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Montadora 100% brasileira que prometia revolução no Brasil vira piada no Salão do Automóvel ao exibir maquete de fábrica, carro de isopor de R$ 200 mil e promessa de 150 concessionárias sem ao menos uma fábrica

Escrito por Alisson Ficher
Publicado em 26/11/2025 às 14:45
Assista o vídeoLecar apresenta maquete, carro de isopor e planos de 150 concessionárias sem fábrica pronta, ampliando dúvidas sobre seu projeto no Brasil. (Imagem: youtube A Roda)
Lecar apresenta maquete, carro de isopor e planos de 150 concessionárias sem fábrica pronta, ampliando dúvidas sobre seu projeto no Brasil. (Imagem: youtube A Roda)
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Montadora exibe modelos de isopor e amplia dúvidas sobre projeto industrial ao anunciar metas e prazos ainda sem lastro técnico, segundo especialistas do setor.

A Lecar, montadora que se apresenta como “fabricante brasileira de veículos híbridos e elétricos criada para revolucionar a mobilidade no Brasil”, usou o Salão do Automóvel para anunciar novos prazos e apresentar mais um conceito digital.

A empresa, porém, deixou o evento sob questionamentos de profissionais do setor, que apontaram inconsistências entre o discurso e o estágio real do projeto.

Segundo reportagem publicada pela Autoesporte, em vez de apresentar um veículo funcional, a marca exibiu uma maquete de fábrica, um modelo de isopor da picape Campo vendido a concessionários por R$ 200 mil e informou que pretende inaugurar uma rede de 150 pontos de venda antes mesmo de iniciar a produção.

Projetos da Lecar e promessa de carro nacional

Há mais de dois anos a Lecar divulga planos de lançar um carro nacional eletrificado, mas até agora o que apresentou ao mercado foram estudos preliminares de produto, de modelo de negócio e de operação industrial.

Especialistas ouvidos pela reportagem afirmam que o cronograma divulgado não segue o padrão observado em montadoras que buscam ingressar no setor automotivo, especialmente no que diz respeito à construção prévia de protótipos funcionais.

Durante a coletiva no Salão do Automóvel, jornalistas e executivos presentes relataram desconforto com a falta de alinhamento entre as apresentações e o que costuma ser divulgado por fabricantes em eventos desse porte.

Mocape da Lecar Campo apresentado durante o Salão do Automóvel de 2025. (Imagem: Autoesporte)
Mocape da Lecar Campo apresentado durante o Salão do Automóvel de 2025. (Imagem: Autoesporte)

Entre os presentes estava o presidente da BYD Brasil, Tyler Li, que participou de lançamento posterior da marca Denza.

De acordo com a apuração de Autoesporte, parte do público avaliou que a apresentação destoou do nível de preparação técnica normalmente adotado em feiras automotivas.

Coletiva com falhas e exibição de maquete industrial

A apresentação enfrentou problemas técnicos e de organização.

Fontes que acompanharam o evento destacaram o uso de imagens criadas por inteligência artificial sem áudio e a grafia incorreta do nome do fundador, Flávio Figueiredo, nos telões.

Sem roteiro estruturado, Figueiredo alternou comentários sobre um terceiro modelo ainda virtual e exibiu imagens da maquete da futura fábrica, cuja conclusão é prevista para o fim de 2027.

No palco, permanecia a picape Campo em escala real feita de isopor e madeira, utilizada como peça demonstrativa.

Meses antes, a Lecar havia divulgado que apresentaria no evento um protótipo funcional.

Segundo profissionais consultados, a ausência de um veículo rodante contrasta com o que normalmente é apresentado em uma fase de pré-produção.

Pré-venda e modelo de isopor vendido por R$ 200 mil

Lecar apresenta maquete, carro de isopor e planos de 150 concessionárias sem fábrica pronta, ampliando dúvidas sobre seu projeto no Brasil.
Lecar apresenta maquete, carro de isopor e planos de 150 concessionárias sem fábrica pronta, ampliando dúvidas sobre seu projeto no Brasil.

O modelo de isopor disponibilizado no estande também é comercializado pela empresa.

A Lecar afirma que cada unidade do chamado “mockup” é vendida por R$ 200 mil a interessados em abrir uma concessionária da marca.

O valor supera o dos veículos em pré-venda.

Os carros são ofertados ao público por R$ 159.300, exclusivamente no plano de Compra Programada, composto por 72 parcelas de R$ 2.212,50.

Não há opção de pagamento à vista.

A entrega, segundo a empresa, será realizada quando metade das parcelas for quitada, dentro de até três anos.

Profissionais do setor observam que modelos de pré-venda aplicados por montadoras costumam exigir a existência de protótipos homologados ou pré-séries, o que não ocorre no caso da Lecar.

