Apesar da proximidade histórica com Washington por rivalizar com a China, Índia aproveita sanções de Trump e ganha protagonismo no BRICS em expansão.
A Índia sempre foi vista como um dos países do BRICS com maior proximidade estratégica dos Estados Unidos, especialmente por conta da rivalidade histórica com a China.
Entretanto, as sanções e barreiras impostas pelo presidente norte-americano acabaram gerando o efeito contrário ao esperado: em vez de enfraquecer a influência chinesa, fortaleceram a posição da Índia dentro do grupo econômico.
Foi nesse contexto que Nova Délhi aproveitou a reunião de chanceleres do BRICS, realizada na sexta-feira à margem da Assembleia Geral da ONU, para defender o multilateralismo e cobrar respeito ao direito internacional, em um recado claro à política protecionista de Washington.
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Recado indireto a Washington
O ministro das Relações Exteriores indiano, S. Jaishankar, não mencionou diretamente os Estados Unidos, mas deixou o alvo evidente.
Ele ressaltou que o aumento do protecionismo, da volatilidade tarifária e das barreiras não tarifárias está afetando os fluxos comerciais globais, e pediu que o BRICS reforce sua defesa do sistema multilateral.
Segundo ele, em um mundo turbulento, o bloco deve reafirmar o compromisso com o diálogo, a diplomacia, a construção da paz e a adesão ao direito internacional. Sob a presidência indiana, que Jaishankar assumiu, as prioridades incluem segurança alimentar e energética, mudanças climáticas e desenvolvimento sustentável.
O posicionamento acontece no momento em que o presidente norte-americano ataca com frequência a legitimidade do BRICS e demonstra hostilidade a organizações internacionais como a ONU, a União Europeia e a Otan.
Ele também tem minimizado os efeitos das mudanças climáticas e ordenado ações militares contra embarcações na América do Sul e no Caribe, alegando combate ao narcotráfico.
Expansão do BRICS e ameaça percebida pelos EUA
O BRICS, que começou com quatro integrantes, hoje reúne dez membros plenos: Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Egito, Etiópia, Irã, Emirados Árabes Unidos e Indonésia. Além disso, dez países atuam como parceiros e outros dez já solicitaram adesão formal, com uma dúzia manifestando interesse em integrar o bloco.
Essa expansão incomoda os Estados Unidos, que veem no fortalecimento do BRICS uma ameaça à primazia econômica americana e, principalmente, ao papel do dólar como moeda de reserva global. Apesar de a Índia ter deixado claro que não apoia a desdolarização, o presidente norte-americano reagiu com ameaças, prometendo tarifas de até 100% caso o grupo avance na criação de uma nova moeda ou apoie alternativas ao dólar.
Em uma publicação feita após sua vitória eleitoral de 2024, ele afirmou que não permitirá que o BRICS reduza a influência da moeda americana e alertou que, caso isso aconteça, os países do bloco “se despedirão” do acesso ao mercado norte-americano.
Agenda paralela: IBSA e encontros bilaterais
Jaishankar também coordenou, paralelamente, a reunião ministerial do IBSA — formado por Índia, Brasil e África do Sul — que defendeu uma reforma transformadora do Conselho de Segurança da ONU. O grupo também discutiu exercícios marítimos conjuntos, o Fundo de Confiança e o fortalecimento do comércio entre seus integrantes.
Além disso, o chanceler indiano se reuniu com diversos colegas estrangeiros, incluindo o ministro russo Sergei Lavrov, consolidando a estratégia de ampliar o diálogo diplomático enquanto cresce a pressão externa contra o bloco.
