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Uma das maiores produtoras de etanol do Brasil virou a maior dona de floresta plantada do Mato Grosso, com quase 100 mil hectares de eucalipto e bambu, o objetivo não é vender madeira, mas queimar essa floresta energética e mover suas usinas sem combustível fóssil

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Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges Publicado em 01/07/2026 às 22:57 Atualizado em 01/07/2026 às 23:00
Floresta energética: a FS plantou quase 100 mil hectares de eucalipto e bambu em Mato Grosso para queimar como biomassa e mover suas usinas de etanol.
Floresta energética: a FS plantou quase 100 mil hectares de eucalipto e bambu em Mato Grosso para queimar como biomassa e mover suas usinas de etanol.
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A FS aposta em plantar árvores em escala de gigante de celulose só para transformar em biomassa e abastecer suas usinas de etanol de milho

A ideia de uma floresta energética plantada por uma usina de álcool soa estranha, mas é exatamente o que a FS está construindo em Mato Grosso. A empresa, uma das maiores produtoras de etanol do Brasil, montou quase 100 mil hectares de eucalipto e bambu com um único objetivo: queimar essa madeira como biomassa para gerar a energia que move suas fábricas.

Não é para vender celulose nem madeira serrada. É combustível verde plantado no chão. Uma produtora de combustível resolveu plantar a própria fonte de energia, virando, de quebra, a maior operadora de floresta plantada do estado.

De usina de álcool a gigante da floresta energética

O que torna a história surpreendente é o cruzamento de dois mundos que raramente se encontram. De um lado, a produção de etanol de milho, ligada ao agronegócio de grãos. De outro, a silvicultura em larga escala, normalmente domínio das gigantes de papel e celulose.

A FS juntou os dois. Ao plantar floresta para se abastecer de energia, ela deixou de ser apenas uma indústria de combustível e passou a operar como uma empresa florestal de porte nacional. É um movimento de verticalização radical: em vez de comprar energia, a empresa a cultiva.

Segundo a The AgriBiz, a companhia consolida sua posição como a maior operadora de florestas plantadas em Mato Grosso, responsável por cerca de metade da área total do estado nesse tipo de cultivo. Um número que a coloca em outra liga.

Quase 100 mil hectares só para queimar

A escala é o que impressiona. A meta é chegar a 100 mil hectares de florestas plantadas até o fim de 2026, e a empresa já ultrapassou os 90 mil hectares. É uma área equivalente à de grandes projetos florestais tradicionais do país.

O bambu, de ciclo mais curto que o eucalipto, entra na conta da biomassa da empresa.
O bambu, de ciclo mais curto que o eucalipto, entra na conta da biomassa da empresa.

Para dar dimensão, esse plantio representa cerca de um quarto da área florestal de uma gigante como a Klabin, referência nacional em floresta plantada. Fazer isso não para produzir papel, mas para gerar energia própria, é o que dá o tom inédito da aposta. É floresta de indústria, plantada com régua e propósito energético.

Cada hectare foi pensado como estoque de combustível renovável. Em vez de tanques de óleo, a FS acumula árvores em pé, prontas para virar calor e energia nas suas plantas.

Metade da floresta plantada de um estado inteiro

Ser responsável por cerca de metade de toda a floresta plantada de Mato Grosso não é detalhe. Significa que uma única empresa, e por um motivo específico, redesenhou o mapa da silvicultura de um dos maiores estados agrícolas do Brasil.

Mato Grosso é conhecido pela soja, pelo milho e pela pecuária, não pela floresta plantada. A entrada da FS nesse jogo cria uma nova vocação para o estado e mostra como a demanda por energia renovável pode transformar o uso da terra. Onde havia só grão, agora há também floresta com destino energético.

Esse protagonismo dá à empresa controle sobre um insumo estratégico. Quem tem a floresta tem a energia, e quem tem energia própria tem custo previsível e menos exposição a combustíveis importados.