A marca afirma que seu método permite “previsibilidade” e “adequação à demanda”.

Rede de concessionárias antes da produção

A empresa anunciou a meta de ter 150 concessionárias até 2026, um ano antes do início previsto da operação fabril.

Segundo a própria Lecar, parte dessas unidades será formada por lojas de usados e representantes comerciais que atuarão como intermediários de venda, com oficinas terceirizadas.

Especialistas consultados avaliam que o modelo é incomum em fabricantes que ainda não dispõem de produto final, já que envolve custos de manutenção de rede e necessidade de suporte técnico.

Lecar apresenta maquete, carro de isopor e planos de 150 concessionárias sem fábrica pronta, ampliando dúvidas sobre seu projeto no Brasil.
Lecar apresenta maquete, carro de isopor e planos de 150 concessionárias sem fábrica pronta, ampliando dúvidas sobre seu projeto no Brasil.

A Lecar afirma que a estratégia é adequada ao momento da empresa e que permite escalabilidade gradual.

Plano de fábrica e números questionados por especialistas

O projeto industrial divulgado pela montadora prevê uma planta de 90 mil m² em Sooretama (ES), com capacidade para 120 mil veículos por ano.

O refeitório, segundo dados apresentados pela empresa, teria 6 mil m², dimensão que chamou atenção de profissionais de engenharia industrial ouvidos pela reportagem por superar estruturas similares em montadoras de maior porte.

A comparação com fabricantes brasileiras anteriores costuma ser citada por analistas.

A Gurgel, por exemplo, produziu cerca de 40 mil veículos ao longo de 25 anos com uma fábrica de aproximadamente 15 mil m² em Rio Claro (SP).

Especialistas destacam que projetos industriais de grande capacidade demandam planejamento avançado e investimentos significativos para evitar ociosidade.

O Autoesporte também apontou que a discrepância entre as promessas e o estágio atual do projeto é um dos fatores que têm levantado dúvidas no setor automotivo.

Parceria chinesa sem nome divulgado

A Lecar afirma que há interesse de uma empresa chinesa no projeto, descrita em momentos diferentes como startup e como parceira em potencial.

A companhia, porém, não divulgou o nome do grupo envolvido.

Em outras ocasiões, a marca mencionou que o carro poderia ser produzido na China e, depois, afirmou em transmissão on-line dirigida a candidatos a concessionários que estaria enfrentando dificuldades com a parceira.

As declarações não foram detalhadas.

Especialistas apontam que iniciar um carro a partir de um projeto externo não é incomum.

Fabricantes como a Tesla recorreram a plataformas já existentes em seus primeiros modelos.

Ainda assim, analistas ressaltam que, mesmo nesses casos, é necessária validação técnica extensa antes da produção em série.

Homologação e desafios técnicos

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Além de desenvolver um protótipo funcional, a Lecar precisará realizar etapas obrigatórias de homologação, incluindo testes de componentes, eletrônica, segurança, crash tests e verificações sobre eficiência energética.

Técnicos consultados explicam que esse processo costuma levar meses ou anos mesmo em empresas consolidadas, especialmente quando há intenção de oferecer sistemas ADAS, como anunciado pela marca.

A expectativa desses profissionais é de que os prazos apresentados pela Lecar demandem ajustes ao longo do processo, devido ao caráter regulado do setor.

Questões técnicas sem resposta no Salão

As dúvidas técnicas mencionadas por engenheiros e consultores incluem a ausência de informações sobre o projeto final de chassi e carroceria, essenciais para determinar prensas, robôs de solda e demais equipamentos industriais.

Há incerteza também sobre prazos de fornecimento de maquinário pesado, integração dos sistemas fabris e viabilidade de sustentar uma rede nacional sem veículos homologados e sem escala produtiva definida.

Essas questões costumam ser abordadas por fabricantes durante apresentações técnicas em feiras do setor.

No caso da Lecar, profissionais presentes afirmam que essas informações não foram detalhadas.

Segundo Autoesporte, parte dos questionamentos foi recebida pela empresa, mas não houve detalhamento técnico adicional durante o evento.

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Alisson Ficher

Jornalista formado desde 2017 e atuante na área desde 2015, com seis anos de experiência em revista impressa, passagens por canais de TV aberta e mais de 12 mil publicações online. Especialista em política, empregos, economia, cursos, entre outros temas e também editor do portal CPG. Registro profissional: 0087134/SP. Se você tiver alguma dúvida, quiser reportar um erro ou sugerir uma pauta sobre os temas tratados no site, entre em contato pelo e-mail: alisson.hficher@outlook.com. Não aceitamos currículos!

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