Urbanização ideológica associada à extrema direita transforma pequenas cidades americanas e intensifica disputas políticas regionais.
Um projeto imobiliário voltado à criação de comunidades religiosas alinhadas ao nacionalismo cristão está provocando debates políticos e sociais nos Estados Unidos.
A iniciativa é liderada pelo incorporador Josh Abbotoy, fundador da empresa Ridgerunner, e começou a ganhar visibilidade nacional no fim de 2024, após reportagens locais revelarem o perfil ideológico de alguns compradores.
O empreendimento está sendo desenvolvido no condado de Jackson, no Tennessee, com expansão prevista para o Kentucky.
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A proposta combina moradia, agricultura e igreja em um mesmo espaço, com o objetivo de reunir moradores que compartilhem valores conservadores — o que, segundo críticos, representa um modelo de urbanização ideológica com impactos políticos na zona rural americana.
Comunidades religiosas planejadas em torno de valores conservadores
O projeto prevê a construção de dezenas de lotes residenciais distribuídos entre colinas e áreas agrícolas nos montes Apalaches.
No centro da comunidade, a igreja é considerada o principal eixo estruturante.
Abbotoy define o modelo como uma “comunidade baseada na afinidade”.
O foco não está apenas no estilo de vida rural, mas na convergência de valores políticos e religiosos.
“Fé, família e liberdade”, afirma ele. “Estes são os valores que tentamos exaltar.”
Segundo o incorporador, a procura tem sido significativa, com cerca de metade dos terrenos já contratados.
A previsão é que as primeiras famílias se mudem até o início de 2027.
Nacionalismo cristão e migração ideológica interna
Grande parte dos compradores vem de estados tradicionalmente democratas, como Califórnia e Nova York.
A migração para regiões conservadoras reflete uma reorganização demográfica com motivação ideológica.
Para especialistas, esse movimento fortalece bolsões políticos homogêneos, ampliando a influência da extrema direita em territórios específicos.
“As pessoas querem viver em comunidades onde sentem que compartilham valores importantes com seus vizinhos”, afirma Abbotoy.
Ele, no entanto, rejeita o rótulo de nacionalista cristão e classifica as críticas como exageradas.
Podcasters ampliam alcance político do projeto
A repercussão nacional aumentou após a mudança de Andrew Isker e C. Jay Engel para Gainesboro.
Os dois são clientes do empreendimento e apresentadores do podcast Contra Mundum.
A partir do estúdio instalado no escritório da Ridgerunner, eles incentivam seguidores a migrar para pequenas cidades e buscar influência política local.
“Se conseguíssemos criar lugares onde se pudesse exercer o poder político, o que poderia significar fazer parte da junta de comissários do condado ou até ter influência sobre os comissários do condado e o xerife… conseguir fazer isso é extremamente valioso”, declarou Isker.
Então Engel também popularizou o conceito de “americanos por legado”, associado a descendentes de colonizadores anglo-protestantes.
Declarações polêmicas geram reação
As posições defendidas pelos podcasters alarmaram moradores.
Entre elas, críticas ao sufrágio feminino, aos direitos civis e propostas de deportações em massa — inclusive de imigrantes legais.
Então em uma de suas falas, Engel afirmou que “povos como os índios, do sudeste asiático, os equatorianos e os imigrantes africanos são os menos capazes de se integrar e deveriam ser enviados para casa imediatamente”.
Eles também já declararam: “Revoguem o século 20.”
Embora neguem ser nacionalistas brancos, suas falas foram associadas a pautas da extrema direita.
Resistência local tenta barrar avanço ideológico
Assim, a repercussão mobilizou parte dos cerca de 900 habitantes de Gainesboro.
Grupos informais de resistência passaram a se organizar.
“Acredito que eles estejam tentando rotular nossa cidade e nosso condado como sede da sua ideologia do nacionalismo cristão”, afirma a empresária Diana Mandli.
Então ela liderou protestos e exibiu uma mensagem pública:
“Se você for uma pessoa ou grupo que promove a inferioridade ou a opressão dos outros, por favor, coma em outro lugar.”
Moradores também confrontaram representantes do projeto em estabelecimentos locais.
Temor sobre influência política
Nan Coons, cuja família vive na região desde o século XVIII, relata preocupação com propostas institucionais defendidas pelos recém-chegados.
“Ele me explicou que eles promovem o que ele chama de ‘voto familiar’… um voto por família e, é claro, quem votaria seria o marido da família.”
Apesar de Engel afirmar posteriormente que não considera errado o voto feminino, ele segue apoiando o modelo familiar.
“Você não sabe quem são essas pessoas, nem do que elas são capazes… E isso dá medo”, disse Coons.
O que é o nacionalismo cristão
O nacionalismo cristão não possui definição única.
Em vertentes mais radicais, defende que o Estado seja conduzido por uma autoridade religiosa suprema.
Teóricos como Stephen Wolfe falam em um “príncipe cristão”, responsável por orientar politicamente e espiritualmente a sociedade.
Já versões menos extremas defendem leis baseadas na moral cristã, maior participação de líderes religiosos na política ou o reconhecimento formal das raízes cristãs dos EUA.
Então essa amplitude conceitual, segundo analistas, facilitou sua inserção no debate público dominante.
Urbanização ideológica em expansão
O caso de Gainesboro reflete um fenômeno mais amplo. Projetos de urbanização ideológica vêm surgindo como estratégia de organização sociopolítica.
Assim, Abbotoy, formado em Direito por Harvard, também integra iniciativas conservadoras como o fundo New Founding e o portal American Reformer.
Do outro lado, opositores recebem apoio da organização States at the Core, voltada ao combate do autoritarismo em pequenas comunidades.
“Ninguém me pagou para dizer nada”, rebate Coons.
Disputa política na zona rural americana
O embate local ocorre em paralelo à crescente polarização eleitoral na zona rural dos Estados Unidos.
Então em 2024, Donald Trump ampliou sua vantagem nesses territórios, alcançando 69% dos votos.
Diante disso, democratas anunciaram investimentos milionários para reconquistar eleitores rurais.
“Sem dúvida, existe um interesse renovado do Partido Democrata pelo envolvimento das pessoas da zona rural”, afirma Abbotoy.
Ainda assim, moradores contrários ao projeto prometem resistência contínua.
“Se quisermos mudar esta tendência, é preciso começar pela sua rua, pelo seu bairro, pela sua pequena cidade”, diz Coons. “Preciso defender algo e é isso que eu defendo.”
Veja mais em: EUA: as comunidades rurais sendo construídas para nacionalistas cristãos – BBC News Brasil
