Levantamento com dados da ANEEL mostra 10 parques e 235 aerogeradores entrando na fase de atualização tecnológica no estado pioneiro da energia eólica brasileira. As pás de compósitos ainda não têm reciclagem em larga escala no país, mas recicladoras locais e fabricantes globais já se movimentam para evitar que virem montanha de lixo.
O alerta turbinas eólicas sobre as ganhou números concretos em 30 de setembro de 2025, quando a série de reportagens Ciclo dos Ventos, do jornal Tribuna do Norte, publicou um levantamento com base em dados da Agência Nacional de Energia Elétrica, a ANEEL. O cruzamento mostrou que 10 parques eólicos do Rio Grande do Norte, somando 235 aerogeradores e 705 pás, entrarão até 2032 na fase de atualização tecnológica, na qual cada usina precisará ser repotenciada com equipamentos novos ou descomissionada, ou seja, desmontada por completo.
A conta vence agora porque os primeiros parques de turbinas eólicas do estado começaram a operar em 2005 e a vida útil típica desses equipamentos fica entre 20 e 30 anos. Segundo o diretor regional do Senai no Rio Grande do Norte, Rodrigo Mello, em entrevista à Tribuna do Norte, os aerogeradores daquela primeira geração ficaram ultrapassados diante de máquinas atuais com capacidade até sete vezes maior, o que obriga os donos dos parques a decidir entre modernizar ou desmontar suas estruturas no estado que ajudou a inaugurar a energia eólica em escala comercial no Brasil.
Por que as pás das turbinas eólicas são o calcanhar de aquiles da reciclagem

Elas são fabricadas em materiais compósitos, uma combinação de fibra de vidro com resinas plásticas quimicamente coladas, projetada para aguentar décadas de vento forte e intempéries.
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Essa mesma resistência torna a separação dos materiais cara e complexa, e o estudo científico de referência sobre o tema classifica as pás como atualmente consideradas não recicláveis em escala.
Esse estudo, assinado pelos pesquisadores Pu Liu e Claire Barlow, da Universidade de Cambridge, e publicado em 2017 no periódico científico Waste Management, projeta 43 milhões de toneladas de resíduos de pás acumuladas no mundo até 2050.
Pela projeção, que é uma estimativa de cenário e não um fato consumado, a China responderia por 40% desse volume, a Europa por 25% e os Estados Unidos por 16%.
As pás modernas agravam o problema de logística: as maiores já passam de 100 metros de comprimento e costumam ficar em locais remotos, o que encarece o transporte até qualquer destino final.
O que o Rio Grande do Norte já faz com as pás aposentadas

Segundo a Tribuna do Norte, a Recicla RN, comandada pelo empresário Etelvino Patrício, tem capacidade para armazenar 3 mil toneladas de materiais por mês em uma área de 13 mil metros quadrados e se prepara para absorver também o desmonte de parques de outros estados.
Sobre as pás, Patrício foi direto na entrevista ao jornal: o material tem baixo valor agregado e poucas aplicações, e por enquanto a saída encontrada é triturar, segregar e enviar o resíduo para fábricas de cimento, que o aproveitam como combustível e matéria-prima no coprocessamento.
A indústria de reciclagem potiguar já emprega cerca de 5,4 mil pessoas diretamente e 18 mil indiretamente, segundo os dados publicados pela Tribuna do Norte.
O presidente do Sistema Fiern, Roberto Serquiz, declarou ao mesmo jornal que o descomissionamento pode virar porta de entrada para novos negócios no estado, citando a expectativa de uma futura siderúrgica capaz de absorver o aço dos desmontes, projeto que segue no campo das intenções e não das obras.
Fabricantes prometem pás recicláveis mas as metas ainda são anúncios
As gigantes do setor de turbinas eólicas sabem que o passivo ameaça o discurso de energia limpa e começaram a reagir.
Segundo o instituto de engenharia português INEGI, a Siemens Gamesa lançou a RecyclableBlade, apresentada pela empresa como a primeira pá totalmente reciclável do mundo, enquanto a dinamarquesa Vestas anunciou a ambição de produzir turbinas com desperdício zero até 2040 e a LM Wind Power, do grupo GE, traçou a mesma meta para 2030.
Todos esses compromissos são alegações e cronogramas das próprias fabricantes, ainda sem comprovação independente em larga escala.
Fora das fábricas, a reutilização criativa ganha espaço como alternativa parcial.
O INEGI cita o aproveitamento de pás inteiras em pontes, parques infantis, mobiliário urbano e abrigos, soluções que dão sobrevida ao material, mas não resolvem o volume projetado para as próximas décadas, já que cada pá reutilizada é exceção diante das milhares que sairão de operação.
O tamanho do que está em jogo para a energia eólica brasileira

Em 2024, as turbinas eólicas brasileiras geraram 107,6 terawatts-hora, crescimento de 12,2% sobre o ano anterior, volume equivalente a 16,7% de toda a energia injetada no Sistema Interligado Nacional, de acordo com a ABEEólica.
O Nordeste concentra a maior parte dessa geração, e é exatamente lá que a primeira onda de desmontes vai acontecer.
A própria ABEEólica reconhece que o debate sobre descomissionamento ainda é recente no Brasil.
Segundo a associação, em posicionamento à Tribuna do Norte, fabricantes e operadores buscam referências em países que já executam desmontes de parques para adaptar as soluções à realidade nacional.
A janela de tempo existe: a maior parte das 705 pás potiguares só sai de operação ao longo dos próximos anos, e a decisão entre repotenciar ou descomissionar cada parque ainda depende de análise econômica caso a caso, conforme explicou o Senai à reportagem.
A energia limpa também precisa resolver o próprio lixo
A história das turbinas eólicas repete o roteiro que o setor já viu com as baterias de carros elétricos e os painéis solares: a tecnologia que resolve um problema ambiental cria outro que precisa ser administrado a tempo.
A diferença é que, no caso das pás, o Brasil tem a chance de montar a cadeia de reciclagem antes de a montanha de resíduos se formar, transformando o fim da vida útil dos parques em indústria, emprego e matéria-prima.
E você, acredita que o Brasil vai conseguir estruturar a reciclagem das pás antes de o problema crescer ou vamos repetir os erros de outros setores? Deixe sua opinião nos comentários e participe da conversa, sempre com respeito às diferentes opiniões.

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