Investigação teve início após o FBI repassar ao Ministério da Justiça brasileiro informações obtidas por meio da OpenAI, empresa responsável pelo ChatGPT, sobre risco concreto de violência
Um homem de 36 anos foi preso preventivamente no Espírito Santo depois que conversas mantidas com uma inteligência artificial revelaram um plano que incluía matar o próprio filho e promover ataques contra escolas, igrejas e autoridades públicas. O caso, que mobilizou forças de segurança em diferentes níveis, teve origem em um alerta internacional encaminhado por canais de cooperação entre Brasil e Estados Unidos.
Segundo a Polícia Civil do Espírito Santo, o investigado detalhou, em mensagens trocadas com a inteligência artificial, planos que envolviam a contratação de um pistoleiro para matar a própria criança, fruto de um relacionamento anterior. De acordo com a apuração, a motivação estaria relacionada à intenção de evitar que, após sua morte, a ex-companheira pudesse cobrar pensão alimentícia da avó paterna do menor.
A informação foi divulgada nesta sexta-feira, 26 de junho de 2026, pelo portal ND Mais, com base em dados oficiais fornecidos pela Polícia Civil capixaba. Conforme publicado pela reportagem, a prisão preventiva foi cumprida na zona rural do município de São Gabriel da Palha, no interior do Espírito Santo.
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Como o alerta do FBI chegou às autoridades brasileiras
O processo que culminou na prisão começou fora do Brasil. Segundo o delegado Ícaro Olímpio, responsável pela Delegacia Especializada de Repressão aos Crimes Cibernéticos (DRCC) do Espírito Santo, o FBI identificou, por meio de mecanismos de cooperação com a OpenAI — empresa responsável pelo desenvolvimento do ChatGPT —, conteúdos que indicavam risco concreto e iminente de violência.
Diante da gravidade das informações, o órgão de investigação estadunidense repassou os dados ao Ministério da Justiça e Segurança Pública do Brasil. O ministério, por sua vez, direcionou o caso à Polícia Civil do Espírito Santo, dando início à apuração local.
Nesse sentido, o delegado destacou que esse tipo de cooperação internacional tem se tornado cada vez mais relevante diante do avanço do uso de inteligências artificiais no cotidiano das pessoas. Segundo ele, plataformas digitais mantêm protocolos específicos para identificar e reportar situações em que usuários demonstrem intenção de cometer crimes graves ou colocar vidas em risco — ainda que a interação ocorra em ambiente privado de conversa com a IA.
Contudo, a velocidade da resposta das autoridades foi determinante para o desfecho do caso. De acordo com a investigação, os ataques estariam planejados para ocorrer no dia 20 de junho. A Polícia Civil conseguiu cumprir os mandados de prisão preventiva e de busca e apreensão antes da data estipulada pelo suspeito, evitando, segundo as autoridades, a concretização dos crimes planejados.
Suspeito mantinha armamento e relatou intenção de atacar instituições públicas
Durante as diligências, a Polícia Civil constatou que o investigado relatava possuir, além de uma arma de fogo, outros itens associados ao plano descrito nas conversas com a inteligência artificial — entre eles, uma corda e uma substância identificada como cianeto. Ainda segundo o delegado, as mensagens analisadas indicavam, além da intenção de matar o próprio filho, a vontade de promover ataques contra escolas, igrejas e autoridades públicas da região.
Por outro lado, a Polícia Civil reforçou que o caso ilustra os desafios enfrentados pelas forças de segurança diante de ameaças identificadas em ambientes digitais. Durante coletiva de imprensa, o delegado Ícaro Olímpio destacou a importância da atuação preventiva: “Nós tivemos o suficiente para poder prevenir, para poder evitar esse grave crime que estava prestes a acontecer”, afirmou.
Ainda conforme o delegado, mensagens enviadas a plataformas digitais — inclusive em interações privadas com sistemas de inteligência artificial — podem ser compartilhadas com autoridades sempre que houver indícios de ameaça concreta à vida ou à segurança pública. A declaração reforça um movimento que vem ganhando força globalmente: o de empresas de tecnologia atuando como parte da rede de prevenção a crimes graves, especialmente aqueles relacionados a planos de violência em larga escala.
Casos como esse evidenciam, portanto, uma mudança significativa na forma como ameaças são identificadas e neutralizadas na era digital. À medida que ferramentas de inteligência artificial se tornam cada vez mais presentes no dia a dia das pessoas, episódios como o ocorrido no Espírito Santo reforçam a relevância da cooperação entre empresas de tecnologia e forças de segurança — um modelo que, segundo as autoridades, foi decisivo para evitar uma tragédia de grandes proporções antes que ela se concretizasse.
