Primeira usina de São Paulo para dessalinizar água do mar promete ampliar em 22% o abastecimento da ilha, atacar a crise hídrica e inaugurar a era da “água infinita” no litoral brasileiro
Ilhabela, um dos destinos mais desejados do litoral paulista, se prepara para dessalinizar água do mar com uma usina pioneira da Sabesp que deve ficar pronta até 2026 e promete garantir água potável justamente nos períodos em que as torneiras costumam secar. A ideia é usar o oceano como fonte estratégica de abastecimento, em um projeto que pode mudar a forma como o Brasil lida com a escassez de água nas cidades costeiras.
Em feriados e alta temporada, a população salta de 35 mil para mais de 100 mil pessoas, pressionando um sistema que ainda deixa cerca de 8.779 moradores sem acesso à água tratada. A nova estrutura, instalada na foz do ribeirão Água Branca, terá capacidade de produzir 30 litros de água potável por segundo, suficiente para abastecer cerca de 8 mil pessoas e representar um aumento de aproximadamente 22% na oferta atual de água na ilha, abrindo caminho para um novo padrão de abastecimento no litoral norte paulista.
A crise de água escondida no paraíso
Por fora, Ilhabela é cartão postal: praias cristalinas, montanhas cobertas de Mata Atlântica e um clima de refúgio perfeito a poucas horas da maior metrópole do país. Por dentro, porém, a realidade é bem menos romântica. A escassez crônica de água potável já faz parte do cotidiano de milhares de moradores, que convivem com torneiras secas justamente nos meses de maior calor e movimento.
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Durante feriados prolongados e no verão, a ilha praticamente muda de escala. A população quase triplica, indo de cerca de 35 mil moradores fixos para mais de 100 mil pessoas circulando pelas ruas, praias e pousadas. É como se uma nova cidade surgisse da noite para o dia, exigindo um volume de água que simplesmente não existe hoje. Nesse cenário, não surpreende o dado preocupante: aproximadamente 8.779 habitantes ainda não têm acesso à água tratada.
Segundo o Censo 2022 do IBGE, cerca de 83,05% da população de Ilhabela recebe água potável pela rede geral de distribuição. Quando se olha para o acesso aos serviços públicos de abastecimento de água como um todo, o índice cai para cerca de 74,87%. Ou seja, mesmo em um dos destinos mais cobiçados do litoral, a água tratada ainda não chega para todos.
Some a isso o isolamento geográfico. Ilhabela é um arquipélago acessível apenas por balsas que partem de São Sebastião, o que torna qualquer ampliação de infraestrutura mais complexa e cara. Apesar de estar cercada por mananciais e por uma das maiores áreas preservadas de Mata Atlântica, a ilha vive um paradoxo: tem água ao redor, mas enfrenta dificuldade para transformar esse potencial em abastecimento seguro e contínuo.
A primeira usina paulista para dessalinizar água do mar

Foi diante desse cenário que o governo do estado, por meio da Sabesp, decidiu dar um passo inédito: em 2023, lançou o edital para construir a primeira usina de dessalinização de água marinha de São Paulo.
A escolha de Ilhabela não foi por acaso. Além da crise hídrica local, a ilha funciona como um laboratório perfeito para testar uma solução que pode ser replicada em outros pontos do litoral brasileiro.
O local da obra também é estratégico. A usina será implantada na foz do ribeirão Água Branca, com acesso direto ao mar, perto da infraestrutura urbana e integrada ao sistema de abastecimento já existente.
A meta é simples de explicar e ambiciosa de realizar: transformar água do mar em água potável todos os dias, de forma contínua e controlada.
A usina terá capacidade para produzir até 30 litros de água potável por segundo, o suficiente para abastecer cerca de 8 mil pessoas. Isso representa um aumento de aproximadamente 22% na capacidade atual da Sabesp na região.
A estrutura vai reunir unidades de captação, sistemas de pré-tratamento e filtração, módulos de osmose reversa, etapas de remineralização e, por fim, bombeamento até os reservatórios que distribuem a água para casas, comércios e serviços.
Do ponto de vista econômico, a construção da usina deve gerar cerca de 300 empregos diretos e indiretos, envolvendo engenheiros, técnicos, operadores, trabalhadores da construção civil e equipes de apoio.
É um projeto que combina infraestrutura, tecnologia e geração de renda em uma região altamente dependente do turismo.
A obra integra os investimentos do novo PAC, o Programa de Aceleração do Crescimento, e foi priorizada por unir alto impacto social, viabilidade ambiental e inovação tecnológica.
A aposta é clara: se der certo em Ilhabela, o modelo poderá ser levado a outras cidades do litoral paulista e, depois, a regiões do Nordeste que sofrem com estiagens cada vez mais severas.
Como a tecnologia vai dessalinizar água do mar em Ilhabela
Na prática, a usina de Ilhabela vai dessalinizar água do mar usando a tecnologia de osmose reversa, já aplicada em vários países com escassez hídrica.
Primeiro, a água do mar é captada por tubulações submarinas e passa por um pré-tratamento, que remove areia, algas, sedimentos e micro-organismos. É uma espécie de “peneira” antes da etapa mais delicada.
Depois, na osmose reversa, bombas de alta pressão empurram a água salgada por membranas especiais, que barram sais e impurezas. Do outro lado, sai uma água purificada, com até 99% dos sais removidos.
Em seguida, essa água é remineralizada com cálcio e magnésio para ajustar o pH e a qualidade para consumo humano. A salmoura concentrada gerada no processo é devolvida ao mar de forma diluída, com controle e monitoramento ambiental.
Toda a estrutura será integrada à Estação de Tratamento de Água Água Branca e alimentada pela rede elétrica, com estudo para uso de painéis solares, tornando o sistema mais sustentável.
O que o mundo já aprendeu ao dessalinizar água do mar

