Missão científica iniciada no Recife levou o Meteor a uma travessia decisiva pelo Atlântico tropical, com sensores, boias e equipes internacionais dedicadas a registrar correntes profundas, transporte de calor e processos oceânicos que ajudam a explicar mudanças acompanhadas por pesquisadores do clima.
O navio de pesquisa alemão Meteor encerrou sua trajetória científica após iniciar no Brasil a expedição M219, uma travessia entre Recife e Emden, na Alemanha, dedicada ao estudo de correntes oceânicas, transporte de calor e interações entre oceano e atmosfera no Atlântico tropical.
Segundo o GEOMAR Helmholtz Centre for Ocean Research Kiel, a missão ocorreu oficialmente de 30 de maio a 28 de junho de 2026 e marcou a última campanha do navio, depois de cerca de 40 anos de serviço em operações internacionais.
Última missão do Meteor partiu do Recife
A despedida do Meteor começou no Porto do Recife e seguiu em direção a Emden, cruzando áreas consideradas estratégicas para a observação da circulação oceânica no Atlântico tropical e para o acompanhamento de sistemas que influenciam processos climáticos de grande escala.
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À frente da expedição M219 estava o professor Peter Brandt, diretor da divisão de Oceanografia Física do GEOMAR, que assumiu a chefia científica de sua 17ª viagem a bordo do navio usado por gerações de pesquisadores.
Durante a travessia, as equipes trabalharam com medições voltadas a identificar mudanças em correntes marinhas e no transporte de calor pelo oceano, processos que não aparecem na superfície, mas participam da redistribuição de energia entre diferentes regiões.
Embora sejam invisíveis para quem observa apenas o mar aberto, esses movimentos ajudam a conectar águas quentes e frias em diferentes profundidades, interferindo em mecanismos acompanhados por centros de pesquisa dedicados à compreensão do clima global.
Correntes profundas do Atlântico foram foco da expedição
Entre os principais alvos da missão estava a Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico, conhecida pela sigla AMOC, sistema descrito pelo GEOMAR como parte de um mecanismo de aquecimento e resfriamento do clima.
Por meio desse sistema, águas superficiais mais quentes seguem em direção ao norte, enquanto águas frias retornam em profundidade no sentido oposto, formando uma engrenagem oceânica associada ao transporte de energia e à dinâmica atmosférica.
Na área próxima ao Brasil, os pesquisadores acompanharam oscilações da Subcorrente Norte do Brasil e da Corrente Profunda de Contorno Oeste, duas estruturas importantes para entender a circulação em camadas profundas do Atlântico tropical.
Medições realizadas no equador também serviram para observar o deslocamento de massas de água e sinais que se propagam das margens para o interior do oceano, ampliando a leitura sobre variações difíceis de registrar por satélites.
A missão incluiu a retirada, manutenção e reinstalação de sistemas ancorados em águas profundas, equipados com sensores capazes de registrar corrente, temperatura, oxigênio e partículas ao longo de períodos prolongados.
Com séries contínuas de dados, os pesquisadores conseguem comparar variações oceânicas em diferentes anos, reduzindo a dependência de observações isoladas e fortalecendo o acompanhamento de mudanças graduais em áreas de difícil acesso.
Além das amarrações submarinas, a equipe instalou ecobatímetros de fundo com sensores de pressão no leito marinho, instrumentos usados para ajudar a caracterizar a AMOC no Atlântico tropical e seus padrões de variação.
Esse tipo de observação de longo prazo é relevante porque permite acompanhar processos que se desenvolvem lentamente, muitas vezes longe da superfície, mas com possível influência sobre o transporte de calor e a circulação em escala oceânica.
Boia em Cabo Verde amplia monitoramento do oceano
No trajeto pelo Atlântico, a rota incluiu uma parada em Mindelo, em Cabo Verde, onde foi embarcada uma nova boia de medição desenvolvida e construída em Kiel pelo GEOMAR.
O equipamento foi planejado para ficar ancorado perto do Cape Verde Ocean Observatory, estação usada em pesquisas de longa duração sobre o oceano tropical e sobre as trocas entre a superfície marinha e a atmosfera.
A boia deve coletar dados do oceano e do ar acima dele, com transmissão para o GEOMAR e instituições cabo-verdianas, permitindo acompanhar trocas de calor e gases, além de processos ligados ao carbono.
Também associado a essa rede de observação, o Cape Verde Ocean Observatory registra como o oceano absorve e armazena dióxido de carbono, informação importante para estudos sobre acidificação oceânica e possíveis efeitos sobre organismos marinhos.
Ao longo da viagem, a bordo do Meteor, os cientistas ainda realizaram estações oceanográficas para medir temperatura, salinidade, oxigênio, nutrientes, correntes e distribuição de partículas em diferentes profundidades da coluna d’água.
Essa combinação de instrumentos permite comparar dados coletados em pontos estratégicos da rota, aproximando medições diretas feitas em campo de séries históricas mantidas por programas de monitoramento oceânico.
Navio-laboratório alemão encerra ciclo no mar
Em serviço desde 1986, o Meteor atuou em diferentes regiões marítimas, incluindo Atlântico, Pacífico oriental, Índico ocidental, Mediterrâneo e Báltico, sempre como plataforma de pesquisa interdisciplinar da frota científica alemã.
Ao longo de quatro décadas, a embarcação apoiou trabalhos em meteorologia marinha, oceanografia física, química marinha, geologia, geofísica, biologia e sedimentologia, transportando laboratórios, sensores e equipes técnicas para regiões onde medições diretas dependem de operações em campo.
Essa estrutura ajuda a explicar por que a última missão foi além de uma travessia entre dois portos, já que o navio não transportava carga comercial ou passageiros, mas instrumentos científicos preparados para operar em alto-mar.
Reunidos na expedição M219, pesquisadores e técnicos de instituições alemãs e estrangeiras participaram de atividades ligadas ao GEOMAR, à Universidade de Miami, à Universidade Federal de Pernambuco, ao Lamont-Doherty Earth Observatory, à Universidade de Oldenburg e ao Centre National de la Recherche Scientifique, da França.
Com o fim da rota em Emden, o Meteor deixou espaço para a transição a uma nova geração de navios científicos, incluindo o Meteor 2026, construído no projeto “Meteor IV” para substituir o Meteor atual e o Poseidon.
A previsão registrada pelo portal German Research Vessels é que o novo navio seja comissionado no fim de 2026, mantendo ativa a tradição alemã de plataformas dedicadas a observações contínuas em áreas oceânicas estratégicas.
