Mesmo com impacto do petróleo no PIB, Niterói aposta em diversificação econômica, novos investimentos, capacitação profissional e infraestrutura para reduzir a dependência dos royalties e ampliar empregos.
A dependência do petróleo voltou ao centro do debate econômico em Niterói após a divulgação dos dados mais recentes do Produto Interno Bruto (PIB) dos municípios pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em 2023, a cidade perdeu participação no PIB nacional, movimento associado à retração contábil da atividade petrolífera.
Ainda assim, o cenário não foi interpretado pela administração municipal como sinal de crise. Pelo contrário. A queda reforçou a estratégia de acelerar a diversificação econômica e reduzir a exposição às oscilações do petróleo, sobretudo aquelas ligadas ao câmbio e ao preço internacional do barril.
Oscilações do petróleo nem sempre refletem a economia real
De acordo com a Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), a variação negativa do PIB não indica, necessariamente, redução da produção física de petróleo. O Valor Adicionado Bruto (VAB) da extração é calculado a partir de três fatores principais: volume produzido, cotação internacional do petróleo e taxa de câmbio média.
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No período analisado, o impacto foi causado, sobretudo, pela valorização do real frente ao dólar e pelas oscilações do preço da commodity. Como o petróleo é precificado em moeda estrangeira, a conversão para o real reduz o valor nominal da produção, mesmo quando as operações offshore seguem estáveis.
A Firjan destaca ainda que a extração ocorre em alto-mar. Por isso, o efeito direto do petróleo sobre a economia local é limitado. O principal canal de impacto continua sendo a arrecadação de royalties e participações especiais.
Gestão dos royalties e menos dependência do petróleo
Diante desse cenário, o desafio central de Niterói permanece na gestão eficiente dos recursos provenientes do petróleo e na ampliação de alternativas econômicas. A prefeitura avalia que reduzir a dependência das receitas petrolíferas é fundamental para garantir estabilidade fiscal e crescimento sustentável.
A estratégia passa por estimular setores capazes de gerar empregos, ampliar a base de arrecadação e fortalecer a economia urbana, diminuindo a vulnerabilidade às variações externas que afetam o cálculo do PIB do petróleo.
Setores urbanos ganham protagonismo na nova matriz econômica
A Secretaria de Desenvolvimento Econômico (Seden) vem direcionando investimentos para uma ampla gama de atividades. Entre os setores priorizados estão tecnologia, startups, indústria automotiva, transporte, segurança privada, eletrônica, educação, hotelaria, cultura, gastronomia, saúde, beleza, vestuário e construção civil.
Essas áreas formam a espinha dorsal da economia de serviços da cidade. Além disso, concentram parcela significativa dos empregos formais e da arrecadação do ISS. Segundo a pasta, o apoio inclui capacitação, crédito produtivo, desburocratização e incentivos à abertura de novos negócios.
Crédito e empreendedorismo como motores de crescimento
Entre os programas em destaque está o Niterói Empreendedora. A iniciativa oferece crédito a juros zero, com carência e prazos estendidos, voltado a micro e pequenas empresas, startups e até permissionários de bancas de jornal.
Segundo a Seden, o objetivo não é apenas quitar dívidas, mas modernizar os empreendimentos e ampliar a capacidade produtiva. A expectativa é estimular o empreendedorismo local e reduzir a dependência indireta do petróleo como fonte de renda.
Capacitação profissional acompanha a transição econômica
A qualificação da mão de obra é tratada como eixo estratégico. A cidade mantém cursos voltados à indústria naval, pesca e tecnologia, com formações em soldagem, caldeiraria, pintura naval e segurança do trabalho.
Apesar das flutuações do mercado, a indústria naval ainda ocupa papel relevante na economia local. Por isso, a prefeitura aposta em um ciclo contínuo de capacitação, preparando trabalhadores e empresas para atender demandas atuais e futuras.
Geração de empregos sinaliza mudança estrutural
Os resultados já aparecem no mercado de trabalho. Em 2024, Niterói registrou o melhor ciclo de geração de empregos formais da última década. O saldo ultrapassou 7,5 mil novas vagas com carteira assinada.
Os destaques ficaram por conta dos setores de serviços, comércio, construção civil e economia do mar. Para a administração municipal, os números indicam que a cidade avança em uma transição concreta para uma matriz econômica mais diversificada e menos dependente do petróleo.
Infraestrutura econômica mira a economia do mar
No campo estrutural, projetos ligados à economia do mar seguem como prioridade. A dragagem do Canal de São Lourenço é considerada essencial para garantir competitividade aos estaleiros, viabilizar a circulação de embarcações e atrair novos serviços portuários, logísticos e offshore.
A prefeitura trata a obra como política de desenvolvimento econômico. A iniciativa está associada à reorganização de ativos públicos na orla, com foco na atração de investimentos privados.
Terminal Pesqueiro e revitalização urbana entram na agenda
Outro projeto estratégico é a revitalização do Terminal Pesqueiro de Niterói. A proposta busca reposicionar a cidade como polo de recepção, processamento e comercialização de pescado, incorporando tecnologia, controle sanitário e melhor logística.
No ambiente urbano, a requalificação do Centro de Niterói integra a estratégia econômica. A Seden atua para estimular o mercado imobiliário comercial, atrair redes hoteleiras e estruturar um fundo imobiliário voltado à ocupação de áreas subutilizadas com serviços, cultura e economia criativa.
Petróleo ainda pesa nos rankings econômicos
Mesmo com a retração recente, o petróleo segue influente nos indicadores nacionais. Dados do IBGE mostram que apenas 25 municípios concentraram 34,2% do PIB brasileiro em 2023. Niterói aparece na 14ª posição, enquanto Maricá figura em 4º lugar.
O estudo também aponta que várias cidades do estado do Rio perderam participação no PIB devido à queda na extração de petróleo. Ainda assim, os municípios com maior PIB per capita do país continuam fortemente ligados à atividade petrolífera.
“É curioso observar que os municípios no topo dessa lista estão ligados ao petróleo mesmo num contexto desfavorável a essa commodity”, afirmou Luiz Antonio do Nascimento de Sá, analista do IBGE.

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