Pesquisa revela por que brasileiros ainda resistem a produtos reciclados e como isso impacta a economia circular, o consumo sustentável e a indústria brasileira.
A sustentabilidade está cada vez mais presente no debate público e nas estratégias empresariais. No entanto, uma pesquisa inédita da Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostra que ainda existe uma diferença significativa entre o discurso e a prática. Embora a maioria dos brasileiros apoie iniciativas sustentáveis, muitos continuam relutantes em adquirir produtos reciclados, o que dificulta o avanço da economia circular no país.
O levantamento, realizado pela Nexus e divulgado pela Agência de Notícias da Indústria no dia 1 de junho, com 2.019 entrevistados entre os dias 11 e 13 de fevereiro, revela que 72% da população vê de forma positiva empresas que investem em sustentabilidade. Apesar disso, 43% afirmam resistir à compra de produtos reciclados, independentemente do preço. O cenário preocupa especialistas porque pode impactar investimentos, geração de empregos verdes e o fortalecimento da indústria brasileira nos próximos anos.
Economia circular conquista espaço, mas hábitos de consumo ainda não acompanham
A pesquisa foi apresentada durante o evento “Liderança Empresarial pelo Futuro do Clima | COP31”, realizado na sede da FIRJAN, no Rio de Janeiro. O encontro integra as discussões preparatórias para a 31ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP31), prevista para novembro.
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Os resultados mostram que a economia circular é vista de forma cada vez mais favorável pelos consumidores. O conceito propõe a reutilização, reciclagem, remanufatura e recuperação de materiais para prolongar a vida útil dos produtos e reduzir desperdícios.
Na prática, porém, muitos consumidores ainda demonstram resistência quando precisam escolher entre um produto convencional e uma alternativa produzida com materiais reaproveitados.
Por que os brasileiros ainda evitam produtos reciclados?
Os números da pesquisa ajudam a entender essa contradição. Entre os entrevistados que afirmam evitar produtos reciclados, os principais motivos foram:
- Preferência por produtos novos: 34%;
- Dúvidas sobre a durabilidade dos itens reciclados: 30%;
- Falta de confiança em materiais reaproveitados;
- Pouco conhecimento sobre os processos de reciclagem.
Esse comportamento mostra que parte dos brasileiros ainda associa sustentabilidade a possíveis perdas de qualidade ou desempenho, mesmo quando não existem evidências que sustentem essa percepção.
Um exemplo citado pela própria pesquisa é o consumidor que apoia a reciclagem, mas prefere comprar um tênis convencional em vez de um modelo produzido com borracha reaproveitada de pneus ou fibras recicladas.
Falta de informação limita o avanço da economia circular
O estudo também revelou um dado importante: apenas 13% dos brasileiros afirmam conhecer profundamente o conceito de economia circular.
Esse percentual ajuda a explicar por que muitos consumidores apoiam práticas sustentáveis em teoria, mas não conseguem relacionar suas decisões de compra aos impactos ambientais gerados.
Outro dado chama atenção: 56% da população não percebe uma relação direta entre seus hábitos de consumo e as emissões de gases de efeito estufa.
A combinação desses fatores cria uma barreira para a expansão do consumo sustentável, já que decisões cotidianas continuam sendo tomadas sem considerar totalmente seus efeitos ambientais.
Consumo sustentável cresce, mas ainda é motivado pela economia financeira
Apesar dos desafios, a pesquisa identificou hábitos alinhados aos princípios da economia circular que já fazem parte do dia a dia da população.
Segundo o levantamento, 58% dos brasileiros afirmam consertar produtos antes de substituí-los. Essa prática reduz o descarte precoce de itens e ajuda a prolongar sua vida útil.
No entanto, as razões por trás desse comportamento mostram que ainda existe espaço para ampliar a conscientização ambiental.
Entre aqueles que realizam reparos:
- Cerca de metade aponta a economia financeira como principal motivação;
- Apenas 10% associam a decisão à preocupação ambiental.
Isso demonstra que o consumo sustentável avança, mas muitas vezes impulsionado por questões econômicas e não necessariamente por consciência ecológica.
A logística reversa continua distante da realidade da maioria dos brasileiros
Outro ponto analisado pela pesquisa foi a logística reversa, considerada uma ferramenta essencial para o funcionamento da economia circular.
