Crise energética, combustível caro e apagões abriram espaço para triciclos elétricos adaptados com painéis solares no Sudão, onde motoristas e vendedores passaram a reduzir gastos operacionais e ampliar a autonomia dos veículos. Em alguns casos, trabalhadores relataram aumento significativo da renda após abandonar modelos movidos a gasolina.
Filas em postos de combustíveis, apagões frequentes e o avanço do preço da gasolina passaram a pressionar trabalhadores urbanos no Sudão, especialmente motoristas e vendedores que dependem diariamente de veículos de três rodas para transportar passageiros e pequenas cargas.
Nesse cenário de crise econômica e infraestrutura instável, o engenheiro Mohamed Samir ganhou destaque em Cartum ao adaptar triciclos e riquixás elétricos na fábrica al-Shehab, oferecendo uma alternativa mais barata para quem já não conseguia sustentar os custos dos motores convencionais.
Triciclos elétricos ganharam espaço em Cartum
Antes mesmo da adaptação elétrica, os veículos de três rodas já ocupavam papel importante na mobilidade da capital sudanesa, circulando entre mercados populares, vias congestionadas e bairros onde pequenos trabalhadores dependem do transporte rápido para garantir renda ao longo do dia.
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Em vez do motor movido a combustível, Samir passou a utilizar baterias elétricas e, em parte dos modelos, instalou painéis solares sobre o teto dos veículos, reduzindo a dependência da rede elétrica, que também sofre interrupções constantes no país.

Segundo a AFP, Samir afirmou que os problemas no fornecimento de eletricidade poderiam impedir motoristas de recarregar os veículos, por isso instalou um sistema solar nos tuk-tuks e riquixás para ampliar a autonomia durante a jornada.
Segundo o engenheiro, a adaptação elevou em cerca de 50% a autonomia dos veículos, permitindo que os triciclos percorressem distâncias maiores mesmo em períodos marcados por cortes frequentes de energia elétrica.
Com apoio da captação solar instalada sobre a cobertura, alguns modelos passaram a alcançar aproximadamente 100 quilômetros de autonomia, enquanto determinados riquixás elétricos chegaram à faixa entre 100 e 120 quilômetros por carga.
Mais do que um detalhe visual, o teto dos veículos passou a atuar como fonte complementar de energia, ajudando motoristas que trabalham por longas horas e não podem interromper a rotina por falta de recarga durante o expediente.
Painéis solares reduziram custos de motoristas
Além da questão energética, a adaptação passou a aliviar um problema que vinha reduzindo a renda de milhares de trabalhadores urbanos: o custo operacional de manter veículos movidos a gasolina ou diesel em circulação diária.
Com o combustível cada vez mais caro, muitos motoristas relatavam perda significativa da renda em despesas com abastecimento, manutenção mecânica, troca de óleo e longas horas desperdiçadas em filas nos postos da capital sudanesa.
O vendedor de frutas Bakry Mohamed, citado pela AFP, trocou o antigo tuk-tuk a combustível por um triciclo elétrico depois de concluir que o veículo anterior custava mais do que rendia no dia a dia.
Ele afirmou que deixou de enfrentar filas por combustível e passou a depender de uma carga capaz de manter o veículo em operação por um período maior.

Segundo o relato, sua renda diária chegou a dobrar após a mudança. A redução de despesas não veio apenas do fim do abastecimento.
Baterias elétricas exigem menos manutenção do que motores a combustão, o que diminui paradas, reparos e gastos frequentes para trabalhadores que vivem de fretes, entregas e vendas nas ruas.
Fábrica de Mohamed Samir ampliou produção
Enquanto a procura aumentava entre trabalhadores autônomos, a iniciativa deixou de funcionar apenas como experiência técnica e passou a ganhar escala dentro da produção local instalada em Cartum.
Dados divulgados pela AFP mostraram que a fábrica de Samir já havia comercializado mais de 100 triciclos de carga e aproximadamente uma dúzia de riquixás elétricos voltados ao transporte de passageiros.
A procura mostrou que a adesão não ocorreu por curiosidade tecnológica, mas por necessidade econômica.
Para motoristas autônomos, pequenos comerciantes e carregadores, a troca significou preservar renda em um ambiente de custos cada vez mais imprevisíveis.
O contexto energético tornou a energia solar ainda mais relevante. Mesmo quando o veículo elétrico se mostrava mais barato do que o modelo a combustível, apagões e instabilidade na rede ameaçavam limitar a vantagem da recarga convencional.
Com painéis instalados sobre a estrutura do veículo, parte dos proprietários passou a captar energia enquanto circulava.
O recurso não substitui necessariamente toda a recarga, mas ajuda a manter as baterias ativas por mais tempo durante o expediente.

Crise no Sudão impulsionou soluções alternativas
Embora o impacto econômico seja o principal fator por trás da adesão ao projeto, a substituição dos motores convencionais também passou a chamar atenção pelos efeitos ambientais associados ao transporte urbano.
Relatórios do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente já alertavam que veículos de três rodas movidos a combustíveis fósseis contribuem para poluição sonora, piora da qualidade do ar e aumento das emissões em centros urbanos.
Ainda assim, a principal força da iniciativa está no efeito econômico direto.
Em cidades onde o transporte leve sustenta milhares de famílias, qualquer redução no custo por quilômetro pode alterar o resultado financeiro de uma jornada inteira.
A crise no Sudão agravou esse cálculo. Desde 2023, o país enfrenta guerra civil, deslocamento em massa, danos à infraestrutura e interrupções em serviços essenciais, o que tornou energia, transporte e abastecimento temas ainda mais sensíveis.
Os triciclos elétricos surgiram antes da fase mais recente do conflito, mas continuam ilustrando como soluções locais podem responder a gargalos persistentes em países pressionados por combustível caro, rede elétrica instável e renda informal vulnerável.
No cotidiano dos motoristas, a mudança é menos uma vitrine tecnológica e mais uma forma de manter o trabalho funcionando.
O veículo segue transportando frutas, passageiros e pequenas cargas, mas com outro cálculo de custo, autonomia e manutenção.

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