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Espanha e Portugal estão sobre uma terra que gira devagar no sentido horário, num movimento de poucos milímetros por ano causado pela colisão entre as placas africana e euro-asiática, segundo um estudo que mapeou com precisão inédita as tensões tectônicas do Mediterrâneo Ocidental

Escrito por Bruno Teles
Publicado em 23/05/2026 às 22:23
Atualizado em 23/05/2026 às 22:25
Estudo mostra que a colisão entre as placas africana e euro-asiática faz a Península Ibérica girar no sentido horário, poucos milímetros por ano. Entenda o fenômeno.
Estudo mostra que a colisão entre as placas africana e euro-asiática faz a Península Ibérica girar no sentido horário, poucos milímetros por ano. Entenda o fenômeno.
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O giro é tão lento que avança menos do que uma unha cresce, e o mais curioso é que inverteu o sentido da história geológica passada da região. Pesquisadores cruzaram décadas de terremotos com posições de satélite para chegar a essa conclusão, que ajuda a mapear falhas capazes de gerar tremores no sul da Ibéria.

Espanha e Portugal estão sobre uma terra que gira lentamente no sentido horário, num movimento de apenas poucos milímetros por ano causado pela colisão entre as placas tectônicas africana e euro-asiática. A conclusão é de um estudo publicado na revista científica Gondwana Research, em janeiro de 2026, que mapeou com precisão inédita as tensões tectônicas do Mediterrâneo Ocidental, na região onde as duas grandes placas se encontram, ao sul da Península Ibérica.

A pesquisa foi liderada pelo geólogo Asier Madarieta-Txurruka, da Universidade de Granada e da Universidade do País Basco, na Espanha, e combinou dois tipos de dados para reconstruir como a crosta terrestre está se deformando hoje. Segundo os autores, a placa euro-asiática e a africana se aproximam cerca de 4 a 6 milímetros por ano, um avanço mais lento do que o crescimento de uma unha, e é essa pressão constante e desigual que faz a Península Ibérica girar devagar como um bloco.

Como o estudo descobriu a rotação das placas

Estudo mostra que a colisão entre as placas africana e euro-asiática faz a Península Ibérica girar no sentido horário, poucos milímetros por ano. Entenda o fenômeno.
Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores cruzaram duas fontes de informação fundamentais da geodinâmica moderna.

De um lado, analisaram os mecanismos focais de terremotos, que revelam como a rocha se fraturou durante cada tremor e que tipo de tensão atua em profundidade. De outro, usaram dados de GNSS, sistemas de posicionamento por satélite parecidos com o GPS, capazes de medir deslocamentos minúsculos na superfície da Terra, na escala de milímetros.

Esses dados de satélite vieram de redes de monitoramento como a EUREF e a espanhola ERGNSS, além de agências parceiras em Portugal e no Marrocos. Ao combinar os campos de tensão sísmica com as taxas de deformação medidas por satélite, a equipe produziu mapas das tensões tectônicas e da deformação da superfície com uma resolução muito mais detalhada do que a disponível anteriormente, oferecendo um retrato atual de como as placas interagem na região.

Por que a Península Ibérica gira no sentido horário

O movimento de rotação acontece porque a convergência entre as placas euro-asiática e africana ocorre de forma oblíqua em relação à margem sudoeste da Península Ibérica. Em vez de um empurrão frontal e uniforme, a pressão chega num ângulo, e isso, combinado com a estrutura geológica complexa da região, gera uma espécie de torque, uma força de torção que faz o bloco ibérico girar lentamente no sentido horário.

Um detalhe que enriquece a descoberta é que esse giro horário representa uma inversão em relação ao passado geológico da região, que já girou no sentido contrário ao longo de sua longa história. Vale lembrar que a Península Ibérica funciona como um sistema tectônico complexo, em que fragmentos de crosta de diferentes idades e características interagem. O limite entre as placas, nessa área, não é uma linha de falha única e clara, mas uma zona difusa de tensões distribuídas.