Por que uma usina de etanol precisa de floresta

A explicação está no processo industrial. Produzir etanol de milho consome muita energia térmica, na forma de calor e vapor para as etapas de fermentação e destilação. Tradicionalmente, esse calor vem de combustíveis fósseis, como carvão e óleo combustível, queimados em caldeiras.

A FS trocou essa lógica. Ao usar biomassa de eucalipto e bambu como combustível das caldeiras, a empresa substitui o fóssil por uma fonte renovável e de baixa emissão, plantada localmente. A floresta vira o coque verde que aquece a usina.

O ganho é duplo: reduz a pegada de carbono do etanol produzido e blinda a empresa contra a volatilidade de preço dos combustíveis fósseis. É sustentabilidade que também faz sentido financeiro.

Eucalipto e bambu: a dupla da biomassa

A escolha das espécies revela estratégia. A maior parte do plantio é de eucalipto, campeão de produtividade em biomassa no Brasil. Mas a empresa também aposta em cerca de 13 mil hectares de bambu, que tem um ciclo bem mais curto.

Enquanto o eucalipto leva por volta de seis anos até o corte, o bambu pode ser colhido em torno de três anos. Misturar as duas espécies é como diversificar prazos de uma carteira: garante fluxo constante de biomassa e reduz o risco de faltar combustível em algum ano.

Essa engenharia agrícola mostra que a floresta energética não é improviso, e sim um sistema calculado para alimentar as usinas de forma contínua e previsível ao longo das safras.

R$ 2 bilhões plantados no chão

Montar uma floresta desse tamanho custa caro. O investimento estimado é da ordem de R$ 20 mil por hectare, o que leva o total a cerca de R$ 2 bilhões para os 100 mil hectares planejados. É capital de longo prazo, imobilizado literalmente na terra.

Para financiar essa aposta, a empresa recorreu ao mercado, emitindo mais de R$ 1,5 bilhão em CRAs, os certificados de recebíveis do agronegócio. Transformar floresta em ativo financeiro é o que viabiliza plantar energia em escala industrial.

Esse volume de recursos mostra que a biomassa deixou de ser subproduto barato e virou investimento estratégico central, tratado com o mesmo peso de uma nova fábrica.

Por que isso importa para o Brasil

A biomassa alimenta as caldeiras das usinas de etanol, substituindo fontes fósseis.
A biomassa alimenta as caldeiras das usinas de etanol, substituindo fontes fósseis.

O caso da FS ilumina um caminho para descarbonizar a indústria pesada brasileira. Muitos setores que precisam de calor intenso ainda dependem de fóssil, e a biomassa florestal plantada é uma das alternativas renováveis mais viáveis para substituí-lo.

O Brasil tem clima, terra e conhecimento para produzir biomassa em abundância, o que dá ao país uma vantagem natural nessa corrida. Plantar energia é algo que poucos países conseguem fazer na escala que o Brasil consegue. É a força do agronegócio aplicada à transição energética.

Se o modelo der certo e se espalhar, a floresta energética pode se tornar peça-chave para tornar o etanol e outros produtos industriais brasileiros ainda mais limpos e competitivos no mercado global.

Os desafios: terra, água e monocultura

Nem tudo é simples. Plantar floresta em escala gigante levanta questões sobre uso da terra, competição com outras culturas, consumo de água e os efeitos da monocultura de eucalipto sobre o solo e a biodiversidade local.

Fazer isso de forma sustentável exige manejo cuidadoso, escolha correta de áreas, respeito a mananciais e integração com a paisagem. Energia renovável não é sinônimo automático de impacto zero, e a floresta energética precisa provar que fecha a conta ambiental de ponta a ponta.

Ainda assim, a virada é poderosa e contraintuitiva: uma produtora de combustível virou dona de metade da floresta plantada de um estado só para queimar madeira em vez de fóssil. Se plantar a própria energia já é realidade para uma usina de etanol, quantas outras indústrias poderiam trocar o tanque de óleo por um bosque?

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Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

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