida no Nordeste chegue aos centros consumidores.
Mas até lá, o país continuará jogando fora energia limpa todos os dias, acumulando prejuízos e mantendo termoelétricas poluentes em operação para cobrir a lacuna que a falta de infraestrutura criou.
Baterias em larga escala: a outra peça que falta
O primeiro sistema de armazenamento de energia limpa em baterias de larga escala do Brasil funciona desde 2023 em Registro, no interior de São Paulo.
São 180 racks de baterias ocupando 5 mil metros quadrados, com potência de 30 MW capazes de entregar 60 MWh por duas horas.
O sistema atua como reforço à rede elétrica nos horários de pico, beneficiando cerca de 2 milhões de pessoas no litoral sul paulista.
O Ministério de Minas e Energia prevê que o primeiro leilão de baterias no Brasil será realizado ainda no primeiro semestre.
A expectativa é que sistemas como esse possam ser implantados em regiões onde a energia limpa excedente seria armazenada durante o dia e liberada à noite, eliminando a necessidade de cortar a produção solar e reduzindo a dependência das termoelétricas.
A velocidade de implementação, porém, ainda é considerada insuficiente diante da escala do problema.
Com informações do Canal Jornalismo TV Cultura.
O que você acha desse paradoxo? Um país que desperdiça energia limpa e contrata termoelétricas a diesel está no caminho certo ou precisa mudar de estratégia? Deixe sua opinião nos comentários.


É só durante o dia as hidroelétricas diminuírem a produção e reservando a água para o período noturno quando as solares não funcionam… não precisa de baterias … precisa de gestão e linhas de transmissão.
Bem brasileiro esse paradoxo. A falta de visão, a falta de planejamento estratégico do país e o maior problema: Governo atrapalhando e querendo se meter em tudo e visando taxar e arrecadar mais e mais.