Os quatro setores tectônicos do Mediterrâneo Ocidental

O estudo dividiu a região em quatro setores tectônicos principais, cada um respondendo de forma diferente à pressão entre a África e a Eurásia: o Atlântico, o de Gibraltar, o de Alborão e o Argelino-Baleárico. No setor Atlântico, as tensões são transmitidas de forma mais direta entre as duas placas, com um contato mais nítido entre elas.

Já mais a leste, parte dessa energia é absorvida em áreas onde a crosta terrestre é mais fina, especialmente no Mar de Alborão e ao longo das margens continentais do Arco de Gibraltar e da Cordilheira de Tell, no norte da África. Os pesquisadores também identificaram atividade tectônica em regiões do interior, longe dos principais limites das placas, que apresentam baixas taxas de deformação, mas ainda registram compressão regional, incluindo áreas tradicionalmente vistas como estáveis, como o interior ibérico e os Pireneus.

O que isso significa para o risco de terremotos

Além de confirmar e quantificar a rotação, a pesquisa tem uma aplicação prática direta na avaliação do risco sísmico. Ao entender melhor como as tensões se distribuem ao longo desse limite difuso entre as placas, os cientistas podem identificar quais falhas e estruturas geológicas têm maior potencial de gerar terremotos, qual seria a magnitude possível desses tremores e como a crosta tende a se mover na região.

Isso é especialmente relevante porque o sul da Península Ibérica e o norte da África já têm histórico de terremotos significativos, e a região do contato entre as placas chega a ser apontada como capaz de gerar grandes tsunamis. Construir um banco de dados mais completo das falhas ativas e integrar diferentes fontes de informação, como fez este estudo, ajuda a melhorar os modelos de previsão e a calcular a deformação até em áreas pouco estudadas, o que tem valor concreto para a proteção das populações.

Uma fotografia do presente, não uma certeza fechada

Apesar da precisão inédita, os próprios autores fazem ressalvas importantes que merecem ser destacadas, em nome do rigor. O estudo é descrito como uma pequena janela sobre a evolução geológica, ou seja, um retrato instantâneo de um processo que se desenrola ao longo de milhões de anos. O que os satélites e os terremotos mostram hoje é o quadro mais claro já obtido, mas ainda assim limitado a poucas décadas de observação.

Os pesquisadores também alertam que, em algumas áreas, as direções de tensão indicadas pelos terremotos e pela deformação medida por satélite nem sempre coincidem perfeitamente. Por isso, recomendam cautela para não superinterpretar padrões fracos em regiões com poucas estações de monitoramento. Trata-se, portanto, de um avanço de alta resolução, mas com incertezas reconhecidas, e não de uma conclusão definitiva e fechada sobre o comportamento das placas.

A descoberta de que a Península Ibérica gira lentamente no sentido horário, empurrada pela colisão entre as placas africana e euro-asiática, é um lembrete fascinante de que o chão sob nossos pés, mesmo parecendo sólido e imóvel, está sempre em movimento. Mais do que uma curiosidade, o estudo oferece ferramentas valiosas para entender o risco de terremotos no Mediterrâneo Ocidental, mostrando como a ciência consegue captar, milímetro a milímetro, a lenta dança dos continentes ao longo do tempo geológico.

Você sabia que continentes inteiros podem girar lentamente por causa do movimento das placas tectônicas? O que mais te impressiona ao pensar que a terra sob Espanha e Portugal se move alguns milímetros por ano? Deixe seu comentário, conte o que achou dessa descoberta e compartilhe a matéria com quem se interessa por geologia, ciência e os mistérios do nosso planeta.

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Bruno Teles

Falo sobre tecnologia, inovação, petróleo e gás. Atualizo diariamente sobre oportunidades no mercado brasileiro. Com mais de 7.000 artigos publicados nos sites CPG, Naval Porto Estaleiro, Mineração Brasil e Obras Construção Civil. Sugestão de pauta? Manda no brunotelesredator@gmail.com

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