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Aos 81 anos, a mãe de santo Iyagunã Dalzira virou doutora pela UFPR depois de voltar à escola só aos 47, e mostrou que a idosa que volta a estudar nunca para

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Escrito por Bruno Teles Publicado em 26/06/2026 às 10:09 Atualizado em 26/06/2026 às 10:16
Iyagunã Dalzira, a idosa doutora aos 81 anos, fez doutorado na UFPR após voltar à escola aos 47 e virou símbolo do estudo na terceira idade.
Iyagunã Dalzira, a idosa doutora aos 81 anos, fez doutorado na UFPR após voltar à escola aos 47 e virou símbolo do estudo na terceira idade.
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Iyagunã Dalzira começou os estudos formais aos 47 anos, no EJA, e não parou até o topo: virou doutora pela UFPR em 2022, fechando graduação e mestrado. A idosa doutora aos 81 anos, yalorixá do candomblé, defendeu um doutorado sobre professoras negras e virou símbolo do estudo na terceira idade.

Tem gente que aos 81 anos coleciona netos, e tem Iyagunã Dalzira, que coleciona diplomas. Em setembro de 2022, ela defendeu a tese e se tornou doutora pela Universidade Federal do Paraná, no fim de uma escada acadêmica que levou mais de três décadas para ser construída. Mãe de santo respeitada, ela transformou a sala de aula numa extensão da própria história de fé e cultura, sem nunca tratar a idade como obstáculo.

Segundo a UFPR, a trajetória dela foge de qualquer cronograma padrão: estudos formais aos 47, graduação aos 63, mestrado aos 72 e o doutorado aos 81. O título de doutora coroou um percurso que começou no EJA, o programa de Educação de Jovens e Adultos, e que passou por uma universidade tecnológica antes de chegar ao programa de pós-graduação em educação.

Quem é Iyagunã Dalzira, a idosa doutora aos 81 anos

Dalzira Maria Aparecida nasceu em 1941, em Minas Gerais, e é conhecida no meio religioso como Iyagunã Dalzira.

Ela é yalorixá, a mais alta função feminina de liderança dentro de um terreiro de candomblé.

Na prática, isso significa que ela conduz rituais, orienta filhos de santo e guarda a memória oral de uma tradição centenária.

A UFPR registra que Iyagunã Dalzira integra a sétima geração de africanos que chegaram ao Brasil, um dado que ela carrega como parte da própria identidade.

Antes de virar nome conhecido na universidade, ela já era referência na defesa da cultura e da religiosidade de matriz africana no Paraná.

É essa dupla autoridade, a do terreiro e a da academia, que torna a história dela diferente da maioria dos casos de estudo tardio.

A idosa doutora aos 81 anos não chegou à pós-graduação por acaso, e sim depois de décadas atuando como educadora informal dentro da própria comunidade.

A escada de diplomas até o doutorado na UFPR

Iyagunã Dalzira, a idosa doutora aos 81 anos, fez doutorado na UFPR após voltar à escola aos 47 e virou símbolo do estudo na terceira idade.
O percurso de Iyagunã Dalzira tem degraus bem definidos, e cada um deles levou anos.

Ela foi alfabetizada ainda menina pelo próprio pai, numa época em que o acesso de meninas à escola era restrito.

Os estudos formais e regulares, no entanto, só começaram aos 47 anos, quando ela entrou no EJA.

Aos 63, ingressou no curso de Relações Internacionais, em Curitiba, sua primeira graduação.

Aos 72, defendeu o mestrado na Universidade Tecnológica Federal do Paraná, a UTFPR, com uma dissertação sobre os saberes do candomblé na contemporaneidade.

Aos 81, fechou o ciclo com o doutorado pela UFPR, alcançando o nível mais alto da formação acadêmica brasileira.

Entre a primeira matrícula no EJA e o título de doutora, foram cerca de 34 anos de estudo contínuo.

Para efeito de comparação, esse intervalo é maior do que a vida inteira de boa parte dos colegas que defenderam tese ao lado dela.

A tese sobre professoras negras e o que ela investiga

O trabalho final de Iyagunã Dalzira não foi um tema genérico, e sim um recorte que ela conhece de dentro.

A tese se chama “Professoras negras: gênero, raça, religiões de matriz africana e neopentecostais na educação pública”.

Segundo a CartaCapital, a pesquisa investiga como a identidade religiosa de professoras negras influencia a forma como elas ensinam.

