Apiwe Nxusani-Mawela transformou a Tolokazi Brewery em símbolo de inclusão na África do Sul ao unir ciência, tradição africana e formação profissional para mulheres na indústria cervejeira
Apiwe Nxusani-Mawela se tornou uma das vozes mais conhecidas da transformação da indústria cervejeira na África do Sul. Fundadora da Tolokazi Brewery, ela é apontada como a primeira mulher negra a comandar uma cervejaria no país, em um setor historicamente marcado pela presença masculina nas fábricas e cargos de liderança.
A trajetória chama atenção porque contrasta com a própria história da cerveja africana. Durante gerações, a produção tradicional de bebidas fermentadas, como o umqombothi, esteve ligada ao conhecimento das mulheres dentro das famílias e comunidades.
Agora, Apiwe tenta aproximar esse passado do presente. Sua proposta é mostrar que a cerveja artesanal africana pode ser uma área de ciência, negócio, identidade cultural e formação profissional, sem apagar as técnicas ancestrais que deram origem a parte importante dessa tradição.
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Segundo informações do NeoFeed, a empreendedora criou a Tolokazi em 2019 e passou a trabalhar com uma equipe majoritariamente feminina. A marca utiliza ingredientes associados ao continente africano, como sorgo maltado, rooibos, hibisco, marula e lúpulos locais, em receitas que buscam reforçar uma identidade própria.
Quem é Apiwe Nxusani-Mawela e por que sua trajetória ganhou destaque
Nascida em Butterworth, na província de Eastern Cape, Apiwe cresceu em contato com a produção caseira de cerveja em eventos familiares. Essa experiência, comum em muitas comunidades sul-africanas, mais tarde se conectou à sua formação acadêmica e à carreira profissional.
De acordo com a Universidade de Pretória, Apiwe tem formação em microbiologia e concluiu estudos avançados na área. A instituição também destaca que ela completou diplomas técnicos ligados à produção de bebidas fermentadas e se tornou certificada para atuar como avaliadora de cerveja.
Antes de abrir o próprio caminho, a sul-africana passou pela South African Breweries, uma das empresas mais tradicionais do setor. Essa experiência em ambiente industrial deu a ela base técnica para unir controle de qualidade, fermentação, ingredientes locais e empreendedorismo.
Tolokazi Brewery aposta em ingredientes africanos e tenta criar uma identidade própria
A Tolokazi foi lançada como uma marca de cervejas e cidras com inspiração africana. No site oficial da empresa, a cervejaria informa que sua linha destaca ingredientes indígenas, incluindo sorgo, lúpulo African Queen e rooibos, para refletir a diversidade cultural da comunidade.

O nome Tolokazi também carrega simbolismo. Segundo a própria marca, ele está ligado ao nome de clã de Apiwe, uma referência importante dentro da cultura Xhosa. A escolha reforça a intenção de transformar a cervejaria em um projeto de identidade, não apenas em uma empresa de bebidas.
Essa proposta aparece com força no uso do sorgo. O cereal está associado ao umqombothi, bebida tradicional sul-africana feita com milho e sorgo maltado, historicamente presente em rituais, reuniões familiares e celebrações comunitárias.
Pesquisadores ligados à Universidade de Johannesburg descreveram o umqombothi como parte da vida social, econômica e cultural da África do Sul. O estudo também aponta que a produção em pequena escala enfrenta desafios de padronização e segurança, o que ajuda a explicar por que conhecimento técnico e formação profissional se tornaram pontos centrais para iniciativas modernas.
Brewsters Academy treina jovens e tenta abrir espaço em um setor concentrado
Além da Tolokazi, Apiwe também está ligada à Brewsters Academy, projeto voltado à formação de novos profissionais da produção cervejeira. Conforme informou a AP, a academia treinou jovens graduados negros, em sua maioria mulheres, em um programa prático e teórico em Joanesburgo.
A iniciativa tenta enfrentar um problema estrutural. Mesmo em um país onde a tradição caseira de fermentação teve forte presença feminina, a indústria formal continua dominada por grandes empresas e por lideranças majoritariamente masculinas.
A formação oferecida pela academia inclui fundamentos científicos da produção, análise de matéria-prima, controle de fermentação e prática em equipamentos. Para Apiwe, a presença de mulheres negras nesse ambiente precisa deixar de ser exceção e virar parte normal da cadeia produtiva.
Esse ponto é relevante porque a cerveja, além de produto cultural, também movimenta uma cadeia econômica ampla. A AP citou dados da Oxford Economics indicando que o setor cervejeiro sul-africano sustenta mais de 200 mil empregos e contribui com cerca de US$ 5,2 bilhões para o PIB do país.
A história da cerveja também passa pelas mulheres
A tentativa de Apiwe de “reescrever” a história da cerveja não significa inventar uma nova narrativa. O objetivo é recuperar um protagonismo que, em muitos lugares, foi reduzido quando a produção deixou o espaço doméstico e passou a ser controlada por estruturas industriais.
Na África do Sul, a produção tradicional de cervejas de sorgo permaneceu ligada a conhecimentos passados entre mulheres. Esse saber envolvia observação, tempo de fermentação, uso de grãos e adaptação às condições locais.
Com a industrialização, parte desse conhecimento ficou fora dos espaços formais de inovação e negócio. A Tolokazi tenta fazer o caminho inverso ao levar ingredientes e referências tradicionais para uma estrutura profissional, com padrão de produção e linguagem de mercado.
A estratégia também dialoga com uma tendência global. Levantamento da Oxford Economics sobre o setor mostrou que a cadeia da cerveja teve impacto de US$ 878 bilhões no PIB mundial em 2023 e sustentou 33 milhões de empregos, considerando produção, agricultura, distribuição, bares, restaurantes e fornecedores.
Nesse contexto, a presença de mulheres, especialmente mulheres negras, ganha dimensão econômica e simbólica. A história de Apiwe mostra que inclusão não é apenas uma pauta social, mas também uma forma de ampliar formação técnica, inovação e participação em mercados antes pouco acessíveis.
Tradição, ciência e responsabilidade caminham juntas no debate
A trajetória da sul-africana também mostra como a produção cervejeira envolve conhecimento científico. Fermentação, controle de temperatura, qualidade microbiológica e seleção de insumos são etapas técnicas que exigem formação e cuidado.
Ao mesmo tempo, o debate não deve ser confundido com incentivo ao consumo. A cerveja é um produto alcoólico, com venda e consumo sujeitos a restrições legais, e a relevância da história está na indústria, na cultura, na inclusão profissional e na preservação de saberes tradicionais.
A importância de Apiwe Nxusani-Mawela está justamente em conectar esses pontos. Ela atua em uma área economicamente relevante, resgata uma tradição feminina e africana e tenta criar caminhos para que novas profissionais participem de uma cadeia que movimenta ciência, agricultura, indústria e serviços.
O caso da Tolokazi Brewery indica que a cerveja artesanal africana pode ser vista além da prateleira. Ela também revela disputas por memória, identidade, trabalho e reconhecimento em um mercado que ainda tenta equilibrar tradição e modernidade.

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