O levantamento aponta que 84% dos brasileiros não costumam devolver produtos como pilhas, baterias e equipamentos eletrônicos para locais adequados de descarte ou reaproveitamento.
Entre as justificativas mais citadas estão:
- Falta de informação sobre onde entregar os materiais: 33%;
- Distância dos pontos de coleta: 24%;
- Pouca familiaridade com os sistemas de devolução.
Esses números mostram que o país ainda enfrenta desafios estruturais para ampliar o reaproveitamento de resíduos e fortalecer o consumo sustentável.
Quem é responsável pelos impactos ambientais dos produtos?
A pesquisa também investigou como a população distribui a responsabilidade pela preservação ambiental.
Segundo os dados:
- 60% acreditam que as prefeituras devem garantir que os produtos não contaminem o meio ambiente;
- 14% apontam as indústrias como principais responsáveis;
- 12% atribuem essa função ao governo federal.
Os resultados indicam que muitos consumidores ainda enxergam a sustentabilidade como uma responsabilidade institucional, e não como uma tarefa compartilhada entre empresas, governos e cidadãos.
Essa percepção pode dificultar o avanço da economia circular, que depende da participação de toda a cadeia produtiva e também das escolhas feitas pelos consumidores.
Como a indústria brasileira pode acelerar essa transformação
Para especialistas do setor, a mudança depende de uma combinação de informação, infraestrutura e incentivos econômicos.
Davi Bomtempo, superintendente de Meio Ambiente e Sustentabilidade da CNI, destacou durante a apresentação dos resultados que existe interesse da sociedade por práticas sustentáveis, mas ainda persistem obstáculos relacionados ao acesso à informação, à percepção de qualidade e à disponibilidade dessas soluções no mercado.
Nesse contexto, a indústria brasileira tem papel fundamental. Empresas vêm investindo em inovação, reaproveitamento de materiais e desenvolvimento de novos modelos de produção mais eficientes.
Contudo, a resistência aos produtos reciclados pode reduzir o ritmo desses investimentos e limitar o potencial de crescimento de segmentos ligados à sustentabilidade.
Economia circular pode fortalecer investimentos e gerar empregos verdes
A expansão da economia circular não traz benefícios apenas para o meio ambiente. O modelo também é visto como uma oportunidade econômica estratégica.
Entre os possíveis impactos positivos estão:
- Ampliação de investimentos sustentáveis;
- Geração de empregos verdes;
- Redução da dependência de matérias-primas virgens;
- Maior competitividade da indústria brasileira;
- Estímulo à inovação tecnológica;
- Redução da geração de resíduos.
Com mercados globais cada vez mais atentos às práticas ambientais, a indústria brasileira pode ganhar espaço ao adotar modelos produtivos alinhados aos princípios da circularidade.
Projeto de lei pode impulsionar a indústria brasileira e o consumo sustentável
A CNI defende a aprovação do Projeto de Lei 1874/2022, que propõe a criação da Política Nacional de Economia Circular (PNEC).
Segundo a entidade, a medida pode criar um ambiente mais favorável para investimentos, estimular práticas sustentáveis e aumentar a competitividade da indústria brasileira.
Além disso, a proposta busca incentivar modelos de produção e consumo sustentável, fortalecendo mecanismos de reaproveitamento de materiais e reduzindo desperdícios ao longo da cadeia produtiva.
O desafio agora é transformar intenção em comportamento
Os resultados da pesquisa mostram que os brasileiros valorizam cada vez mais a sustentabilidade e demonstram apoio crescente à economia circular. No entanto, a resistência aos produtos reciclados, o baixo nível de conhecimento sobre o tema e as dificuldades relacionadas à logística reversa ainda limitam o avanço desse modelo econômico.
Os dados revelam que existe um potencial significativo para ampliar o consumo sustentável no país, mas isso dependerá de uma transformação conjunta envolvendo consumidores, empresas e poder público. Quanto maior for a confiança nos produtos reciclados e a compreensão sobre os benefícios da circularidade, maiores serão as oportunidades para fortalecer a indústria brasileira, atrair investimentos e acelerar a transição para uma economia mais eficiente e sustentável.
Com informações de Agência de Notícias da Indústria.
