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Mais altas que a Estátua da Liberdade, milhares de turbinas eólicas estão sendo cravadas no meio das lavouras dos Estados Unidos, criando fazendas de dois andares onde o milho e a soja crescem embaixo enquanto o vento vira eletricidade lá no alto

Escrito por Bruno Teles
Publicado em 23/05/2026 às 23:39
Atualizado em 23/05/2026 às 23:42
Assista o vídeoTurbinas eólicas mais altas que a Estátua da Liberdade dividem espaço com milho e soja nos EUA: dados do USDA mostram que a terra segue produtiva embaixo das torres.
Turbinas eólicas mais altas que a Estátua da Liberdade dividem espaço com milho e soja nos EUA: dados do USDA mostram que a terra segue produtiva embaixo das torres.
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O dado mais surpreendente vem do próprio Departamento de Agricultura dos EUA: depois de instaladas, menos de 1% dessas áreas deixou de produzir, e mais de 95% do terreno do parque segue plantado. No Centro-Oeste, 94% das turbinas foram cravadas em pleno campo de milho e soja, sem expulsar o agricultor.

Mais altas que a Estátua da Liberdade, milhares de turbinas eólicas estão sendo cravadas no meio das lavouras dos Estados Unidos, criando o que se pode chamar de fazendas de dois andares: embaixo, o milho e a soja seguem crescendo; lá no alto, o vento é transformado em eletricidade. Esse modelo, que combina produção de alimentos e geração de energia no mesmo pedaço de terra, vem se espalhando pelas zonas rurais americanas, sobretudo nas Grandes Planícies e no Centro-Oeste.

Os números confirmam a força desse movimento. Segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, o USDA, entre 2012 e 2020 mais de 90% das grandes turbinas eólicas comerciais instaladas em áreas rurais do país ficaram em terras agrícolas, sejam lavouras ou pastagens. No Centro-Oeste, a concentração é ainda maior: 94% das turbinas eólicas foram erguidas em terras de cultivo, bem no meio de campos de milho e soja, sem que a agricultura desaparecesse embaixo delas.

O que são as fazendas de dois andares

Turbinas eólicas mais altas que a Estátua da Liberdade dividem espaço com milho e soja nos EUA: dados do USDA mostram que a terra segue produtiva embaixo das torres.
A ideia por trás das fazendas de dois andares é simples e engenhosa: aproveitar o mesmo terreno para duas finalidades que não competem entre si.

As turbinas eólicas ocupam fisicamente apenas uma pequena fração da área, basicamente a base de concreto, as vias de acesso e as zonas de manutenção. Todo o resto do campo continua disponível para o plantio ou para a criação de animais.

Por isso, as turbinas não são instaladas coladas umas às outras como postes, mas espaçadas por centenas de metros, tanto para não bloquearem o vento umas das outras quanto para deixar passagem livre a tratores, plantadeiras, pulverizadores e colheitadeiras. O resultado é um campo que produz duas fontes de valor ao mesmo tempo: as colheitas que brotam do solo e a eletricidade gerada pelo vento que sopra lá em cima, sem que uma atividade atrapalhe a outra.

O dado que derruba o medo de perder a lavoura

Turbinas eólicas mais altas que a Estátua da Liberdade dividem espaço com milho e soja nos EUA: dados do USDA mostram que a terra segue produtiva embaixo das torres.
Uma das maiores preocupações com a expansão das turbinas eólicas é o possível avanço sobre terras produtivas.

Os dados do USDA, porém, ajudam a colocar o debate em perspectiva. Um estudo do serviço de pesquisa econômica do órgão mostrou que, das áreas de lavoura que receberam turbinas, mais de 99% continuaram sendo lavoura depois da instalação, ou seja, menos de 1% saiu da agricultura.

Além disso, mais de 95% da área dentro dos parques eólicos permanece disponível para atividades agrícolas. A área diretamente afetada pelas turbinas e por painéis solares somava apenas cerca de 424 mil acres em 2020, menos de 0,05% dos quase 900 milhões de acres usados para agricultura nos Estados Unidos. Em outras palavras, as turbinas eólicas ocupam um espaço minúsculo do campo, o que sustenta o conceito de duas camadas produtivas convivendo no mesmo terreno.

Iowa, o símbolo da energia eólica agrícola

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Nenhum lugar ilustra melhor esse modelo do que Iowa, um dos maiores produtores de milho e soja dos Estados Unidos. O estado tem vastas planícies, poucos obstáculos e vento constante, exatamente as condições ideais para a energia eólica. Lá, as turbinas convivem com as plantações, e a faixa de terra entre as torres permanece larga o suficiente para que as máquinas agrícolas operem normalmente durante toda a safra.

O resultado é notável: em 2024, cerca de 63% da eletricidade gerada em Iowa veio do vento, enquanto os campos embaixo seguiram produzindo bilhões de medidas de grãos por ano. Isso mostra que as turbinas eólicas não eliminaram o papel agrícola do estado; ao contrário, elas passaram a fazer parte de uma das maiores máquinas de produção de alimentos do país, somando renda sem tirar a terra da lavoura.

