Japão revisa sua política nuclear diante do avanço da inteligência artificial, do peso das importações de energia e da necessidade de manter fornecimento estável para data centers, indústrias e consumidores nas próximas décadas.
O governo do Japão prepara uma nova etapa de retomada da energia nuclear, com a substituição de reatores antigos e a ampliação do papel das usinas atômicas na matriz elétrica, diante do aumento previsto no consumo de energia por centros de dados, inteligência artificial e atividades industriais.
A proposta do Ministério da Economia, Comércio e Indústria prevê reconstruir de dois a cinco reatores até a década de 2040 e elevar esse número para até 14 unidades até a década de 2050, segundo informações divulgadas pela NHK e reportadas pela Reuters.
A medida representa uma mudança na política energética japonesa, que passou mais de uma década com restrições ao setor nuclear depois do desastre de Fukushima, em 2011, quando todos os 54 reatores então em operação foram desligados.
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Japão busca reduzir custo de importações de energia
A retomada nuclear ocorre em meio à preocupação do governo com a segurança do abastecimento e com o peso das importações de combustíveis fósseis, especialmente gás natural, petróleo e carvão, que ainda respondem por parte expressiva da geração elétrica japonesa.
Sem grandes reservas próprias de combustíveis fósseis, o país depende de compras externas para abastecer parte relevante de sua matriz energética, condição que expõe empresas e consumidores a oscilações de preços e riscos ligados ao mercado internacional.
O plano energético aprovado pelo governo japonês em fevereiro de 2025 projeta que a energia nuclear responda por cerca de 20% da geração elétrica no ano fiscal de 2040, dentro de uma matriz que também prevê avanço das fontes renováveis.
No ano fiscal de 2024, a participação nuclear ficou em torno de 9% da eletricidade gerada no país, segundo dados citados pela Administração de Informação de Energia dos Estados Unidos, percentual ainda distante da meta definida para 2040.
Reatores antigos pressionam a estratégia energética
Depois de Fukushima, o Japão endureceu regras de segurança e criou um processo mais rigoroso para autorizar a volta das usinas, o que prolongou a reativação das unidades e ampliou a necessidade de avaliações técnicas e regulatórias.
Entre os 33 reatores considerados operáveis, 15 já foram religados desde a paralisação geral determinada após o acidente de 2011, enquanto outras unidades seguem paradas ou dependem de autorizações para voltar a produzir eletricidade.
Parte dos reatores japoneses se aproxima do fim da vida útil regulatória, estimada em até 60 anos, cenário que pode reduzir a capacidade nuclear disponível mesmo que novas autorizações de religamento sejam concedidas nos próximos anos.
Com metas de substituição mais definidas, o Ministério da Economia, Comércio e Indústria busca ampliar a previsibilidade para as companhias elétricas, que precisam planejar investimentos de longo prazo em um setor de alto custo e forte exigência regulatória.
Inteligência artificial aumenta pressão sobre a rede
A expansão de centros de dados voltados à inteligência artificial entrou no debate energético japonês porque essas estruturas demandam fornecimento contínuo, grande capacidade elétrica e estabilidade operacional, especialmente em períodos de alta demanda da rede.
O 7º Plano Estratégico de Energia do Japão aponta o crescimento dos data centers, a eletrificação da economia e o avanço de setores digitais como fatores associados ao aumento projetado no consumo de eletricidade até 2040.
Pelas projeções oficiais, a geração elétrica japonesa pode chegar a algo entre 1,1 trilhão e 1,2 trilhão de kWh no ano fiscal de 2040, em um cenário de maior demanda industrial e tecnológica.
Nesse desenho energético, o governo classifica a energia nuclear como fonte capaz de fornecer eletricidade em larga escala e com baixa emissão direta de carbono, ao mesmo tempo em que prevê ampliar renováveis e reduzir a geração térmica.
Meta nuclear convive com resistência pública
A política de reconstrução de reatores ocorre em um setor ainda marcado por questionamentos sociais e políticos, especialmente por causa do desastre de Fukushima e dos debates sobre segurança nuclear em áreas sujeitas a riscos naturais.
Além da memória do acidente, autoridades e empresas precisam atender exigências regulatórias, avaliações de risco sísmico, negociações com governos locais e custos de modernização ou substituição de instalações construídas há décadas.
A orientação recente de Tóquio prevê maximizar o uso de reatores considerados seguros pelas autoridades competentes, em contraste com a diretriz anterior, que indicava redução da dependência nuclear no médio e longo prazo.
A estratégia também inclui o fortalecimento das renováveis, cuja participação prevista para 2040 fica entre 40% e 50% da matriz elétrica, enquanto a geração térmica deve cair para uma faixa entre 30% e 40%.
Reconstrução nuclear depende de aprovação formal
A proposta de reconstrução dos reatores foi preparada para discussão em reunião sobre política nuclear e deve passar por adoção formal em encontro ministerial, de acordo com a NHK, citada pela Reuters.
Pelos números divulgados, a capacidade adicional associada à substituição de unidades antigas pode chegar a cerca de 16 gigawatts até a década de 2050, caso a diretriz avance para projetos aprovados e executados.
Reconstruir reatores envolve substituir instalações próximas do limite operacional por unidades mais novas, processo diferente do religamento de plantas já existentes e sujeito a etapas regulatórias, licenciamento, definição de local e planejamento financeiro.
Na prática, a política energética japonesa reúne três frentes: ampliar a oferta para uma economia mais digitalizada, reduzir a dependência de combustíveis importados e recompor parte da geração nuclear sob as regras de segurança vigentes.
A decisão final sobre cada projeto ainda dependerá de aprovações regulatórias, avaliação técnica, posição das comunidades locais e capacidade das empresas de energia de financiar obras que costumam se estender por vários anos.

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