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A Fervo Energy usou técnica de petróleo para criar um geotérmico que funciona em qualquer lugar do planeta

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Escrito por Douglas Avila Publicado em 29/06/2026 às 15:09 Atualizado em 29/06/2026 às 15:11
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A Fervo Energy fez algo que a indústria geotérmica tentava há décadas sem conseguir: pegou a perfuração horizontal que o setor de petróleo e gás aperfeiçoou nos últimos vinte anos — a mesma técnica que transformou os EUA no maior produtor de petróleo do mundo — e aplicou para criar sistemas geotérmicos em rocha quente que não tem água subterrânea natural, o que significa que você pode instalar geotérmico em quase qualquer lugar do planeta onde a crosta terrestre esteja quente o suficiente.

O problema que a Fervo resolveu

Geotérmico convencional precisa de três coisas ao mesmo tempo: rocha quente, água subterrânea e permeabilidade — fraturas naturais que permitem que a água circule e carregue o calor para a superfície. Essas três condições juntas existem em poucos lugares no mundo: Islândia, Nova Zelândia, partes do Quênia, Indonésia, Filipinas e algumas regiões dos EUA e do Japão.

Sistemas geotérmicos aprimorados — EGS, enhanced geothermal systems — tentam resolver isso criando permeabilidade artificial: você perfura até rocha quente, injeciona água sob pressão para criar microfraturas, e usa esse sistema artificial de circulação para extrair calor. O conceito existe desde os anos 1970 — o problema é que nunca funcionou em escala comercial. Os poços verticais que o setor usava criavam fraturas imprevisíveis e sistemas muito ineficientes.

A Fervo chegou com uma ideia radical: usar poços horizontais. Em vez de um poço vertical, dois poços horizontais paralelos a 3.000 metros de profundidade, conectados por fraturas induzidas — exatamente como o fracking funciona no petróleo, mas sem usar produtos químicos, sem extrair hidrocarbonetos e sem emissões de metano.

O que aconteceu em Utah que mudou tudo

No Utah FORGE — laboratório de pesquisa de EGS financiado pelo Departamento de Energia americano — e no Project Red, em Nevada, a Fervo demonstrou que sua abordagem funciona. Os poços horizontais criaram sistemas de circulação muito mais eficientes do que qualquer EGS vertical testado anteriormente, com fluxo de água adequado para produção elétrica contínua.

Em Nevada, a Fervo entregou energia para a rede elétrica da Google — que comprou toda a geração de um projeto-piloto como parte de seus compromissos de energia limpa 24/7. Foi a primeira vez que um EGS entrou em produção comercial nos Estados Unidos. Em Utah, os resultados mais recentes mostram eficiência ainda maior, com temperaturas acima de 200 graus Celsius nos poços horizontais a 3.300 metros de profundidade.

A escalabilidade é o elemento mais importante. O shale de petróleo e gás americano — que produziu a revolução do fracking — funciona em bacias sedimentares específicas. O EGS horizontal da Fervo funciona em rocha cristalina quente — granito, gnaisse, basalto — que existe em abundância em todos os continentes.

Por que isso importa para o Brasil

A produção geotérmica convencional no Brasil é considerada inviável pela maioria dos geólogos. Não temos vulcões ativos, o gradiente geotérmico médio é baixo, as condições de Islândia ou Nova Zelândia não existem aqui. O EGS horizontal muda essa equação.

Regiões do Brasil com gradiente geotérmico mais elevado — parte do Nordeste, sul da bacia do Paraná, regiões de rifts precambrianos — podem se tornar candidatas a sistemas EGS se o custo de perfuração continuar caindo. A Fervo já reduziu o custo por megawatt do EGS em cerca de 60% nos últimos quatro anos, usando automação de perfuração e poços mais rápidos.

A indústria de petróleo brasileira tem décadas de expertise em perfuração offshore em profundidades extremas. Pré-sal, camada de sal, formações de alta pressão — a Petrobras e as contratistas brasileiras sabem perfurar em condições difíceis. Adaptar essa expertise para EGS horizontal em terra é um passo técnico menor do que parece.

Quando o geotérmico vira commodity

A Fervo projeta que o EGS horizontal pode competir com o custo de geração de energia solar ou eólica por volta de 2030, com projetos de 50-100 megawatts operando de forma contínua — sem a variabilidade que torna solar e eólica dependentes de armazenamento. Geotérmico é baseecarga: funciona 24 horas por dia, 365 dias por ano, independentemente do clima.

Isso resolve o problema mais sério das renováveis intermitentes: como garantir que a luz não vai apagar quando o sol se põe ou o vento para. Cada megawatt de geotérmico é um megawatt que não precisa de bateria ou de termelétrica de backup.

Confesso que a notícia de Utah me deu uma sensação parecida com a do xisto americano em 2008 — quando todo mundo ainda dizia que fracking não ia funcionar em escala e cinco anos depois os EUA estavam exportando petróleo.

Leia também: a máquina que promete cavar onde o aço derrete | os robôs que descem 4 quilômetros onde nenhum humano aguenta o calor.

Você acha que o EGS horizontal vai mudar a matriz energética global nos próximos vinte anos, ou ainda existe alguma barreira técnica ou econômica que vai segurar essa tecnologia? Comenta aqui embaixo.

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Douglas Avila

Trabalho com tecnologia há 16 anos, hoje 100% focado em IA. Atuo como CAIO (Chief AI Officer) em São Paulo, com foco em receita. Formado em Sistemas para Internet pelo Senac. No Click Petróleo e Gás escrevo sobre tecnologia e inovação aplicadas aos setores estratégicos da economia brasileira: energia, indústria, transporte marítimo, automotivo, ciência e engenharia

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