Roscoe, no Texas: um gigante sobre o campo

Outro exemplo emblemático é o parque eólico de Roscoe, no Texas, um dos maiores do mundo em número de turbinas. Concluído em 2009, ele reúne 627 turbinas eólicas espalhadas por cerca de 100 mil acres, aproximadamente 40 mil hectares, com capacidade instalada de 781,5 megawatts. O projeto custou mais de 1 bilhão de dólares e mostra como uma área enorme pode continuar com sua vocação rural ao mesmo tempo em que vira uma gigantesca usina de energia.

No oeste do Texas, parques como o de Roscoe ajudaram a revitalizar a economia de regiões remotas, oferecendo aos agricultores uma fonte extra de renda por meio do arrendamento de partes de suas terras. Esse tipo de empreendimento exige uma logística impressionante, com o transporte de pás que medem dezenas de metros e de componentes que pesam dezenas a centenas de toneladas por estradas rurais, muitas vezes com veículos de escolta e rotas planejadas em detalhe.

Por que os agricultores aceitam as turbinas

O principal motivo da adesão dos agricultores é econômico. A agricultura sempre dependeu de fatores instáveis, como o clima, os preços das colheitas e os custos de insumos, de modo que até uma boa safra pode virar prejuízo se o mercado se mover na direção errada. Nesse cenário, os pagamentos de arrendamento das turbinas eólicas funcionam como uma renda mais estável e previsível, muitas vezes com contratos de 20 a 30 anos, sem depender da produção agrícola.

Esse dinheiro também beneficia as comunidades rurais de forma mais ampla. Nos Estados Unidos, projetos de energia eólica e solar contribuíram com bilhões de dólares em impostos locais e estaduais, recursos que podem financiar escolas, estradas e serviços públicos. A energia eólica ainda cria empregos: a função de técnico de manutenção de turbinas está entre as ocupações que mais devem crescer nos próximos anos, segundo projeções do governo americano.

As controvérsias por trás das turbinas

Apesar das vantagens, a expansão das turbinas eólicas em terras agrícolas não é livre de polêmica, e seria incompleto não mencionar isso. A primeira queixa é a mudança na paisagem: estruturas com mais de 100 metros de altura alteram profundamente o visual rural, e para parte dos moradores não são apenas equipamentos de energia, mas instalações industriais no meio do campo. Há também reclamações de ruído, sombras intermitentes das pás e o movimento de caminhões e linhas de transmissão.

Outro ponto sensível é a divisão dentro das próprias comunidades, já que o proprietário que recebe o arrendamento lucra, enquanto vizinhos podem sofrer os incômodos sem ganhar nada em troca. Há ainda o gargalo da rede elétrica, com muita capacidade eólica à espera de conexão, e a questão do descomissionamento: depois de 25 a 30 anos, as turbinas precisam ser modernizadas ou desmontadas, e contratos mal definidos podem deixar dúvidas sobre quem paga pela recuperação do terreno.

O que esse modelo pode ensinar ao Brasil

O modelo americano de fazendas de dois andares dialoga diretamente com a realidade brasileira, já que o Brasil é uma potência agrícola e vem expandindo fortemente a energia eólica, sobretudo no Nordeste. A possibilidade de gerar renda extra com o arrendamento de terras para turbinas, sem abrir mão da produção de alimentos, é um atrativo que já atrai produtores rurais brasileiros, especialmente em áreas de vento constante.

Ao mesmo tempo, as controvérsias observadas nos Estados Unidos servem de alerta para o Brasil, mostrando a importância de contratos transparentes, de regras claras sobre o fim da vida útil dos equipamentos e de um diálogo justo com as comunidades do entorno. Se bem conduzido, esse tipo de convivência entre lavoura e geração de energia pode se tornar um modelo poderoso para o século XXI, capaz de alimentar pessoas e abastecer a economia ao mesmo tempo.

As turbinas eólicas que se erguem sobre as lavouras dos Estados Unidos mostram que produzir alimentos e gerar energia limpa no mesmo terreno não é uma promessa distante, mas uma realidade já em funcionamento. Os dados do USDA confirmam que a terra segue produtiva embaixo das torres, enquanto o vento vira eletricidade no alto. Como toda transformação, o modelo tem prós e contras, e seu sucesso dependerá de equilíbrio entre o interesse dos agricultores, das comunidades e do setor de energia.

Você acha que esse modelo de fazendas de dois andares, com turbinas eólicas convivendo com a lavoura, deveria ser ampliado no Brasil? Acredita que os benefícios econômicos compensam as mudanças na paisagem rural e os incômodos para os vizinhos? Deixe seu comentário, conte o que pensa sobre a energia eólica no campo e compartilhe a matéria com quem se interessa por agronegócio, energia renovável e meio ambiente.

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Bruno Teles

Falo sobre tecnologia, inovação, petróleo e gás. Atualizo diariamente sobre oportunidades no mercado brasileiro. Com mais de 7.000 artigos publicados nos sites CPG, Naval Porto Estaleiro, Mineração Brasil e Obras Construção Civil. Sugestão de pauta? Manda no brunotelesredator@gmail.com

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