Embora a usina de Ilhabela seja pioneira em São Paulo, a ideia de dessalinizar água do mar já é realidade há muito tempo em outras regiões do planeta. Países com clima árido ou com escassez hídrica severa apostaram nessa solução para garantir água potável em larga escala.
Israel é um dos exemplos mais conhecidos. A usina de Sorek, localizada a cerca de 15 quilômetros ao sul de Tel Aviv, é considerada uma das maiores e mais eficientes usinas de dessalinização por osmose reversa do mundo.
Sua capacidade chega a 624 milhões de litros de água por dia, volume suficiente para abastecer mais de 4 milhões de pessoas diariamente. O impacto foi tão grande que Israel, antes altamente dependente das chuvas, hoje consegue até exportar água tratada para países vizinhos.
Na Arábia Saudita, as condições desérticas fizeram do país o maior produtor mundial de água dessalinizada. A usina de Ras Al Khair se destaca como uma megaestrutura que combina métodos térmicos e de osmose reversa para atender tanto a população quanto demandas industriais. Sem esse tipo de solução, várias cidades simplesmente não teriam como crescer.
A Austrália também entrou na rota da dessalinização depois de enfrentar uma seca grave entre 2001 e 2009. Cidades costeiras como Perth, Sydney e Melbourne instalaram usinas que hoje respondem por uma fatia importante do abastecimento urbano. Já na Espanha, principalmente na Catalunha e nas Ilhas Canárias, a dessalinização faz parte do planejamento hídrico há décadas, ajudando a lidar com o clima mediterrâneo e com a pressão constante do turismo.
A usina de Ilhabela segue os mesmos princípios técnicos: uso de osmose reversa, pré-tratamento cuidadoso e gestão ambiental do descarte da salmoura. A grande diferença está no contexto brasileiro. Aqui, o país tem a chance de aprender a dessalinizar água do mar não apenas por desespero, mas como estratégia preventiva para diversificar a matriz hídrica antes que a crise se agrave de forma irreversível.
Ilhabela e o começo da era da “água infinita” no litoral brasileiro
Se o projeto funcionar como planejado, a usina de dessalinização de Ilhabela pode se tornar um verdadeiro divisor de águas no abastecimento do litoral norte paulista. Os impactos vão além da torneira do morador. Envolvem segurança hídrica, economia local, turismo e, principalmente, a forma como o Brasil enxerga o próprio oceano.
Em termos práticos, a usina deve aumentar a oferta de água potável nos períodos mais críticos de verão, quando a população triplica e o sistema atual entra no limite.
Ao aproveitar uma fonte abundante como o mar, a ilha reduz a dependência de mananciais distantes e vulneráveis, ao mesmo tempo em que ganha margem para crescer com mais planejamento e menos improviso.
Do ponto de vista econômico, a construção e a operação da usina movimentam empregos e serviços, fortalecendo um dos pilares da economia local, que é o turismo. Com água mais garantida, pousadas, restaurantes e comércios podem enfrentar feriados e altas temporadas com menos risco de colapso no abastecimento.
No contexto ambiental e estratégico, o projeto se conecta a um cenário maior. Em um país com mais de 8 mil quilômetros de costa, aprender a dessalinizar água do mar de forma segura e sustentável pode se transformar em uma peça-chave da adaptação às mudanças climáticas, que trazem estiagens prolongadas e pressão crescente sobre os recursos naturais.
Cidades como Santos, Ubatuba, Florianópolis, Recife e outras regiões costeiras, que enfrentam crescimento acelerado e redes de abastecimento no limite, podem olhar para Ilhabela como estudo de caso. Se o modelo se mostrar eficiente técnica, econômica e ambientalmente, nada impede que surja uma rede de usinas ao longo do litoral brasileiro, cada uma ajustada à realidade local.
A usina de Ilhabela ainda está cercada de expectativas e de perguntas em aberto, mas já nasce com potencial para inaugurar uma nova etapa na gestão da água no Brasil. Em vez de enxergar o mar apenas como paisagem, o país começa a tratá-lo como parte ativa da solução.
E você, acha que projetos para dessalinizar água do mar como o de Ilhabela deveriam se espalhar por todo o litoral brasileiro nos próximos anos?

Ilhabela nao precisa nada disso, se tem um lugar que tem mais água doce que la desconheço, são mais de 30 cachoeiras de porte, e outras 300 corredeiras, mas claro que aí tem corrupção e sera caríssimo essa construção e vai pesar bem no bolso do consumidor.
Os bilhões gastos na transposição do São Francisco daria para construir centenas de dessalinizadores osmoze reversa levando água do mar para todo sertão.