O estudo foi defendido no Programa de Pós-Graduação em Educação da UFPR, sob orientação do professor Paulo Vinicius Baptista da Silva.

A defesa aconteceu em 23 de setembro de 2022 e foi aprovada pela banca avaliadora.

Na prática, o doutorado transformou a vivência de terreiro em objeto de estudo, com método, bibliografia e revisão acadêmica.

É um tipo de pesquisa raro: parte de quem vive a religião de matriz africana por dentro, e não de um observador externo.

Por isso a tese foi tratada não só como conquista pessoal, mas como contribuição original para o campo da educação.

O que é o EJA, a porta que abriu o caminho

Iyagunã Dalzira, a idosa doutora aos 81 anos, fez doutorado na UFPR após voltar à escola aos 47 e virou símbolo do estudo na terceira idade.
Boa parte da história só faz sentido quando se entende o ponto de partida.

O EJA, Educação de Jovens e Adultos, é a modalidade pública voltada a quem não concluiu os estudos na idade considerada regular.

Foi por essa porta, aos 47 anos, que Iyagunã Dalzira retomou a escolarização formal.

O programa permite recuperar etapas do ensino fundamental e médio em ritmo adaptado à rotina adulta.

Sem o EJA, dificilmente ela teria chegado à graduação, ao mestrado e ao doutorado anos depois.

O caso dela funciona como uma propaganda concreta de uma política pública pouco celebrada.

Cada degrau seguinte, da faculdade à pós, dependeu desse primeiro reencontro com a sala de aula.

Idosos na universidade: o que dizem os números

A trajetória de Iyagunã Dalzira é exceção, mas conversa com uma tendência real.

Segundo o Censo da Educação Superior, do Inep, o número de matriculados com 60 anos ou mais saltou de 5.107, em 2013, para 39.448, em 2023.

Esse crescimento, puxado pelo ensino a distância, passou de 670% em dez anos, o maior salto entre todas as faixas etárias.

Mesmo assim, os idosos seguem como uma fração mínima do total, perto de 0,4% dos alunos em cursos presenciais.

Ou seja, a presença está crescendo rápido, mas parte de uma base muito pequena.

O dado mostra que voltar a estudar depois dos 60 deixou de ser anomalia, embora ainda esteja longe de ser comum.

Casos como o da idosa doutora aos 81 anos ajudam a empurrar essa curva para cima, ao darem visibilidade ao tema.

Por que estudar na terceira idade vale a pena

O retorno aos estudos na terceira idade tem efeitos que vão além do diploma.

Pesquisas sobre envelhecimento associam a atividade intelectual constante à preservação da memória e do raciocínio.

Manter o cérebro em uso, com leitura, escrita e debate, está ligado a um declínio cognitivo mais lento.

Há também o ganho social: a sala de aula recoloca o idoso num grupo, com troca e propósito.

Para muitos estudantes da terceira idade, o objetivo não é o emprego, e sim a realização de um projeto adiado.

No caso de Iyagunã Dalzira, o estudo virou ferramenta de trabalho, já que ela atua como educadora e pesquisadora.

Esse encontro entre saúde, convívio e propósito é o que faz especialistas defenderem o estudo na terceira idade como política de bem-estar.

O que o caso da idosa doutora aos 81 anos mostra

A trajetória de Iyagunã Dalzira inspira porque junta tempo, identidade e conhecimento numa só biografia.

Ela prova que começar tarde não impede chegar ao ponto mais alto da formação acadêmica, o doutorado.

Mas vale manter o pé no chão na hora de tirar lições.

O doutorado aos 81 é exceção, não regra, e os próprios números do Inep mostram que idosos ainda são 0,4% dos universitários.

Uma conquista assim depende de saúde, tempo livre e acesso a uma universidade pública de qualidade.

Transformar a façanha numa cobrança do tipo “se ela conseguiu, qualquer um consegue” seria injusto com quem não teve as mesmas condições.

O mérito é individual, mas o ponto de partida tardio também escancara um acesso à educação que demorou a chegar para muita gente.

Ainda assim, poucos exemplos resumem tão bem a força do estudo na terceira idade e o alcance de uma política como o EJA.

De yalorixá a doutora pela UFPR, Iyagunã Dalzira fez do conhecimento um ato de continuidade, não de despedida.

E você, voltaria a estudar na terceira idade como essa idosa doutora aos 81 anos? Comenta aqui se você conhece alguém que, como a Iyagunã Dalzira, provou que nunca é tarde para buscar um diploma.

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