No litoral do Rio Grande do Norte, os irmãos Gabriel e Gabriele Melo usaram a madeira da algaroba, uma espécie invasora, para criar um pesqueiro sustentável de algaroba para a lagosta. O projeto venceu o Desafio Liga Jovem, do Sebrae, entre mais de 10 mil concorrentes e ganhou destaque internacional.
A melhor solução às vezes está escondida dentro do próprio problema. Foi o que Gabriel Melo, de 18 anos, e a irmã Gabriele Melo enxergaram ao olhar para a algaroba, a planta invasora que toma conta do semiárido, e imaginar nela a matéria-prima de uma nova armadilha de pesca. Da ideia saiu o Pesqueiro Sustentável, estrutura feita para capturar lagosta sem agredir o mar.
Segundo a ASN Rio Grande do Norte, os dois estudantes de Porto do Mangue conquistaram o 1º lugar nacional do Desafio Liga Jovem de 2025, na categoria Ensino Médio e Técnico. A vitória veio numa edição recorde, com mais de 10 mil projetos inscritos em todo o país. O trabalho foi orientado pelo professor Dalison Vitor, da escola estadual da cidade.
Quem são Gabriel e Gabriele Melo e de onde veio a ideia
Gabriel e Gabriele Melo são irmãos e estudantes de uma escola pública de Porto do Mangue, no litoral do Rio Grande do Norte.
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A cidade vive da pesca, e a lagosta é uma das principais fontes de renda da região.
Foi observando o dia a dia dos pescadores e a paisagem ao redor que a dupla juntou dois problemas numa só solução.
De um lado, a algaroba avançando sobre o terreno; do outro, o custo alto e o impacto das armadilhas de pesca tradicionais.
A orientação do professor Dalison Vitor ajudou a transformar a percepção dos dois num projeto estruturado.
O resultado foi um pesqueiro sustentável de algaroba, pensado para baratear a pesca e poupar o ambiente ao mesmo tempo.
Mais do que um trabalho de escola, virou uma resposta concreta a uma demanda da própria comunidade.
O problema da algaroba: a espécie invasora que sufoca o semiárido

A algaroba é uma árvore trazida de fora que se espalhou pelo Nordeste brasileiro com força.
Classificada como espécie invasora, ela compete com a vegetação nativa da caatinga e domina áreas inteiras.
Onde a algaroba se instala, plantas locais perdem espaço, água e luz, num desequilíbrio difícil de reverter.
Controlar uma espécie invasora como essa costuma dar trabalho e custar caro ao poder público.
A ideia dos irmãos inverte a lógica: em vez de só combater a praga, eles a transformam em insumo útil.
Cortar e aproveitar a madeira da algaroba vira, assim, uma forma de manejo com destino econômico.
Como funciona o pesqueiro sustentável de algaroba
O coração do projeto é simples de explicar e engenhoso na prática.
A estrutura de captura da lagosta é construída com a própria madeira da algaroba, em vez dos materiais convencionais.
O grande diferencial é o fim de vida útil: o pesqueiro sustentável de algaroba se degrada naturalmente no mar e vira substrato para organismos marinhos.
Modelos tradicionais podem ficar até um ano no fundo do mar liberando resíduos, segundo o projeto.
A madeira de algaroba, por ser orgânica, não deixa o mesmo rastro de lixo quando se decompõe.
Outro ganho é técnico: o desenho ajuda a evitar a captura de lagostas juvenis, que precisam crescer antes de serem pescadas.
Com isso, o pesqueiro sustentável de algaroba une três frentes: custo menor, menos poluição e preservação da espécie.
A vitória no Desafio Liga Jovem, do Sebrae

O Desafio Liga Jovem é promovido pelo Sebrae e desafia estudantes a resolver problemas reais com espírito empreendedor.
A edição de 2025 bateu recorde, com 62.276 inscritos e mais de 10 mil projetos apresentados em todo o Brasil.
Entre todos eles, o Pesqueiro Sustentável ficou em 1º lugar nacional na categoria Ensino Médio e Técnico.
Para o Sebrae, a proposta se destacou por unir preservação ambiental, valorização social e geração de renda.
Vencer o Desafio Liga Jovem nesse universo de milhares de ideias deu aos irmãos um selo nacional de inovação.
O prêmio principal inclui uma viagem internacional de até dez dias, em 2026, para imersão em ambientes de inovação.
Do litoral do RN para Estocolmo e Barcelona
A repercussão não parou nas fronteiras do Rio Grande do Norte.
O Pesqueiro Sustentável representou o Brasil no Young Water Prize, em Estocolmo, na Suécia, prêmio voltado a soluções para a água.
O projeto também marcou presença no MWC Barcelona, o maior evento de conectividade do mundo, realizado na Espanha.
Levar uma ideia nascida em Porto do Mangue para vitrines globais é a parte mais simbólica da trajetória.
Para estudantes de escola pública do interior, esse tipo de exposição costuma abrir portas raras.
A jornada mostra como um projeto local pode escalar para o debate internacional quando resolve um problema universal.
O contato com pesquisadores e empresas lá fora tende a amadurecer ainda mais a proposta.
Por que isso importa para os pescadores e o meio ambiente
Por trás do prêmio, há um impacto prático na vida de quem vive do mar.
A pesca da lagosta é uma atividade econômica central no litoral do Rio Grande do Norte e de todo o Nordeste.
Uma armadilha mais barata e legal pode reduzir custos do pescador e afastar métodos predatórios que prejudicam o estoque.
Ao evitar a captura de lagostas jovens, o pesqueiro sustentável de algaroba ajuda a manter a espécie se reproduzindo.
Isso protege a renda futura das comunidades, que dependem de um mar com lagosta para pescar.
No fim, o projeto liga três pontas que raramente se encontram: combate a uma espécie invasora, economia para o pescador e proteção do ecossistema.
É um exemplo de como inovação ambiental pode ser também ferramenta de geração de renda.
O que o caso do pesqueiro sustentável de algaroba mostra
A história dos irmãos Melo é inspiradora porque transforma um problema em oportunidade.
Ela prova que ideia boa não tem idade nem CEP, e pode nascer numa escola pública do interior.
Mas vale manter o pé no chão.
Por enquanto, o pesqueiro sustentável de algaroba é um projeto premiado, não um produto em escala nas mãos dos pescadores.
Sair do protótipo vencedor para a produção comercial exige testes de durabilidade, licenças e investimento.
Prêmio nacional e viagem internacional abrem portas, mas não garantem, sozinhos, a adoção pela frota pesqueira.
Ainda assim, poucos projetos de estudantes resumem tão bem o que o Desafio Liga Jovem busca: resolver um problema real com criatividade.
De Porto do Mangue para Estocolmo, Gabriel e Gabriele Melo mostraram que até uma praga pode virar solução.
E você, usaria um pesqueiro sustentável de algaroba se isso baratasse a pesca e protegesse o mar? Comenta aqui se você conhece outra ideia jovem que transformou um problema ambiental em ferramenta de trabalho.
